Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Crônica de uma morte viajada

Ligou para o chefe e pediu compreensão, mas precisava tirar a próxima semana para resolver assuntos sérios de sua vida. Como sua voz era realmente triste e parecia vir de um abismo, tão apático ele soava, o chefe não pediu explicações e permitiu que tirasse o tempo necessário, mas que se cuidasse. Gustavo consentiu.

Decidiu que não explicaria o motivo de estar afoito para ninguém. Avisou a Patrícia que tiraria a próxima semana de férias, e que se fosse possível, ela pelo menos folgasse durante alguns dias para poderem passear, mas avisou-a de que teria que passar na casa de algumas pessoas importantes para ele: família, amigos, e que não poderia esperar que ela chegasse do trabalho para o tal, e que iria fazer isso durante a semana. A garota não entendeu nada, a pressa dessas visitas, e começou a argumentar que isso os atrapalharia quando quisessem tirar férias juntos. No que os tons começaram a elevar-se, Gustavo disse que não queria brigar. Como amava aquela garota e odiava brigar com ela por motivos bobos… Mas sempre que pequenas coisas saíam dos lugares, podiam virar brigas feias, estúpidas e sem motivos reais. Mas ele não tinha tempo para isso; sabia que ficaria uma eternidade ao seu lado, quanto mais uma semana. Beijou-a e disse que apenas sentia que precisava fazer isso, e não queria brigas durante aquelas férias surpresas. Começaram o domingo transando antes do almoço.

Gustavo aproveitou os dias ao máximo, alongando as noites o máximo que podia com Patrícia, e acordando cedo para passeios. Passou um longo dia com os pais, vendo fotos de quando era mais jovem, relembrando histórias da infância e juventude, e óbvio, pediu para os coroas fazerem a comida que ele mais gostava de cada um. O caldo de aipim com carne seca do pai; as batatas gratinadas e a lentilha da mãe. Continuavam com o mesmo gosto de quando era mais jovem, e a família continuava divertida.

Foi uma semana de encontros com diversos amigos que não via há tempos. Passeou com a sobrinha, uma das criaturas mais queridas por ele, mas que o trabalho, a distância e a vida corrida acabavam fazendo com que não se vissem tanto quanto gostaria. Patrícia tirou duas folgas e viajaram para lugares próximos, aproveitando cada momento da viagem. Tanto com os amigos, quanto com a família ou até mesmo com Patrícia, teve que segurar o choro diversas vezes, sempre que pensava que estava perto de morrer e aqueles eram escolhidos para compartilhar com ele os últimos momentos da vida; isso lhe dava uma tristeza e uma alegria imensas, uma mistura de extremos de cada sentimento. Mas não podia chorar, não podia falar com ninguém sobre isso. Como explicaria que um selo de LSD lhe abrira um portal e fizera com que tivesse uma epifania de sua morte através de Hermes? Iriam interná-lo como louco, e ele não podia perder tempo explicando nada; precisava viver.
E assim fez, intensamente, até chegar a noite de domingo. Ele e Patrícia estavam sentados no quintal, no mesmo local onde Gustavo teve as revelações. Abraçados, olhavam para o céu, e a lua estava cheia, foda, um banho de contraste naquele azul quase roxo do céu.

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Fabiano Soares
Crônica de uma morte viajada

Ligou para o chefe e pediu compreensão, mas precisava tirar a próxima semana para resolver assuntos sérios de sua vida. Como sua voz era realmente triste e parecia vir de um abismo, tão apático ele soava, o chefe não pediu explicações e permitiu que tirasse o tempo necessário, mas que se cuidasse. Gustavo consentiu.

Decidiu que não explicaria o motivo de estar afoito para ninguém. Avisou a Patrícia que tiraria a próxima semana de férias, e que se fosse possível, ela pelo menos folgasse durante alguns dias para poderem passear, mas avisou-a de que teria que passar na casa de algumas pessoas importantes para ele: família, amigos, e que não poderia esperar que ela chegasse do trabalho para o tal, e que iria fazer isso durante a semana. A garota não entendeu nada, a pressa dessas visitas, e começou a argumentar que isso os atrapalharia quando quisessem tirar férias juntos. No que os tons começaram a elevar-se, Gustavo disse que não queria brigar. Como amava aquela garota e odiava brigar com ela por motivos bobos… Mas sempre que pequenas coisas saíam dos lugares, podiam virar brigas feias, estúpidas e sem motivos reais. Mas ele não tinha tempo para isso; sabia que ficaria uma eternidade ao seu lado, quanto mais uma semana. Beijou-a e disse que apenas sentia que precisava fazer isso, e não queria brigas durante aquelas férias surpresas. Começaram o domingo transando antes do almoço.

Gustavo aproveitou os dias ao máximo, alongando as noites o máximo que podia com Patrícia, e acordando cedo para passeios. Passou um longo dia com os pais, vendo fotos de quando era mais jovem, relembrando histórias da infância e juventude, e óbvio, pediu para os coroas fazerem a comida que ele mais gostava de cada um. O caldo de aipim com carne seca do pai; as batatas gratinadas e a lentilha da mãe. Continuavam com o mesmo gosto de quando era mais jovem, e a família continuava divertida.

Foi uma semana de encontros com diversos amigos que não via há tempos. Passeou com a sobrinha, uma das criaturas mais queridas por ele, mas que o trabalho, a distância e a vida corrida acabavam fazendo com que não se vissem tanto quanto gostaria. Patrícia tirou duas folgas e viajaram para lugares próximos, aproveitando cada momento da viagem. Tanto com os amigos, quanto com a família ou até mesmo com Patrícia, teve que segurar o choro diversas vezes, sempre que pensava que estava perto de morrer e aqueles eram escolhidos para compartilhar com ele os últimos momentos da vida; isso lhe dava uma tristeza e uma alegria imensas, uma mistura de extremos de cada sentimento. Mas não podia chorar, não podia falar com ninguém sobre isso. Como explicaria que um selo de LSD lhe abrira um portal e fizera com que tivesse uma epifania de sua morte através de Hermes? Iriam interná-lo como louco, e ele não podia perder tempo explicando nada; precisava viver.
E assim fez, intensamente, até chegar a noite de domingo. Ele e Patrícia estavam sentados no quintal, no mesmo local onde Gustavo teve as revelações. Abraçados, olhavam para o céu, e a lua estava cheia, foda, um banho de contraste naquele azul quase roxo do céu.

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