Maldita Greed - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Maldita Greed

Foi adiante, pegou, e continou sem ouvir o zero, nem ninguém chamando ele. Pedro estranhou, mas decidiu que não fazia sentido ele ficar ali, parado. Continuou e pegou um VHS, e nada ainda de o chamarem (ele sequer conseguia enxergar alguém ali…); voltou para pegar mais leite condensado, mais biscoitos, e nada. Desconfiava que já estava há mais de 3 minutos naquilo, e começou a parar de correr, passou a andar. E realmente, não tinha mais ninguém ali. Nem o pai, nem o apresentador, nem as câmeras… pensou que talvez, no esforço final de tentar pegar o som, tivesse desmaiado, e aquilo fosse uma viagem enquanto ele estava deitado no chão, com o nariz sangrando. Passados uns dez minutos, desconfiou que não era.

Ficou com fome. Comeu biscoitos. Deitou, gritou pelas pessoas; ninguém respondeu. Dormiu, acordou com fome, comeu queijo, bebeu refrigerante, tomou sorvete, comeu torta congelada. Começou a perceber que a vida lá seria muito mais interessante do que na sua casa: ele tinha tudo o que queria lá! E assim passou alguns dias. Ou horas? Ou meses? Ele nem ligava para os relógios que tinham lá, nem era neurótico de controlar o tempo… E as TVs, obviamente, pegavam apenas um canal: o “guerra de mosquitos”, deixando-o sem noção temporal; só serviam mesmo para jogar videogame e ver os filmes em VHS, e felizmente, havia um catálogo legal naquele lugar. Passado muito tempo (não contabilizado por Pedro), ele começou a perceber que, embora tivesse tudo o que quisesse de graça, não tinha uma coisa: relacionamentos humanos. Não tinha a família, não tinha amigos, ninguém. Notou como dificilmente falam que é bom ter amigos nas propagandas, ou família, apenas os produtos são necessários. Ele percebia que talvez ter todos os produtos que queria não o deixava feliz para sempre – momentaneamente, ele assumia, ficava muito feliz, mas no fim das contas, sentia saudade das pessoas. E uma coisa mais o perturbava: a falta de mulher, de sensualidade. Começava a pensar como homem, e na adolescência, a falta de algo pornográfico é algo bastante sentido. Mas isso durou só até ele, ao tentar sair caminhando no total escuro, onde as luzes neon não alcançavam mais, encontrar inesperadamente um local escondido, onde havia uma sex shop.
Desde então, não mais sentiu saudade da família. Nem de amigos. Passou o resto de sua vida em uma dimensão aleatória, com bucetas de látex, óleos lubrificantes, masturbando-se e comendo queijo, jogando catupiry nas bucetinhas e gozando.
E assim foi, até morrer. E morreu feliz!

 

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8

Fabiano Soares
Maldita Greed

Foi adiante, pegou, e continou sem ouvir o zero, nem ninguém chamando ele. Pedro estranhou, mas decidiu que não fazia sentido ele ficar ali, parado. Continuou e pegou um VHS, e nada ainda de o chamarem (ele sequer conseguia enxergar alguém ali…); voltou para pegar mais leite condensado, mais biscoitos, e nada. Desconfiava que já estava há mais de 3 minutos naquilo, e começou a parar de correr, passou a andar. E realmente, não tinha mais ninguém ali. Nem o pai, nem o apresentador, nem as câmeras… pensou que talvez, no esforço final de tentar pegar o som, tivesse desmaiado, e aquilo fosse uma viagem enquanto ele estava deitado no chão, com o nariz sangrando. Passados uns dez minutos, desconfiou que não era.

Ficou com fome. Comeu biscoitos. Deitou, gritou pelas pessoas; ninguém respondeu. Dormiu, acordou com fome, comeu queijo, bebeu refrigerante, tomou sorvete, comeu torta congelada. Começou a perceber que a vida lá seria muito mais interessante do que na sua casa: ele tinha tudo o que queria lá! E assim passou alguns dias. Ou horas? Ou meses? Ele nem ligava para os relógios que tinham lá, nem era neurótico de controlar o tempo… E as TVs, obviamente, pegavam apenas um canal: o “guerra de mosquitos”, deixando-o sem noção temporal; só serviam mesmo para jogar videogame e ver os filmes em VHS, e felizmente, havia um catálogo legal naquele lugar. Passado muito tempo (não contabilizado por Pedro), ele começou a perceber que, embora tivesse tudo o que quisesse de graça, não tinha uma coisa: relacionamentos humanos. Não tinha a família, não tinha amigos, ninguém. Notou como dificilmente falam que é bom ter amigos nas propagandas, ou família, apenas os produtos são necessários. Ele percebia que talvez ter todos os produtos que queria não o deixava feliz para sempre – momentaneamente, ele assumia, ficava muito feliz, mas no fim das contas, sentia saudade das pessoas. E uma coisa mais o perturbava: a falta de mulher, de sensualidade. Começava a pensar como homem, e na adolescência, a falta de algo pornográfico é algo bastante sentido. Mas isso durou só até ele, ao tentar sair caminhando no total escuro, onde as luzes neon não alcançavam mais, encontrar inesperadamente um local escondido, onde havia uma sex shop.
Desde então, não mais sentiu saudade da família. Nem de amigos. Passou o resto de sua vida em uma dimensão aleatória, com bucetas de látex, óleos lubrificantes, masturbando-se e comendo queijo, jogando catupiry nas bucetinhas e gozando.
E assim foi, até morrer. E morreu feliz!

 

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8