Crônica de uma morte viajada - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Crônica de uma morte viajada

Fim de noite. Alguns poucos amigos ainda estavam em sua casa. Gustavo estava sentado distante, não que não gostasse das pessoas, mas interagia muito pouco quando estava doido. E ele estava doido. Havia tomado um selinho de LSD, e estava totalmente absorto ouvindo a música do ambiente. Gostava de sentir como músicas triviais ganhavam camadas extras quando ele estava sob efeito do ácido, mais até do que as alucinações visuais. Algumas músicas passavam a ter a experiência de ouvi-las alterada depois de prestar atenção na sua totalidade (música pura mais o que está escondido para os viajantes desse mundo), fazendo com que ele gostasse mais delas.

E no exato momento em que tocava “Ashes to Ashes”, do Faith No More, e ele viajava sobre brigas entre baleias gigantes e alcateias de lobos-do-ártico, no ártico (porque numa viagem, dependendo do selo, isso pode acontecer até no inferno…), um estrondo surpreendeu-o, tirando-o do delírio, e a música pareceu esmaecer. A alcateia e as baleias saíam cada uma para seu lado, dissipando a viagem de Gustavo, e ele lentamente abriu os olhos para tentar compreender o que estava acontecendo. Algo chamou-lhe a atenção no bar de canto de sua casa, e ao cerrar um pouco os olhos – algo que psicologicamente funciona como uma tentativa de dar foco à visão – , percebeu que ali estava um homem que ele não conhecia, encarando-o. O sujeito realmente era estranho – o fato da visão de Gustavo estar em um constante ir e vir em um zoom maldito ajudava a achá-lo estranho, talvez – , e no entanto, parecia ser a sua casa, tão à vontade que estava: uma camisa de botão preta com estampas quase radioativas de tão coloridas, aberta até a metade da barriga; em uma das mãos, uma taça com alguma bebida dentro; e no rosto, um sorriso cínico dos mais vagabundos.

O sujeito começou a vir na direção de Gustavo, que tentou desviar o olhar, para o chão, depois fechou os olhos, ficando cada vez mais tenso na medida que sentia o sujeito aproximar-se. “A merda do meu safe place, caralho… respeita meu safe place…”, pensava, angustiado, o anfitrião chapado. Sentiu, mesmo com os olhos fechados, algo cortar-lhe os resquícios de luz que batiam nas pálpebras e teve certeza que aquele cara estava na sua frente, tão próximo que… sim, conseguia sentir o hálito de bebida forte vindo daquele desconhecido, a uma distância que, em sua juventude, seria considerada a distância anterior a um beijo de língua bem babado em alguma garota. Fechou ainda mais o olho esquerdo para que abrisse apenas um pouco do olho direito, o que o fez ficar com uma careta de criança birrenta, com a boca puxada para o lado esquerdo. Ao abrir, o que viu foi um imenso rosto desconhecido mais próximo do que ele gostaria, com um imenso sorriso debochado e olhos esbugalhados que convergiam para o seu. No susto, Gustavo abriu os dois olhos e jogou-se para trás, instintivamente. O sujeito ria e sentou-se ao seu lado, dando-lhe um tapa na coxa, com uma intimidade que não fazia sentido.

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Fabiano Soares
Crônica de uma morte viajada

Fim de noite. Alguns poucos amigos ainda estavam em sua casa. Gustavo estava sentado distante, não que não gostasse das pessoas, mas interagia muito pouco quando estava doido. E ele estava doido. Havia tomado um selinho de LSD, e estava totalmente absorto ouvindo a música do ambiente. Gostava de sentir como músicas triviais ganhavam camadas extras quando ele estava sob efeito do ácido, mais até do que as alucinações visuais. Algumas músicas passavam a ter a experiência de ouvi-las alterada depois de prestar atenção na sua totalidade (música pura mais o que está escondido para os viajantes desse mundo), fazendo com que ele gostasse mais delas.

E no exato momento em que tocava “Ashes to Ashes”, do Faith No More, e ele viajava sobre brigas entre baleias gigantes e alcateias de lobos-do-ártico, no ártico (porque numa viagem, dependendo do selo, isso pode acontecer até no inferno…), um estrondo surpreendeu-o, tirando-o do delírio, e a música pareceu esmaecer. A alcateia e as baleias saíam cada uma para seu lado, dissipando a viagem de Gustavo, e ele lentamente abriu os olhos para tentar compreender o que estava acontecendo. Algo chamou-lhe a atenção no bar de canto de sua casa, e ao cerrar um pouco os olhos – algo que psicologicamente funciona como uma tentativa de dar foco à visão – , percebeu que ali estava um homem que ele não conhecia, encarando-o. O sujeito realmente era estranho – o fato da visão de Gustavo estar em um constante ir e vir em um zoom maldito ajudava a achá-lo estranho, talvez – , e no entanto, parecia ser a sua casa, tão à vontade que estava: uma camisa de botão preta com estampas quase radioativas de tão coloridas, aberta até a metade da barriga; em uma das mãos, uma taça com alguma bebida dentro; e no rosto, um sorriso cínico dos mais vagabundos.

O sujeito começou a vir na direção de Gustavo, que tentou desviar o olhar, para o chão, depois fechou os olhos, ficando cada vez mais tenso na medida que sentia o sujeito aproximar-se. “A merda do meu safe place, caralho… respeita meu safe place…”, pensava, angustiado, o anfitrião chapado. Sentiu, mesmo com os olhos fechados, algo cortar-lhe os resquícios de luz que batiam nas pálpebras e teve certeza que aquele cara estava na sua frente, tão próximo que… sim, conseguia sentir o hálito de bebida forte vindo daquele desconhecido, a uma distância que, em sua juventude, seria considerada a distância anterior a um beijo de língua bem babado em alguma garota. Fechou ainda mais o olho esquerdo para que abrisse apenas um pouco do olho direito, o que o fez ficar com uma careta de criança birrenta, com a boca puxada para o lado esquerdo. Ao abrir, o que viu foi um imenso rosto desconhecido mais próximo do que ele gostaria, com um imenso sorriso debochado e olhos esbugalhados que convergiam para o seu. No susto, Gustavo abriu os dois olhos e jogou-se para trás, instintivamente. O sujeito ria e sentou-se ao seu lado, dando-lhe um tapa na coxa, com uma intimidade que não fazia sentido.

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