Mito - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Mito

– O que é isso? Tira a mão! – gritou Carlos, mas sua voz ficou abafada com os gritos de xingamento para ele.
Carlos não pôde parar para explicar-se, teve que correr. E em sua cabeça não conseguia entender como tinha tentado pegar o bandido e agora ele era visto como o bandido. Mas correu, pois a multidão corria para pegá-lo, sedenta de vingança. E percebeu que não só as pessoas atrás dele pensavam que ele era um marginal, mas as que estavam em seu caminho, desviavam, olhando para ele com pavor. Ao menos foi assim até certo ponto, pois um dos que estavam em seu caminho não teve medo, e deu uma banda em Carlos, que caiu como se sua maior vontade fosse pular de cara no chão. Três dentes racharam com o impacto, e um pouco de sangue jorrou de sua boca, junto com dois pedaços de dente, que ficaram na calçada. O jovem tentou recuperar-se e correr novamente, mas no que rastejava tentando colocar-se de pé, vieram chutes nas costas e na cabeça. Estirado no chão, Carlos tentava gritar que não havia sido ele, mas as palavras saíam tortas por conta dos dentes quebrados e do inchaço da boca. Imobilizaram-no e ele foi arrastado até um canto um pouco escondido por quiosques populares, o que não deixava todos que passavam por ali ver o que acontecia – mas a turba que cercava os justiceiros e Carlos era enorme e impossível de não ser notada.
Carlos, que estava sentado no chão, com as mãos para trás, tentou falar que ele não tinha nada a ver com isso, mas a avaria dental e o rosto inchado das pancadas o faziam parecer cada vez mais um pivete de rua. O tom de pele ajudava, claro. E foi com ódio que levou socos e chutes na cara, no estômago e em todo o corpo. Já debilitado, enquanto alguns chamavam a polícia para prender aquele bandido, as pessoas abriram caminho até Carlos, que estava cabisbaixo e com um dos olhos completamente fechado pelas feridas. Ele levantou o rosto e olhou, e sorriu. Sim, reconhecia aquele rosto, era Bolseiro. Pensou em tudo o que seu atual guru havia falado, e ficou feliz de ver a população reagir daquela maneira. “Afinal de contas, sou negro, assim como o garoto, foi apenas uma confusão que fizeram”, chegou à conclusão. O rosto de Bolseiro era, na verdade, uma estampa de camisa de um rapaz revoltado, que vinha com um paralelepípedo na mão, e quando ergueu a pedra, Carlos percebeu que as pessoas não iam mais suportar assaltos, reagiriam, e em breve, essa cambada de vagabundos estaria exterminada. E sorriu; ficou muito feliz de saber que o povo saiu da inércia, e que bandido teria castigo, se não fosse da justiça oficial, dos justiceiros das ruas – não teve tempo para pensar que ele não era bandido e em toda implicação social da sua cor nesse julgamento primitivo. O mundo tinha salvação! E antes de sua cabeça ser esmagada pelo paralelepípedo, mostrou um brilho no olho (seria nos olhos se os dois estivessem abertos…) que não precisava de palavras para demonstrar a satisfação com que via o desenrolar da cena. E morreu.

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– O que é isso? Tira a mão! – gritou Carlos, mas sua voz ficou abafada com os gritos de xingamento para ele.
Carlos não pôde parar para explicar-se, teve que correr. E em sua cabeça não conseguia entender como tinha tentado pegar o bandido e agora ele era visto como o bandido. Mas correu, pois a multidão corria para pegá-lo, sedenta de vingança. E percebeu que não só as pessoas atrás dele pensavam que ele era um marginal, mas as que estavam em seu caminho, desviavam, olhando para ele com pavor. Ao menos foi assim até certo ponto, pois um dos que estavam em seu caminho não teve medo, e deu uma banda em Carlos, que caiu como se sua maior vontade fosse pular de cara no chão. Três dentes racharam com o impacto, e um pouco de sangue jorrou de sua boca, junto com dois pedaços de dente, que ficaram na calçada. O jovem tentou recuperar-se e correr novamente, mas no que rastejava tentando colocar-se de pé, vieram chutes nas costas e na cabeça. Estirado no chão, Carlos tentava gritar que não havia sido ele, mas as palavras saíam tortas por conta dos dentes quebrados e do inchaço da boca. Imobilizaram-no e ele foi arrastado até um canto um pouco escondido por quiosques populares, o que não deixava todos que passavam por ali ver o que acontecia – mas a turba que cercava os justiceiros e Carlos era enorme e impossível de não ser notada.
Carlos, que estava sentado no chão, com as mãos para trás, tentou falar que ele não tinha nada a ver com isso, mas a avaria dental e o rosto inchado das pancadas o faziam parecer cada vez mais um pivete de rua. O tom de pele ajudava, claro. E foi com ódio que levou socos e chutes na cara, no estômago e em todo o corpo. Já debilitado, enquanto alguns chamavam a polícia para prender aquele bandido, as pessoas abriram caminho até Carlos, que estava cabisbaixo e com um dos olhos completamente fechado pelas feridas. Ele levantou o rosto e olhou, e sorriu. Sim, reconhecia aquele rosto, era Bolseiro. Pensou em tudo o que seu atual guru havia falado, e ficou feliz de ver a população reagir daquela maneira. “Afinal de contas, sou negro, assim como o garoto, foi apenas uma confusão que fizeram”, chegou à conclusão. O rosto de Bolseiro era, na verdade, uma estampa de camisa de um rapaz revoltado, que vinha com um paralelepípedo na mão, e quando ergueu a pedra, Carlos percebeu que as pessoas não iam mais suportar assaltos, reagiriam, e em breve, essa cambada de vagabundos estaria exterminada. E sorriu; ficou muito feliz de saber que o povo saiu da inércia, e que bandido teria castigo, se não fosse da justiça oficial, dos justiceiros das ruas – não teve tempo para pensar que ele não era bandido e em toda implicação social da sua cor nesse julgamento primitivo. O mundo tinha salvação! E antes de sua cabeça ser esmagada pelo paralelepípedo, mostrou um brilho no olho (seria nos olhos se os dois estivessem abertos…) que não precisava de palavras para demonstrar a satisfação com que via o desenrolar da cena. E morreu.

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