O celular do ladrão - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






O celular do ladrão

       Rio de Janeiro, Saara, sexta-feira anterior ao dia das mães.

       Essa porra tá cheia, acabei me atrasando pra uma reunião. Ando rápido, quase correndo, para que o atraso seja menos sentido.

       Passando pela rua dos Andradas, tenho a ideia: vou cortar caminho pelo largo de São Francisco, porque a Uruguaiana tá cheia de gente caminhando e travando a rua, procurando um presente para as mamães. Beleza, boa ideia a minha.

       Caminho, com pressa, e no espaço escuro da praça, uma pessoa caminha ao meu lado. Menos mal, duas pessoas caminhando juntas podem afastar possíveis assaltos. O pensamento é esse, isso é Rio de Janeiro. Mas talvez esse meu pensamento tenha sido ingênuo demais. O rapaz ao meu lado puxou papo:

       – Aê, playboy!

       Ignorei, já que não me considero playboy e não sou obrigado a aguentar desconhecidos me chamando de playboy.

       – Perdeu, playboy. Passa o celular, porra!

       Puta que pariu. Foi uma falha de comunicação da minha parte. O cara não tava procurando refúgio de assalto; ele era o meio. E eu entendi a mensagem. Parei e virei para encará-lo.

       – Pô, cara, faz isso não. Tô cheio de pressa e só tenho esse celular pra falar com os outros, pô.

       Ele moveu uma mão na altura da cintura, por dentro da camisa. Não dava para ver nada, e ele podia estar tanto com uma arma de verdade quanto com uma daquelas galinhas de borracha que fazem um barulho engraçado, que eu não ia saber. Sou cego a noite, numa praça mal iluminada, então…

       – Meu irmão, tá maluco? Quer morrer, porra???

       Levantei instintivamente as mãos, me rendendo, e botei em seguida a mão esquerda no bolso para pegar o celular. Lá estava a carteira, e nem é importante, mas contarei assim mesmo. Eu costumo levar a carteira no bolso direito da bermuda (ou calça), e o celular no bolso esquerdo, mas a minha bermuda estava com o bolso esquerdo furado, um furo tão grande que se eu boto o celular lá, ele cai.

       Após essa explicação esdrúxula, tateei o bolso esquerdo, vi que lá estava a carteira, e passei para o bolso direito, onde estava o celular. Entre a mão ir de um bolso a outro, lembrei do bolso furado e soltei um “ahh…”, lembrando-me do bolso trocado do aparelho.

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Fabiano Soares
O celular do ladrão

       Rio de Janeiro, Saara, sexta-feira anterior ao dia das mães.

       Essa porra tá cheia, acabei me atrasando pra uma reunião. Ando rápido, quase correndo, para que o atraso seja menos sentido.

       Passando pela rua dos Andradas, tenho a ideia: vou cortar caminho pelo largo de São Francisco, porque a Uruguaiana tá cheia de gente caminhando e travando a rua, procurando um presente para as mamães. Beleza, boa ideia a minha.

       Caminho, com pressa, e no espaço escuro da praça, uma pessoa caminha ao meu lado. Menos mal, duas pessoas caminhando juntas podem afastar possíveis assaltos. O pensamento é esse, isso é Rio de Janeiro. Mas talvez esse meu pensamento tenha sido ingênuo demais. O rapaz ao meu lado puxou papo:

       – Aê, playboy!

       Ignorei, já que não me considero playboy e não sou obrigado a aguentar desconhecidos me chamando de playboy.

       – Perdeu, playboy. Passa o celular, porra!

       Puta que pariu. Foi uma falha de comunicação da minha parte. O cara não tava procurando refúgio de assalto; ele era o meio. E eu entendi a mensagem. Parei e virei para encará-lo.

       – Pô, cara, faz isso não. Tô cheio de pressa e só tenho esse celular pra falar com os outros, pô.

       Ele moveu uma mão na altura da cintura, por dentro da camisa. Não dava para ver nada, e ele podia estar tanto com uma arma de verdade quanto com uma daquelas galinhas de borracha que fazem um barulho engraçado, que eu não ia saber. Sou cego a noite, numa praça mal iluminada, então…

       – Meu irmão, tá maluco? Quer morrer, porra???

       Levantei instintivamente as mãos, me rendendo, e botei em seguida a mão esquerda no bolso para pegar o celular. Lá estava a carteira, e nem é importante, mas contarei assim mesmo. Eu costumo levar a carteira no bolso direito da bermuda (ou calça), e o celular no bolso esquerdo, mas a minha bermuda estava com o bolso esquerdo furado, um furo tão grande que se eu boto o celular lá, ele cai.

       Após essa explicação esdrúxula, tateei o bolso esquerdo, vi que lá estava a carteira, e passei para o bolso direito, onde estava o celular. Entre a mão ir de um bolso a outro, lembrei do bolso furado e soltei um “ahh…”, lembrando-me do bolso trocado do aparelho.

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