Maldita Greed - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Maldita Greed

Pedro cresceu, mas a ideia não o abandonara: a fixação em participar de um programa desses só aumentava na proporção inversa dos programas, cada vez mais fora de moda, que escasseavam ao zapear a TV já nos meados dos anos 90. Afinal, não falei, mas ele nasceu na década de 80, e estava já com seus 10, 11 anos talvez. Muito mais magro do que quando era a criança gordinha da introdução, Pedro treinava corrida em seu tempo vago. Não ia para uma pista, ou para praia, nem lugar nenhum isolado. Corria na rua, indo de uma calçada a outra, encostando em um portão de um lado, e logo passando para o outro lado da rua, para encostar em outro portão e seguir esse zigue-zague contínuo. Ele não dizia a ninguém, para não parecer maluco, mas era óbvio que ele treinava em segredo, com uma ponta de esperança de participar de um programa que o desse um minuto em um supermercado. Depois de um dia de correria desses, Pedro, ainda ruivo, ainda branco, ainda suado, apenas mais magro, chega em casa, cansado, e vai, com suas mãos sujas de ferro de portão alheio, pega um pão, abre com os dedos e abre a geladeira para pegar um requeijão, um queijo ou qualquer gororoba que pudesse colocar naquela massa para que ficasse com gosto – e tirasse o gosto de ferrugem que seus dedos colocaram. Sua mãe, de costas, no fogão, diz:
– Pedro?
O moleque não responde, pega o requeijão e sai para pegar a faca ao lado da pia. A mãe olha para o lado e confirma que é ele mesmo.
– Pedro… tô falando contigo…
– Que foi, mãe? Não enche! Já lavei as mãos! – mentiu, achando tratar-se de mais uma daquelas frases manjadas de mãe, e mostrando já que os hormônios e o desejo por bucetas e peitinhos deixavam sua infância de gordinho simpático para entrar na adolescência impaciente.
– Há! Mas não lavou mesmo! Duvido até que tenha tomado banho essa semana! Agora, ô maloqueirinho corinthiano, era só pra te avisar que chegou carta pra você…
Pedro mordia o pão, já recheado enquanto eu escrevia esses diálogos.
– Pfffra mim? – estranhou, de boca cheia o garoto – Onde?

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Fabiano Soares
Maldita Greed

Pedro cresceu, mas a ideia não o abandonara: a fixação em participar de um programa desses só aumentava na proporção inversa dos programas, cada vez mais fora de moda, que escasseavam ao zapear a TV já nos meados dos anos 90. Afinal, não falei, mas ele nasceu na década de 80, e estava já com seus 10, 11 anos talvez. Muito mais magro do que quando era a criança gordinha da introdução, Pedro treinava corrida em seu tempo vago. Não ia para uma pista, ou para praia, nem lugar nenhum isolado. Corria na rua, indo de uma calçada a outra, encostando em um portão de um lado, e logo passando para o outro lado da rua, para encostar em outro portão e seguir esse zigue-zague contínuo. Ele não dizia a ninguém, para não parecer maluco, mas era óbvio que ele treinava em segredo, com uma ponta de esperança de participar de um programa que o desse um minuto em um supermercado. Depois de um dia de correria desses, Pedro, ainda ruivo, ainda branco, ainda suado, apenas mais magro, chega em casa, cansado, e vai, com suas mãos sujas de ferro de portão alheio, pega um pão, abre com os dedos e abre a geladeira para pegar um requeijão, um queijo ou qualquer gororoba que pudesse colocar naquela massa para que ficasse com gosto – e tirasse o gosto de ferrugem que seus dedos colocaram. Sua mãe, de costas, no fogão, diz:
– Pedro?
O moleque não responde, pega o requeijão e sai para pegar a faca ao lado da pia. A mãe olha para o lado e confirma que é ele mesmo.
– Pedro… tô falando contigo…
– Que foi, mãe? Não enche! Já lavei as mãos! – mentiu, achando tratar-se de mais uma daquelas frases manjadas de mãe, e mostrando já que os hormônios e o desejo por bucetas e peitinhos deixavam sua infância de gordinho simpático para entrar na adolescência impaciente.
– Há! Mas não lavou mesmo! Duvido até que tenha tomado banho essa semana! Agora, ô maloqueirinho corinthiano, era só pra te avisar que chegou carta pra você…
Pedro mordia o pão, já recheado enquanto eu escrevia esses diálogos.
– Pfffra mim? – estranhou, de boca cheia o garoto – Onde?

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