Maldita Greed - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Maldita Greed

Ele pensou que ainda tinha tempo a beça, mas não parou de correr, pensando que quando o carrinho estivesse terminando, correria para a parte de eletrônicos e pegaria uma TV, um som, talvez um VHS, o que tivesse de bom lá (e equilibraria no topo do carrinho, já cheio de compras, ele imaginava). Passou pela parte de grãos, e como não era egoísta, gastou um tempo relativo pegando uns cinco sacos de arroz e uns outros tantos de feijão, lentilha, várias coisas que ele não identificava, mas imaginava fazer parte de uma alimentação básica. Logo em seguida vinha a parte de condimentos, e encheu um pouco mais de maionese, catchup, mostarda, molhos de salada, molho de pimenta (que ele achava ser, respectivamente, variantes de maionese e de catchup, afinal, não tinha tempo para ler os rótulos). O carrinho encontrava-se quase que completo, e ele viu um pouco mais à frente os refrigerantes: pegou umas seis garrafas de refrigerante, e gastou um tempo médio para acomodá-las no carrinho, para que não atrapalhassem os eletrônicos mais tarde, e pegou algumas dezenas de garrafinhas de suco, que ele tanto gostava. Quando partia para os eletrônicos, viu umas garrafas de vidro bonitas (de vinho), e embora nem soubessem do que se tratava, imaginou serem caras, e por isso, queria. Pegou.
O apresentador acabava de anunciar que restavam apenas 30 segundos agora (“um minuto e meio até que foi um tempo bacana” – pensou Pedro), e correu para pegar a TV, que ele via no final do corredor em que estava, à esquerda. Ao chegar lá, percebeu o peso da TV, e com certa dificuldade colocou-a em seu carrinho (seu mundo, no momento). Acomodou tão bem, para que pudesse correr três colunas adiante, onde estava o aparelho de som. Sabia que tinha no carrinho mais do que tudo que precisava, e ficando parado, teria certeza que nada cairia; mas ele queria mais! Ele queria aquilo tudo e mais o som! No que estava correndo, ouviu o pessoal falando “10, 9…”, em contagem regressiva, e correu ainda mais, tomando cuidado para a TV, presa na parte em que se colocavam bebês nos carrinhos, não caísse. “6, 5…” ele percebeu que talvez não chegasse a tempo para pegar o som, mas estava tão perto… em três segundos poderia jogar de qualquer forma para dentro do carrinho que seria dele. Acelerou de forma sobrehumana (ainda mais para uma criança), e quando ouvia “3,2…”, e percebia que ainda não chegara ao som, de repente não ouviu mais o um e o zero. Os corredores do supermercados, antes brancos e iluminados por lâmpadas frias, agora turvaram, e só conseguia enxergar os produtos levemente iluminados e, no lugar do piso claro, tudo agora era preto, e conseguia enxergar as colunas e fileiras demarcadas por luzes neon coloridas (vermelha, azul, amarela, diversas cores). Continuou correndo e resolveu que pegaria o som, e se não valesse, eles simplesmente não contariam aquilo.

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Fabiano Soares
Maldita Greed

Ele pensou que ainda tinha tempo a beça, mas não parou de correr, pensando que quando o carrinho estivesse terminando, correria para a parte de eletrônicos e pegaria uma TV, um som, talvez um VHS, o que tivesse de bom lá (e equilibraria no topo do carrinho, já cheio de compras, ele imaginava). Passou pela parte de grãos, e como não era egoísta, gastou um tempo relativo pegando uns cinco sacos de arroz e uns outros tantos de feijão, lentilha, várias coisas que ele não identificava, mas imaginava fazer parte de uma alimentação básica. Logo em seguida vinha a parte de condimentos, e encheu um pouco mais de maionese, catchup, mostarda, molhos de salada, molho de pimenta (que ele achava ser, respectivamente, variantes de maionese e de catchup, afinal, não tinha tempo para ler os rótulos). O carrinho encontrava-se quase que completo, e ele viu um pouco mais à frente os refrigerantes: pegou umas seis garrafas de refrigerante, e gastou um tempo médio para acomodá-las no carrinho, para que não atrapalhassem os eletrônicos mais tarde, e pegou algumas dezenas de garrafinhas de suco, que ele tanto gostava. Quando partia para os eletrônicos, viu umas garrafas de vidro bonitas (de vinho), e embora nem soubessem do que se tratava, imaginou serem caras, e por isso, queria. Pegou.
O apresentador acabava de anunciar que restavam apenas 30 segundos agora (“um minuto e meio até que foi um tempo bacana” – pensou Pedro), e correu para pegar a TV, que ele via no final do corredor em que estava, à esquerda. Ao chegar lá, percebeu o peso da TV, e com certa dificuldade colocou-a em seu carrinho (seu mundo, no momento). Acomodou tão bem, para que pudesse correr três colunas adiante, onde estava o aparelho de som. Sabia que tinha no carrinho mais do que tudo que precisava, e ficando parado, teria certeza que nada cairia; mas ele queria mais! Ele queria aquilo tudo e mais o som! No que estava correndo, ouviu o pessoal falando “10, 9…”, em contagem regressiva, e correu ainda mais, tomando cuidado para a TV, presa na parte em que se colocavam bebês nos carrinhos, não caísse. “6, 5…” ele percebeu que talvez não chegasse a tempo para pegar o som, mas estava tão perto… em três segundos poderia jogar de qualquer forma para dentro do carrinho que seria dele. Acelerou de forma sobrehumana (ainda mais para uma criança), e quando ouvia “3,2…”, e percebia que ainda não chegara ao som, de repente não ouviu mais o um e o zero. Os corredores do supermercados, antes brancos e iluminados por lâmpadas frias, agora turvaram, e só conseguia enxergar os produtos levemente iluminados e, no lugar do piso claro, tudo agora era preto, e conseguia enxergar as colunas e fileiras demarcadas por luzes neon coloridas (vermelha, azul, amarela, diversas cores). Continuou correndo e resolveu que pegaria o som, e se não valesse, eles simplesmente não contariam aquilo.

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