Mito - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Mito

Um dia, em uma página de uma rede social, Carlos viu vídeos do deputado Bolseiro. Reconheceu-se imediatamente naquele cidadão. Ele era branco, olho claro, mas falava como ele; identificava-se mais com aquele político de traços europeus do que com os jovens negros de ONGs que teimavam em usar seus cabelos black power e “fazer-se de vítimas do sistema”. “O sistema quem faz somos nós”, pensava ele. No mesmo dia, Carlos pesquisou insaciavelmente a vida de Bolseiro, e em poucas horas estava completamente obcecado com o que havia lido: discussão com uma deputada em que dizia que ela não merecia ser estuprada, pois era feia; declarações de que a polícia militar deveria matar mais do que já mata; que seria incapaz de amar um filho gay, e outras coisas que Carlos pensava idêntico ao novo ídolo. Não pensou duas vezes: começou a campanha “Bolsemito Presidente 2018”, porque ele enxergava naquele homem um mito, um homem que falava mesmo tudo o que acreditava ser certo, sem se importar com a opinião dos politicamente corretos.
Quando Carlos resolveu fazer uma camisa com a foto de Bolseiro, e o slogan da campanha que ele havia inventado, o Rio de Janeiro não estava legal. O jovem, que morava em uma favela próxima do centro da cidade, desceu tranqüilo, com uma camisa simples, branca, bermuda jeans surrada e chinelo, e carregava um pen drive com a imagem que queria imprimir na camisa. Mas ele esqueceu que era negro. Por conta do calor de 38º na sombra, Carlos suava, e suava muito. Ao atravessar uma rua, percebeu uma movimentação anormal das pessoas: algumas corriam, outras davam pulinhos para fugir do empurra-empurra, mulheres olhavam para trás, segurando firme suas bolsas. Imaginou tratar-se de um dos mini-arrastões, e ao ver que ele caminhava quase de encontro a essa massa de pessoas, tentou dar uma acelerada no passo, para desviar. Não adiantou, eles se aproximavam ainda mais, pois se espalhavam. Começaram alguns gritos, e ele viu um garoto negro puxar o cordão de uma mulher bem vestida. Como agora Carlos estava quase dentro desse tumulto, pensou rápido e, inspirado pelas idéias de que violência se combate com violência, correu atrás do bandidinho, para dar-lhe umas porradas, mostrar que a população não agüenta mais isso, e deixá-lo de exemplo aos outros marginais do bando dele. Correu, mas esbarrou em tantas pessoas que corriam sem direção certa, que acabou desistindo quando viu o garoto já sumindo entre os carros e atravessando a rua.
E enquanto contemplava o sumiço do meliante, ainda tentando caminhar na direção dele, ouviu gritos de “pega, ladrão!” atrás dele, e imaginou que ainda restava algum pivete ali no meio, aproveitando-se da bagunça. Ficou surpreso quando, ao virar-se, notou que muitos olhavam em sua direção, e pensou em dizer para esquecer, que aquele garoto perseguido por ele, provavelmente já estava longe agora, mas uns gestos fizeram Carlos perceber que os olhares não eram para o garoto já fugido da cena; dois braços da multidão tentaram agarrar os seus, e ele, em uma reação instintiva, livrou-se, começando a caminhar de costas para fugir dessa abordagem violenta na pessoa errada.

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Um dia, em uma página de uma rede social, Carlos viu vídeos do deputado Bolseiro. Reconheceu-se imediatamente naquele cidadão. Ele era branco, olho claro, mas falava como ele; identificava-se mais com aquele político de traços europeus do que com os jovens negros de ONGs que teimavam em usar seus cabelos black power e “fazer-se de vítimas do sistema”. “O sistema quem faz somos nós”, pensava ele. No mesmo dia, Carlos pesquisou insaciavelmente a vida de Bolseiro, e em poucas horas estava completamente obcecado com o que havia lido: discussão com uma deputada em que dizia que ela não merecia ser estuprada, pois era feia; declarações de que a polícia militar deveria matar mais do que já mata; que seria incapaz de amar um filho gay, e outras coisas que Carlos pensava idêntico ao novo ídolo. Não pensou duas vezes: começou a campanha “Bolsemito Presidente 2018”, porque ele enxergava naquele homem um mito, um homem que falava mesmo tudo o que acreditava ser certo, sem se importar com a opinião dos politicamente corretos.
Quando Carlos resolveu fazer uma camisa com a foto de Bolseiro, e o slogan da campanha que ele havia inventado, o Rio de Janeiro não estava legal. O jovem, que morava em uma favela próxima do centro da cidade, desceu tranqüilo, com uma camisa simples, branca, bermuda jeans surrada e chinelo, e carregava um pen drive com a imagem que queria imprimir na camisa. Mas ele esqueceu que era negro. Por conta do calor de 38º na sombra, Carlos suava, e suava muito. Ao atravessar uma rua, percebeu uma movimentação anormal das pessoas: algumas corriam, outras davam pulinhos para fugir do empurra-empurra, mulheres olhavam para trás, segurando firme suas bolsas. Imaginou tratar-se de um dos mini-arrastões, e ao ver que ele caminhava quase de encontro a essa massa de pessoas, tentou dar uma acelerada no passo, para desviar. Não adiantou, eles se aproximavam ainda mais, pois se espalhavam. Começaram alguns gritos, e ele viu um garoto negro puxar o cordão de uma mulher bem vestida. Como agora Carlos estava quase dentro desse tumulto, pensou rápido e, inspirado pelas idéias de que violência se combate com violência, correu atrás do bandidinho, para dar-lhe umas porradas, mostrar que a população não agüenta mais isso, e deixá-lo de exemplo aos outros marginais do bando dele. Correu, mas esbarrou em tantas pessoas que corriam sem direção certa, que acabou desistindo quando viu o garoto já sumindo entre os carros e atravessando a rua.
E enquanto contemplava o sumiço do meliante, ainda tentando caminhar na direção dele, ouviu gritos de “pega, ladrão!” atrás dele, e imaginou que ainda restava algum pivete ali no meio, aproveitando-se da bagunça. Ficou surpreso quando, ao virar-se, notou que muitos olhavam em sua direção, e pensou em dizer para esquecer, que aquele garoto perseguido por ele, provavelmente já estava longe agora, mas uns gestos fizeram Carlos perceber que os olhares não eram para o garoto já fugido da cena; dois braços da multidão tentaram agarrar os seus, e ele, em uma reação instintiva, livrou-se, começando a caminhar de costas para fugir dessa abordagem violenta na pessoa errada.

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