Felicidade não se alcança com padrões - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Felicidade não se alcança com padrões

Viviam discutindo. Ele, um rapaz que achava que a felicidade seria alcançada se simplesmente seguisse os passos de um “Jogo da vida”: nasce, estuda, casa-se, tem filhos, o bode come uma orquídea rara, acha petróleo no quintal de casa, é julgado e se aposenta milionário. Ela, achando que a vida era um “Banco Imobiliário”: você nasce, começa a pagar por tudo e morre pobre, sem ter tempo de fazer o que queria. Por conta disso, ela era de aproveitar qualquer momento, enquanto ele queria crescer e ser o modelo de adulto que o mundo esperava.
Mais uma vez discutiam por alguma besteira. Cruzaram belos cenários, em um lindo pôr-do-sol, solenemente ignorados por conta do foco ser algo que sequer se lembram hoje em dia. Novamente, não se lembram por motivos diferentes: ele, por conta de um trauma causado após a discussão; ela… bom, chegaremos a esse ponto, voltando um pouco para contar. Vamos a uma fala dele da última discussão, enquanto andavam:

– Mas nosso bode está lá no quintal, solto, e acabou comendo a orquídea rara do nosso vizinho! E onde você estava quando isso aconteceu?

Ela fica muda, pois não faz ideia de onde ou o que estava fazendo. Lendo, talvez, ouvindo música, talvez, cagando… enfim, qualquer coisa que não seja olhando para um bode no quintal. Após o silêncio urbano, que de silêncio só tem o nome, ela arrisca:

– Tá… mas isso não vai mudar agora.

– Nada vai mudar agora, nada.

Ela não entendia o porquê de as pessoas esperarem mudanças sempre no sentido da “responsabilidade”, de deixar o entretenimento de lado. Isso a cansava.

Caminharam, mudos, trocando poucas palavras, gradualmente mais ríspidas e menores.

Separaram-se no ponto de ônibus. Ele deu um beijo quase que obrigatório, porque a sociedade pedia – por serem um casal.

– Tchau – disse seco e embarcou em seu ônibus, que estava parado no ponto final.

Ela não conseguiu falar nada. Apenas seguiu seu caminho enquanto o ônibus estava parado, olhando fixamente para pontos aleatórios da calçada. Uma folha. Uma guimba de cigarro. Dois pés aproximando-se e passando lateralmente por ela. Outra guimba de cigarro. Um copo de plástico rasgado em forma de florzinha. Dois pés aproximando-se, frontalmente a ela. Vai bater. Pararam.

– Passa a bolsa e o celular.

Ela levantou a cabeça. O ônibus que ele pegara, a uns cem metros atrás, fecha as portas para sair. Ela olha, sem saber o que fazer, ainda perdida em seus pensamentos, para o homem, baixinho, seu rosto com cicatriz, altamente clichê, e a mão na altura da cintura segurando o que parece ser uma arma de fogo.

– Tá surda? Passa a porra da bolsa e o celular!

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Fabiano Soares
Felicidade não se alcança com padrões

Viviam discutindo. Ele, um rapaz que achava que a felicidade seria alcançada se simplesmente seguisse os passos de um “Jogo da vida”: nasce, estuda, casa-se, tem filhos, o bode come uma orquídea rara, acha petróleo no quintal de casa, é julgado e se aposenta milionário. Ela, achando que a vida era um “Banco Imobiliário”: você nasce, começa a pagar por tudo e morre pobre, sem ter tempo de fazer o que queria. Por conta disso, ela era de aproveitar qualquer momento, enquanto ele queria crescer e ser o modelo de adulto que o mundo esperava.
Mais uma vez discutiam por alguma besteira. Cruzaram belos cenários, em um lindo pôr-do-sol, solenemente ignorados por conta do foco ser algo que sequer se lembram hoje em dia. Novamente, não se lembram por motivos diferentes: ele, por conta de um trauma causado após a discussão; ela… bom, chegaremos a esse ponto, voltando um pouco para contar. Vamos a uma fala dele da última discussão, enquanto andavam:

– Mas nosso bode está lá no quintal, solto, e acabou comendo a orquídea rara do nosso vizinho! E onde você estava quando isso aconteceu?

Ela fica muda, pois não faz ideia de onde ou o que estava fazendo. Lendo, talvez, ouvindo música, talvez, cagando… enfim, qualquer coisa que não seja olhando para um bode no quintal. Após o silêncio urbano, que de silêncio só tem o nome, ela arrisca:

– Tá… mas isso não vai mudar agora.

– Nada vai mudar agora, nada.

Ela não entendia o porquê de as pessoas esperarem mudanças sempre no sentido da “responsabilidade”, de deixar o entretenimento de lado. Isso a cansava.

Caminharam, mudos, trocando poucas palavras, gradualmente mais ríspidas e menores.

Separaram-se no ponto de ônibus. Ele deu um beijo quase que obrigatório, porque a sociedade pedia – por serem um casal.

– Tchau – disse seco e embarcou em seu ônibus, que estava parado no ponto final.

Ela não conseguiu falar nada. Apenas seguiu seu caminho enquanto o ônibus estava parado, olhando fixamente para pontos aleatórios da calçada. Uma folha. Uma guimba de cigarro. Dois pés aproximando-se e passando lateralmente por ela. Outra guimba de cigarro. Um copo de plástico rasgado em forma de florzinha. Dois pés aproximando-se, frontalmente a ela. Vai bater. Pararam.

– Passa a bolsa e o celular.

Ela levantou a cabeça. O ônibus que ele pegara, a uns cem metros atrás, fecha as portas para sair. Ela olha, sem saber o que fazer, ainda perdida em seus pensamentos, para o homem, baixinho, seu rosto com cicatriz, altamente clichê, e a mão na altura da cintura segurando o que parece ser uma arma de fogo.

– Tá surda? Passa a porra da bolsa e o celular!

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