Felicidade não se alcança com padrões - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Felicidade não se alcança com padrões

Pensa o que tem na bolsa. Um livro, papéis amassados, provavelmente uma banana que deve estar há uns dois dias esquecida, modess e mais algumas porcarias. O celular, foda-se. Todo mundo perde celular hoje em dia. Racionalmente, era entregar a bolsa e o celular e seguir o caminho, com olhar perdido, talvez um pouco mais perdido por conta da violência surpresa, mas nada que mudasse o mundo. Vida que segue.

O ônibus do rapaz saiu do ponto.

Mas ela enxerga nesse assalto cotidiano uma oportunidade, sim, uma visão empreendedora: quando algo parecer ruim, veja todos os lados e procure tomar vantagem da situação. Talvez essa fosse uma oportunidade única (única é forçar a barra… isso poderia acontecer muito mais vezes) para ela. Quem sabe esse sujeito não fora colocado em seu caminho por um motivo? Seria ele um anjo? Talvez ele pudesse ajudá-la a concretizar um antigo sonho que, ironicamente, só precisava de um gatilho para ser realizado.

Ele tentou puxar a bolsa com a mão que não estava segurando o revólver. Ela decidiu que reagiria e segurou a bolsa. Ele tentou puxar novamente, visivelmente irritado. Ela segurou de novo.

– Não vai levar nada, seu merda!

Ela gritou isso, consciente de estar provocando. Havia um sorriso surgindo em seu rosto ao mesmo tempo em que passavam em sua cabeça milhões de imagens de sua vida. Nem eram milhões, mas faz parecer mais dramático e mais poético do que dizer que ela travou as memórias de sua vida tentando lembrar da cena em que Patrick Swayze é morto em Ghost, e ela nem lembrava tão bem assim. Olhava atentamente para a mão com o revólver, quando ele foi puxado. O ônibus em que o rapaz estava passava próximo ao local do assalto nesse momento, em que ela, agarrada à bolsa, tentava ganhar o cabo de guerra do assaltante. Pessoas no ônibus levantaram de seus assentos para ver a ação.

– Ih, ali, a vagabundagem – disse um passageiro, chamando ainda mais a atenção dos outros passageiros.

O rapaz olhou, curioso de saber do que se tratava, e viu sua parceira agarrada à sua bolsa, viu o assaltante fazer um movimento brusco com um dos braços e viu 3 clarões, seguidos de um som característico (metropolitanos sabem diferenciar bem sons de tiros e de fogos), seco.

– Eita! Mete o pé, piloto, que a coisa tá braba! – disse o mesmo passageiro que gritou acima, um narrador nato do caos urbano.

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Fabiano Soares
Felicidade não se alcança com padrões

Pensa o que tem na bolsa. Um livro, papéis amassados, provavelmente uma banana que deve estar há uns dois dias esquecida, modess e mais algumas porcarias. O celular, foda-se. Todo mundo perde celular hoje em dia. Racionalmente, era entregar a bolsa e o celular e seguir o caminho, com olhar perdido, talvez um pouco mais perdido por conta da violência surpresa, mas nada que mudasse o mundo. Vida que segue.

O ônibus do rapaz saiu do ponto.

Mas ela enxerga nesse assalto cotidiano uma oportunidade, sim, uma visão empreendedora: quando algo parecer ruim, veja todos os lados e procure tomar vantagem da situação. Talvez essa fosse uma oportunidade única (única é forçar a barra… isso poderia acontecer muito mais vezes) para ela. Quem sabe esse sujeito não fora colocado em seu caminho por um motivo? Seria ele um anjo? Talvez ele pudesse ajudá-la a concretizar um antigo sonho que, ironicamente, só precisava de um gatilho para ser realizado.

Ele tentou puxar a bolsa com a mão que não estava segurando o revólver. Ela decidiu que reagiria e segurou a bolsa. Ele tentou puxar novamente, visivelmente irritado. Ela segurou de novo.

– Não vai levar nada, seu merda!

Ela gritou isso, consciente de estar provocando. Havia um sorriso surgindo em seu rosto ao mesmo tempo em que passavam em sua cabeça milhões de imagens de sua vida. Nem eram milhões, mas faz parecer mais dramático e mais poético do que dizer que ela travou as memórias de sua vida tentando lembrar da cena em que Patrick Swayze é morto em Ghost, e ela nem lembrava tão bem assim. Olhava atentamente para a mão com o revólver, quando ele foi puxado. O ônibus em que o rapaz estava passava próximo ao local do assalto nesse momento, em que ela, agarrada à bolsa, tentava ganhar o cabo de guerra do assaltante. Pessoas no ônibus levantaram de seus assentos para ver a ação.

– Ih, ali, a vagabundagem – disse um passageiro, chamando ainda mais a atenção dos outros passageiros.

O rapaz olhou, curioso de saber do que se tratava, e viu sua parceira agarrada à sua bolsa, viu o assaltante fazer um movimento brusco com um dos braços e viu 3 clarões, seguidos de um som característico (metropolitanos sabem diferenciar bem sons de tiros e de fogos), seco.

– Eita! Mete o pé, piloto, que a coisa tá braba! – disse o mesmo passageiro que gritou acima, um narrador nato do caos urbano.

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