Maldita Greed - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Maldita Greed

Pularei toda a dramaticidade da saída de casa, a despedida de seus parentes – porque sempre que alguém aparece na TV, seus parentes fazem questão de visitar a pessoa, não importando se ela apareceu dando uma entrevista sobre como descobriu a cura do câncer ou se foi na pegadinha do João Kleber -, a torcida por ele (embora na época não fizessem camisas com o rosto da pessoa; era uma época um pouco mais sensata), essas coisas menos importantes. Pedro ignorava todas essas falas, falava “obrigado”, mas por dentro pensava “vai tomar no cu, não gosto de você!” Bom, o importante é que ele chegou em São Paulo com o pai, ficaram em um hotel – e ele sentia-se um homem, já que o pai estava lá por causa dele! Ele estava no comando! O programa disponibilizou uma merreca para ele gastar enquanto estivesse no hotel com o pai (os dois ficaram por dois dias lá, e a merreca rendeu, pois Pedro recusava-se a gastar, sabendo que poderia pegar tudo de graça no seu minuto de glória).
O grande dia havia chegado. Pedro passou boa parte da noite anterior em claro, e antes disso, conversou bastante com o pai, deu conselhos, passou a ele toda a sua estratégia já traçada para ganhar o programa – e como telespectador assíduo, sabia realmente alguns truques. Estava preparadíssimo, e foi ganhando, na parte do quiz, muitos pontos e, justiça seja feita, seu pai, um sujeito que sabia muitas curiosidades dos mais diversos temas, o ajudou bastante nessa parte.
Na metade do programa, já estava claro: Pedro e o pai ganhariam, certamente, mesmo que fossem muito mal daquela parte em diante. Pedro seguia concentrado, sem contar vantagem; ficaria feliz apenas na hora em que fosse anunciada sua vitória. E com pontuação de 4.800 para Pedro e o pai, 2.100 para a dupla que estava mais próxima, dali para frente, toda pergunta era decisiva: mais uma resposta certa de Pedro e ele ganhava seu minuto! E o apresentador fez uma pergunta de desenho, tema que Pedro, por ser criança, levava uma vantagem tremenda. Pela primeira vez, ele deu um sorriso confiante, como quem sabe que a vitória é sua; deixou a autoconfiança dominar seu corpo, e ouviu a pergunta:
– Que animal é o personagem “Leôncio”, da turma do Pica-Pau?

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8

Fabiano Soares
Maldita Greed

Pularei toda a dramaticidade da saída de casa, a despedida de seus parentes – porque sempre que alguém aparece na TV, seus parentes fazem questão de visitar a pessoa, não importando se ela apareceu dando uma entrevista sobre como descobriu a cura do câncer ou se foi na pegadinha do João Kleber -, a torcida por ele (embora na época não fizessem camisas com o rosto da pessoa; era uma época um pouco mais sensata), essas coisas menos importantes. Pedro ignorava todas essas falas, falava “obrigado”, mas por dentro pensava “vai tomar no cu, não gosto de você!” Bom, o importante é que ele chegou em São Paulo com o pai, ficaram em um hotel – e ele sentia-se um homem, já que o pai estava lá por causa dele! Ele estava no comando! O programa disponibilizou uma merreca para ele gastar enquanto estivesse no hotel com o pai (os dois ficaram por dois dias lá, e a merreca rendeu, pois Pedro recusava-se a gastar, sabendo que poderia pegar tudo de graça no seu minuto de glória).
O grande dia havia chegado. Pedro passou boa parte da noite anterior em claro, e antes disso, conversou bastante com o pai, deu conselhos, passou a ele toda a sua estratégia já traçada para ganhar o programa – e como telespectador assíduo, sabia realmente alguns truques. Estava preparadíssimo, e foi ganhando, na parte do quiz, muitos pontos e, justiça seja feita, seu pai, um sujeito que sabia muitas curiosidades dos mais diversos temas, o ajudou bastante nessa parte.
Na metade do programa, já estava claro: Pedro e o pai ganhariam, certamente, mesmo que fossem muito mal daquela parte em diante. Pedro seguia concentrado, sem contar vantagem; ficaria feliz apenas na hora em que fosse anunciada sua vitória. E com pontuação de 4.800 para Pedro e o pai, 2.100 para a dupla que estava mais próxima, dali para frente, toda pergunta era decisiva: mais uma resposta certa de Pedro e ele ganhava seu minuto! E o apresentador fez uma pergunta de desenho, tema que Pedro, por ser criança, levava uma vantagem tremenda. Pela primeira vez, ele deu um sorriso confiante, como quem sabe que a vitória é sua; deixou a autoconfiança dominar seu corpo, e ouviu a pergunta:
– Que animal é o personagem “Leôncio”, da turma do Pica-Pau?

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8