Chatsex_023 - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Chatsex_023

As fotos não eram digitais ainda. Eu escaneava algumas fotos em que eu saía mais bonitinho.
Colocava a foto no scanner. Selecionava 300 dpi (porque não sabia ainda que para internet apenas 92 estava de bom tamanho). Cortava as fotos no Corel e exportava o jpeg. Não tinha Photoshop e eventualmente acabava tendo que fazer alguma coisa no PaintBrush. Dava trabalho, mas eu acreditava que era preciso ter uma foto sua para um encontro marcado virtualmente. Não era.

As fotos que recebi dela eram estranhas. Muito gostosa, sim, mas o rosto e o corpo pareciam brigar um pouco… como as fotos da Sandy e da Britney Spears peladas que eu tinha no computador. Pelo visto, Paty não se dava ao trabalho de escanear suas fotos e cortar em programas não tão adequados.

Mas na época… Falta de conhecimento; hormônios; CumFiesta.com. Passei a entrar sempre na Chatsex_023 da AOL, esperando a Paty entrar. Era ela aparecer e eu começava a siririca no teclado, deslizando meus dedos avidamente para falar de prazer. Meu pau ficava duro. Na minha opinião, eu era um grande escritor. Meu pau ficava tão duro ao imaginar e escrever as putarias quanto ao ver vídeos pornôs. Um escritor sólido feito uma rocha. Gosto de frisar sobre a insipiência, hormônios, pornografia gratuita. Modéstia a parte, tenho certeza que o alter ego da Paty ficava de pau duro também.

Ah, sim. A Paty não existia. Era um homem. Adiantei a história e cortei uns parágrafos. Sorte a de vocês. Enfim, pior do que essa cuspida de mudança na história foi o jeito como descobri isso. Marquei um encontro em um shopping.
Eu detestava shoppings. Detesto. Hoje, talvez, pelo trauma do ocorrido. Na época porque achava tedioso ficar andando em um lugar onde tinha tudo para comprar: livros, CDs, DVDs, comida; mas eu não tinha nenhum dinheiro. Mas buceta, de graça, eu queria. Marquei na porra do shopping.

Vocês devem imaginar que o rostinho lindo da foto que eu tinha como Paty, com aquele corpo escultural, nunca foi visto andando naquele lugar. Acho até bom isso. A cabeça era branca demais se comparada com o corpo bronzeado, não era algo tão harmonioso. Mas era um rosto bonito em um corpo feminino nu. Sério, parece ridículo (e é, na verdade), mas foi muito fácil me enganar.

Eu estava comprando uma esfiha no Habib’s, pois era o que eu podia comprar com R$ 0,29, quando um careca chegou atrás de mim e me deu um esbarrão. Continuei aguardando minha esfiha, ignorando o transeunte distraído. Nem sabia que ele era careca. Ele me cutucou.

◦ Tô na fila.

◦ Vem comigo, porra.

Eu não entendi, nem fiz questão. Já tinha pago a esfiha, eu queria comer.

◦ Eu mandei vir comigo, caralho!

Um cara que eu não conheço me dando ordens? Olhei pra ele. Notei nesse momento que ele era careca. Olhei para meu cupom fiscal. Olhei pro atendente estranhamente feliz que me dava boa tarde. Entreguei o cupom a ele.

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Fabiano Soares
Chatsex_023

As fotos não eram digitais ainda. Eu escaneava algumas fotos em que eu saía mais bonitinho.
Colocava a foto no scanner. Selecionava 300 dpi (porque não sabia ainda que para internet apenas 92 estava de bom tamanho). Cortava as fotos no Corel e exportava o jpeg. Não tinha Photoshop e eventualmente acabava tendo que fazer alguma coisa no PaintBrush. Dava trabalho, mas eu acreditava que era preciso ter uma foto sua para um encontro marcado virtualmente. Não era.

As fotos que recebi dela eram estranhas. Muito gostosa, sim, mas o rosto e o corpo pareciam brigar um pouco… como as fotos da Sandy e da Britney Spears peladas que eu tinha no computador. Pelo visto, Paty não se dava ao trabalho de escanear suas fotos e cortar em programas não tão adequados.

Mas na época… Falta de conhecimento; hormônios; CumFiesta.com. Passei a entrar sempre na Chatsex_023 da AOL, esperando a Paty entrar. Era ela aparecer e eu começava a siririca no teclado, deslizando meus dedos avidamente para falar de prazer. Meu pau ficava duro. Na minha opinião, eu era um grande escritor. Meu pau ficava tão duro ao imaginar e escrever as putarias quanto ao ver vídeos pornôs. Um escritor sólido feito uma rocha. Gosto de frisar sobre a insipiência, hormônios, pornografia gratuita. Modéstia a parte, tenho certeza que o alter ego da Paty ficava de pau duro também.

Ah, sim. A Paty não existia. Era um homem. Adiantei a história e cortei uns parágrafos. Sorte a de vocês. Enfim, pior do que essa cuspida de mudança na história foi o jeito como descobri isso. Marquei um encontro em um shopping.
Eu detestava shoppings. Detesto. Hoje, talvez, pelo trauma do ocorrido. Na época porque achava tedioso ficar andando em um lugar onde tinha tudo para comprar: livros, CDs, DVDs, comida; mas eu não tinha nenhum dinheiro. Mas buceta, de graça, eu queria. Marquei na porra do shopping.

Vocês devem imaginar que o rostinho lindo da foto que eu tinha como Paty, com aquele corpo escultural, nunca foi visto andando naquele lugar. Acho até bom isso. A cabeça era branca demais se comparada com o corpo bronzeado, não era algo tão harmonioso. Mas era um rosto bonito em um corpo feminino nu. Sério, parece ridículo (e é, na verdade), mas foi muito fácil me enganar.

Eu estava comprando uma esfiha no Habib’s, pois era o que eu podia comprar com R$ 0,29, quando um careca chegou atrás de mim e me deu um esbarrão. Continuei aguardando minha esfiha, ignorando o transeunte distraído. Nem sabia que ele era careca. Ele me cutucou.

◦ Tô na fila.

◦ Vem comigo, porra.

Eu não entendi, nem fiz questão. Já tinha pago a esfiha, eu queria comer.

◦ Eu mandei vir comigo, caralho!

Um cara que eu não conheço me dando ordens? Olhei pra ele. Notei nesse momento que ele era careca. Olhei para meu cupom fiscal. Olhei pro atendente estranhamente feliz que me dava boa tarde. Entreguei o cupom a ele.

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