Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Crônica de uma morte viajada

Olhou o relógio: 01:07. Faltavam pouco mais de duas horas para sua morte. Começou a escovar os dentes. Embora adorasse o tema, Gustavo morria de medo da morte e tudo o que se relacionava com ela: sangue, hospital, etc. Cagaço mesmo, desses de fazer passar vergonha. Estava perto de confrontar-se não com um desses subtemas, mas a própria morte, em breve. Ou poderia ser só alucinação aquilo tudo. Mas o medo era maior por não saber como iria morrer. E se sofresse muito? E se jorrasse sangue? E se batesse o desespero que o fizesse esquecer dos lindos momentos que tivera na vida, e principalmente os que estavam mais frescos, daquela semana? Os últimos momentos, quando você vê toda a sua vida passar rapidamente, não podiam virar uma luta inútil contra o destino fatal em uma tela preta em sua cabeça, só por conta do desespero. Era melhor morrer dormindo, conclusão final, ao término da escovação.

Pegou um remédio para dormir e tomou, para ajudar a passagem, mesmo que artificialmente. Estava voltando para a cama, quando pensou em acordar nos momentos finais de uma parada cardíaca, já morrendo e desesperado por puxar um ar e não conseguir forças para tal. Voltou ao banheiro. Tomou mais um remédio. Dois devem dar conta do recado.

– Vem logo, Coisa! Eu vou dormir, hein! Que tanto faz no banheiro? Tá batendo punheta, é? – gritou Patrícia, deitada na cama. Pode vir que eu aguento mais uma trepada… Filme é que eu durmo…

Gustavo riu. Partiu para a cama e deu umas lambidas em Patrícia, brincaram um pouquinho mais. 02:18. Foi lavar-se no banheiro enquanto Patrícia ficou na cama. Ele sabia que na volta ela já estaria dormindo dessa vez. Olhou-se no espelho. Estava feliz.

Tomou mais nove pílulas e partiu para a cama.

Ele deu o play no filme. Não conseguiu ver até o final.

 

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Fabiano Soares
Crônica de uma morte viajada

Olhou o relógio: 01:07. Faltavam pouco mais de duas horas para sua morte. Começou a escovar os dentes. Embora adorasse o tema, Gustavo morria de medo da morte e tudo o que se relacionava com ela: sangue, hospital, etc. Cagaço mesmo, desses de fazer passar vergonha. Estava perto de confrontar-se não com um desses subtemas, mas a própria morte, em breve. Ou poderia ser só alucinação aquilo tudo. Mas o medo era maior por não saber como iria morrer. E se sofresse muito? E se jorrasse sangue? E se batesse o desespero que o fizesse esquecer dos lindos momentos que tivera na vida, e principalmente os que estavam mais frescos, daquela semana? Os últimos momentos, quando você vê toda a sua vida passar rapidamente, não podiam virar uma luta inútil contra o destino fatal em uma tela preta em sua cabeça, só por conta do desespero. Era melhor morrer dormindo, conclusão final, ao término da escovação.

Pegou um remédio para dormir e tomou, para ajudar a passagem, mesmo que artificialmente. Estava voltando para a cama, quando pensou em acordar nos momentos finais de uma parada cardíaca, já morrendo e desesperado por puxar um ar e não conseguir forças para tal. Voltou ao banheiro. Tomou mais um remédio. Dois devem dar conta do recado.

– Vem logo, Coisa! Eu vou dormir, hein! Que tanto faz no banheiro? Tá batendo punheta, é? – gritou Patrícia, deitada na cama. Pode vir que eu aguento mais uma trepada… Filme é que eu durmo…

Gustavo riu. Partiu para a cama e deu umas lambidas em Patrícia, brincaram um pouquinho mais. 02:18. Foi lavar-se no banheiro enquanto Patrícia ficou na cama. Ele sabia que na volta ela já estaria dormindo dessa vez. Olhou-se no espelho. Estava feliz.

Tomou mais nove pílulas e partiu para a cama.

Ele deu o play no filme. Não conseguiu ver até o final.

 

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