O celular do ladrão - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






O celular do ladrão

       Ao pegar o celular, entreguei e fiquei no vácuo: o cara não pegou.

       – Tomá no cu, mermão! Tá pensando que é malandro, seu filha da puta!

       Não entendi. Nem a reação do ladrão e nem essa mania de a gente falar “filha da puta”, mesmo pra homens, quando deveria ser “filho da puta”. Não expus a minha última questão.

       – Que foi, cara? Toma o celular!

       Ele balançou ainda mais o braço que estava com algo na cintura, ameaçando.

       – Eu quero o SEU celular!

       Ele deu uma intensidade tão grande no “seu”, que pareceu me chamar de ladrão, como se aquele aparelho não fosse o meu.

       – Esse é o meu celular, cara!

       Tomei um empurrão.

       – Tá de sacanagem? Quer me dar o celular “do ladrão”???

       Tela azul. Eu era o assaltado. Na minha mente, ele era o ladrão. O que seria o “celular do ladrão”? Seria o dele. O meu quando eu passasse para ele, seria dele. Tentei entender a piada.

       Não consegui.

       – Ué, o ladrão é você. Esse celular é meu. Depois vai ser seu. Do ladrão. Não é?

       Ele agarrou meu pescoço. Era um pouco mais alto do que eu. Falou baixinho.

       – Playboy, aqui tá tudo escuro, ninguém tá vendo nada. Um monte de parceiro meu aqui. Se você tentar fazer graça, vai ficar por aqui mesmo. E só vão te achar amanhã de manhã. Para de graça, enfia essa porra de celular do ladrão no teu cu e me passa o celular que você realmente usa.

       CARALHO! O “celular do ladrão” é o aparelho zoadaço que o pessoal carrega só para, no caso de ser assaltado, não perder o oficial, entregando o outro. Um tipo de bode expiatório, mas sem fazer béeeee. Aliás, pode até fazer béeee, você pode personalizar o toque, né?

       O cara achou que meu aquele telefone era zoado demais para ser meu. Não entendi o porquê. Insisti.

       – Cara, esse é o meu celular, o que eu uso! Pode ver aqui, tem bom dia que eu recebi hoje, no whatsapp!

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Fabiano Soares
O celular do ladrão

       Ao pegar o celular, entreguei e fiquei no vácuo: o cara não pegou.

       – Tomá no cu, mermão! Tá pensando que é malandro, seu filha da puta!

       Não entendi. Nem a reação do ladrão e nem essa mania de a gente falar “filha da puta”, mesmo pra homens, quando deveria ser “filho da puta”. Não expus a minha última questão.

       – Que foi, cara? Toma o celular!

       Ele balançou ainda mais o braço que estava com algo na cintura, ameaçando.

       – Eu quero o SEU celular!

       Ele deu uma intensidade tão grande no “seu”, que pareceu me chamar de ladrão, como se aquele aparelho não fosse o meu.

       – Esse é o meu celular, cara!

       Tomei um empurrão.

       – Tá de sacanagem? Quer me dar o celular “do ladrão”???

       Tela azul. Eu era o assaltado. Na minha mente, ele era o ladrão. O que seria o “celular do ladrão”? Seria o dele. O meu quando eu passasse para ele, seria dele. Tentei entender a piada.

       Não consegui.

       – Ué, o ladrão é você. Esse celular é meu. Depois vai ser seu. Do ladrão. Não é?

       Ele agarrou meu pescoço. Era um pouco mais alto do que eu. Falou baixinho.

       – Playboy, aqui tá tudo escuro, ninguém tá vendo nada. Um monte de parceiro meu aqui. Se você tentar fazer graça, vai ficar por aqui mesmo. E só vão te achar amanhã de manhã. Para de graça, enfia essa porra de celular do ladrão no teu cu e me passa o celular que você realmente usa.

       CARALHO! O “celular do ladrão” é o aparelho zoadaço que o pessoal carrega só para, no caso de ser assaltado, não perder o oficial, entregando o outro. Um tipo de bode expiatório, mas sem fazer béeeee. Aliás, pode até fazer béeee, você pode personalizar o toque, né?

       O cara achou que meu aquele telefone era zoado demais para ser meu. Não entendi o porquê. Insisti.

       – Cara, esse é o meu celular, o que eu uso! Pode ver aqui, tem bom dia que eu recebi hoje, no whatsapp!

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