Mito - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Mito

A morte às vezes nos pega de surpresa. Sem um câncer, uma AIDS, tuberculose ou mesmo uma denguezinha como aviso prévio. Existem as mais variadas reações à morte quando ela vem do nada, feito aquelas tempestades de verão: chorar, sorrir, gritar, buscar salvação desesperadamente. Enfim, nada muda o fim, mas tem relevância nas histórias pessoais; e é isso que veremos agora, a morte de Carlos.
Para não ser indelicado, farei uma breve contextualização da vida de Carlos – ao menos as partes que importam para a morte. Carlos era negro, mas como diria Monteiro Lobato, pensava como branco. E sempre foi contra cotas raciais (“cotas para vagabundos”, como ele costumava dizer), tinha opinião divergente de grupos que defendem o orgulho negro (“orgulho negro, orgulho gay, aí o cara vem e fala 100% branco e o pessoal reclama!”, dizia ele), e fazia chapinha. Sim, Carlos deixava o cabelo crescer um pouco, e para não ficar com o black power armado, alisava e prendia um cotoco, deixando a parte da frente caindo na lateral de seu rosto como se fosse um cabelo de playmobil, meio duro. Sim, porque ele poderia deixar o cabelo mais macio, mas outra característica de Carlos: era pobre.
É, amigo. Carlos era negro, pobre e, com seus 19 anos, havia acabado de passar em uma universidade federal, no curso de direito, um dos mais concorridos do Brasil. Temos quase que o perfil de um certo juiz salvador da pátria (“rachitégui” só que não), correto? Pois essa era a vida de Carlos, que era contra o “coitadismo” com os negros, pois, filho de pobres, tinha certeza que bastava esforço para mudar de vida, e sonhava no dia em que acabariam os vagabundos no planeta. Ah, esse era o maior sonho dele. Dedicava horas para criar discursos na internet, usava-se como exemplo o tempo todo de como era possível ser pobre e não escolher o lado da bandidagem; escrevia “textão” para quem defendia esses bandidinhos de rua, dizendo que era a falta de oportunidades – “meus pais não tiveram oportunidades, mas eles as criaram!”, escrevia nas redes sociais; e óbvio, dava a sentença, já imaginando-se juiz – mesmo que ainda no primeiro período da faculdade -, de que bandido bom, é bandido morto! E clamava às pessoas que pegassem bandidos e espancassem, amarrassem no poste, exibissem o corpo destroçado do vagabundo, para que servisse de exemplo. Criaria-se assim áreas de segurança, onde os bandidos teriam medo de assaltar. Chegava a ser irônica a total descrença na justiça oficial, mas isso não cabe aqui.

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A morte às vezes nos pega de surpresa. Sem um câncer, uma AIDS, tuberculose ou mesmo uma denguezinha como aviso prévio. Existem as mais variadas reações à morte quando ela vem do nada, feito aquelas tempestades de verão: chorar, sorrir, gritar, buscar salvação desesperadamente. Enfim, nada muda o fim, mas tem relevância nas histórias pessoais; e é isso que veremos agora, a morte de Carlos.
Para não ser indelicado, farei uma breve contextualização da vida de Carlos – ao menos as partes que importam para a morte. Carlos era negro, mas como diria Monteiro Lobato, pensava como branco. E sempre foi contra cotas raciais (“cotas para vagabundos”, como ele costumava dizer), tinha opinião divergente de grupos que defendem o orgulho negro (“orgulho negro, orgulho gay, aí o cara vem e fala 100% branco e o pessoal reclama!”, dizia ele), e fazia chapinha. Sim, Carlos deixava o cabelo crescer um pouco, e para não ficar com o black power armado, alisava e prendia um cotoco, deixando a parte da frente caindo na lateral de seu rosto como se fosse um cabelo de playmobil, meio duro. Sim, porque ele poderia deixar o cabelo mais macio, mas outra característica de Carlos: era pobre.
É, amigo. Carlos era negro, pobre e, com seus 19 anos, havia acabado de passar em uma universidade federal, no curso de direito, um dos mais concorridos do Brasil. Temos quase que o perfil de um certo juiz salvador da pátria (“rachitégui” só que não), correto? Pois essa era a vida de Carlos, que era contra o “coitadismo” com os negros, pois, filho de pobres, tinha certeza que bastava esforço para mudar de vida, e sonhava no dia em que acabariam os vagabundos no planeta. Ah, esse era o maior sonho dele. Dedicava horas para criar discursos na internet, usava-se como exemplo o tempo todo de como era possível ser pobre e não escolher o lado da bandidagem; escrevia “textão” para quem defendia esses bandidinhos de rua, dizendo que era a falta de oportunidades – “meus pais não tiveram oportunidades, mas eles as criaram!”, escrevia nas redes sociais; e óbvio, dava a sentença, já imaginando-se juiz – mesmo que ainda no primeiro período da faculdade -, de que bandido bom, é bandido morto! E clamava às pessoas que pegassem bandidos e espancassem, amarrassem no poste, exibissem o corpo destroçado do vagabundo, para que servisse de exemplo. Criaria-se assim áreas de segurança, onde os bandidos teriam medo de assaltar. Chegava a ser irônica a total descrença na justiça oficial, mas isso não cabe aqui.

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