Chatsex_023 - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Chatsex_023

◦ Uma de queijo.

Olhei para o careca, que suava, olhava para o relógio, olhava para os lados, olhava para mim e voltava a olhar para o relógio. Estranho. Peguei minha esfiha de queijo com quatro guardanapos. Sempre vazava um líquido daquela merda que cagava minhas roupas. Peguei mais dois guardanapos, por segurança. Meu braço quase foi arrancado pelo puxão que o careca me deu. A esfiha sambou na minha mão, e antes de perguntar o porquê de ele estar me puxando, comi metade daquela rodela. Meu dedo anelar e o mindinho já estavam engordurados.

Deixei o careca me conduzir porque estava com a boca cheia. Chegando quase à saída do shopping, já engolida a esfiha, dei um tranco pra trás com o braço.

◦ Quem é você, cara? Tá me levando pra onde?

O homem só deslocou uma parte do seu terno, mostrando uma pistola. Falou, sem pronunciar som algum, mas abrindo exageradamente a boca e pausadamente, como fazemos quando queremos fofocar sem som, apenas uma palavra: Paty. E assim me convenceu a segui-lo.

Na hora eu só pensava em uma coisa: essa esfiha já foi mais recheada. Realmente, que miséria de queijo estavam colocando agora. Mas lutava internamente para explicar a mim mesmo o que estava acontecendo. A Paty tinha marido e ele descobriu que marcamos? O pai dela não era muito entusiasta desses encontros de internet? Tinham mais opções, mas no momento, o fato de ter pago trinta centavos em uma esfiha quase sem recheio estava me ocupando demais, e não consegui desvendar o mistério.

Hoje penso que poderia ter saído correndo, no shopping, e ver a merda que ia dar com um maluco atirando aleatoriamente no meio da praça de alimentação. Mas a minha falta de reação por conta da maldita esfiha me fodeu. Fodeu com “o”, porque não é um fuder, com tesão; prezo muito essa diferença. Mas conformado com a merda que tinha dado, e travado por saber que o cara tinha uma arma, deixei-me levar até um carro, para onde fui empurrado brutalmente e tive a certeza de que não sairia daquele encontro vivo.

No banco de trás do carro fui abraçado (o termo técnico, acredito que seja “levei um mata-leão”, mas nunca fui bom de artes marciais) por um homem forte. Estava tudo muito escuro, então só posso descrever o que senti, porque não via nada. O careca foi na frente, no carona, apontando a arma para mim.

◦ Olha aí o garanhão que quer fuder a Paty! – o careca gritou.

Todos riram, e por um momento torci para ser uma pegadinha do Gugu, do Sérgio Mallandro, o que fosse. Tentei até lembrar da fisionomia do careca, para me forçar a acreditar que poderia ser o Ivo Holanda disfarçado, e eu ia meter a porrada em todo mundo no carro, sair puto e xingando, e ouviria “que isso, amigo! É pegadinha, olh’ali, oh!”, e avisaria a todos os meus amigos e família que eu passaria no SBT, e ia pedir para alguém gravar na fita, ia rir pra caralho. Mas as risadas dentro do carro duraram pouco, e logo eu tomei um soco no estômago.

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Fabiano Soares
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◦ Uma de queijo.

Olhei para o careca, que suava, olhava para o relógio, olhava para os lados, olhava para mim e voltava a olhar para o relógio. Estranho. Peguei minha esfiha de queijo com quatro guardanapos. Sempre vazava um líquido daquela merda que cagava minhas roupas. Peguei mais dois guardanapos, por segurança. Meu braço quase foi arrancado pelo puxão que o careca me deu. A esfiha sambou na minha mão, e antes de perguntar o porquê de ele estar me puxando, comi metade daquela rodela. Meu dedo anelar e o mindinho já estavam engordurados.

Deixei o careca me conduzir porque estava com a boca cheia. Chegando quase à saída do shopping, já engolida a esfiha, dei um tranco pra trás com o braço.

◦ Quem é você, cara? Tá me levando pra onde?

O homem só deslocou uma parte do seu terno, mostrando uma pistola. Falou, sem pronunciar som algum, mas abrindo exageradamente a boca e pausadamente, como fazemos quando queremos fofocar sem som, apenas uma palavra: Paty. E assim me convenceu a segui-lo.

Na hora eu só pensava em uma coisa: essa esfiha já foi mais recheada. Realmente, que miséria de queijo estavam colocando agora. Mas lutava internamente para explicar a mim mesmo o que estava acontecendo. A Paty tinha marido e ele descobriu que marcamos? O pai dela não era muito entusiasta desses encontros de internet? Tinham mais opções, mas no momento, o fato de ter pago trinta centavos em uma esfiha quase sem recheio estava me ocupando demais, e não consegui desvendar o mistério.

Hoje penso que poderia ter saído correndo, no shopping, e ver a merda que ia dar com um maluco atirando aleatoriamente no meio da praça de alimentação. Mas a minha falta de reação por conta da maldita esfiha me fodeu. Fodeu com “o”, porque não é um fuder, com tesão; prezo muito essa diferença. Mas conformado com a merda que tinha dado, e travado por saber que o cara tinha uma arma, deixei-me levar até um carro, para onde fui empurrado brutalmente e tive a certeza de que não sairia daquele encontro vivo.

No banco de trás do carro fui abraçado (o termo técnico, acredito que seja “levei um mata-leão”, mas nunca fui bom de artes marciais) por um homem forte. Estava tudo muito escuro, então só posso descrever o que senti, porque não via nada. O careca foi na frente, no carona, apontando a arma para mim.

◦ Olha aí o garanhão que quer fuder a Paty! – o careca gritou.

Todos riram, e por um momento torci para ser uma pegadinha do Gugu, do Sérgio Mallandro, o que fosse. Tentei até lembrar da fisionomia do careca, para me forçar a acreditar que poderia ser o Ivo Holanda disfarçado, e eu ia meter a porrada em todo mundo no carro, sair puto e xingando, e ouviria “que isso, amigo! É pegadinha, olh’ali, oh!”, e avisaria a todos os meus amigos e família que eu passaria no SBT, e ia pedir para alguém gravar na fita, ia rir pra caralho. Mas as risadas dentro do carro duraram pouco, e logo eu tomei um soco no estômago.

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