O celular do ladrão - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






O celular do ladrão

       Tentei lembrar de quem me manda mensagem de bom dia. Meu pai, certamente, no grupo da família, mas a essa hora já devia estar cheio de papos nada a ver, e não queria expor. Abri o de um amigo, que sempre manda de zoeira. Os olhos do assaltante estavam vidrados no celular. Quando abri a conversa com o amigo, memes do Fabio Assunção dizendo que hoje era sexta-feira, fizeram o maluco cuspir minha tela, já fodida.

       – Hahahaha. Poorra! Hoje é dia de pó legal, né? Caralho, tu usa essa porra mermo, mané! Hahahaha puta que pariu…

       Ele distanciou-se um pouco, rindo. Voltou pra perto de mim.

       – Guarda essa porra, guarda essa porra… Aí, playboy, vou te falar duas paradas…

       Eu já estava meio rindo, aquele riso meio nervoso, mas rindo. Falei mais para quebrar o monólogo dele, pra fingir que estava interagindo.

       – Coé, cara…

       Ele continuou.

       – Uma, que se eu tô com uma arma aqui, você morria…

       E tirou finalmente a mão que estava sempre na cintura, e mostrou uma latinha de Antarctica de 269ml, toda amassada. Essa era a arma dele.

       – E a outra… é que se eu tivesse metido uns celulares hoje, eu ia te dar um. Puta que pariu, tu é muito escroto andando com essa porra…

       Ele se afastou definitivamente, rindo pra caralho, e eu segui meu caminho para a reunião.

       Cheguei atrasado, mas contei o ocorrido e ninguém lembrou mais do atraso.

       O Rio de Janeiro me surpreende a cada dia.

 

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Fabiano Soares
O celular do ladrão

       Tentei lembrar de quem me manda mensagem de bom dia. Meu pai, certamente, no grupo da família, mas a essa hora já devia estar cheio de papos nada a ver, e não queria expor. Abri o de um amigo, que sempre manda de zoeira. Os olhos do assaltante estavam vidrados no celular. Quando abri a conversa com o amigo, memes do Fabio Assunção dizendo que hoje era sexta-feira, fizeram o maluco cuspir minha tela, já fodida.

       – Hahahaha. Poorra! Hoje é dia de pó legal, né? Caralho, tu usa essa porra mermo, mané! Hahahaha puta que pariu…

       Ele distanciou-se um pouco, rindo. Voltou pra perto de mim.

       – Guarda essa porra, guarda essa porra… Aí, playboy, vou te falar duas paradas…

       Eu já estava meio rindo, aquele riso meio nervoso, mas rindo. Falei mais para quebrar o monólogo dele, pra fingir que estava interagindo.

       – Coé, cara…

       Ele continuou.

       – Uma, que se eu tô com uma arma aqui, você morria…

       E tirou finalmente a mão que estava sempre na cintura, e mostrou uma latinha de Antarctica de 269ml, toda amassada. Essa era a arma dele.

       – E a outra… é que se eu tivesse metido uns celulares hoje, eu ia te dar um. Puta que pariu, tu é muito escroto andando com essa porra…

       Ele se afastou definitivamente, rindo pra caralho, e eu segui meu caminho para a reunião.

       Cheguei atrasado, mas contei o ocorrido e ninguém lembrou mais do atraso.

       O Rio de Janeiro me surpreende a cada dia.

 

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