O Ódio nasce em uma foz chamada Amor (Parte 2/2) - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






O Ódio nasce em uma foz chamada Amor (Parte 2/2)

            Um som de briga começou a entrar no inconsciente de Renato, enquanto ele via o branco e o azul e o âmbar, misturas das cores da TV com a luz do bar e a parede do mesmo. Virou-se para a fonte do áudio e deu de cara com a mini TV de Cláudio, disfarçada de celular, escorada em um porta-guardanapos em cima do balcão. Na tela, um homem negro apanhava de diversas pessoas, algumas com pedaços de pau, outras tacando pedras nele; o som apenas permitia perceber que tratava-se de violência, mas os urros e gritos das pessoas eram indecifráveis, ou quase: percebia-se que falavam português, mas não era possível saber o que diziam. Cláudio notou o interesse de Renato no vídeo. Aproveitou para puxar papo. Deslizou o dedo sobre a tela do celular, e o vídeo voltou para o início. Um homem saía de uma casa, sendo socado por dois outros.

            – Olha aí! Tentou estuprar uma criança! Filho da puta, né? – explicou Cláudio a Renato, que olhava embasbacado para o celular.

            Cláudio ria do rosto do garoto, uma mistura de tédio, inconsciência e interesse, por mais que pareça difícil, essa era a expressão de Renato. Chegando ao fim do vídeo, que acaba quando um rapaz joga um pedaço enorme de pedra na cabeça do que está sendo linchado, fazendo jorrar sangue no chão, Renato olhou para o rosto de Cláudio.

            – Recebi no Whatsapp. Safado, tava tentando estuprar criança! – Cláudio falava com raiva.

            – Mas… bota de novo – pediu Renato.

            Após visualizar e ouvir mais uma vez o vídeo, algumas palavras pareceram fazer sentido para Renato:

            – Ele falou “tá maluco? Roubando morador?”

            Cláudio voltou a um ponto do vídeo e colocou a saída de som no ouvido, sem se preocupar com o que era mostrado no vídeo. Renato ficou mais próximo do celular do colega. – Viu?! “Tá maluco? Roubando morador?”! – Renato confirmou o que tinha ouvido.           – É… bom, estuprador, ladrão… Tudo farinha do mesmo saco. Bandido bom é bandido morto! – Cláudio falava isso alto. Na favela é assim… Dá mole, prá ver se o pessoal vai esperar a polícia chegar… É tudo na hora! Bem feito!

            Renato abriu um sorriso. Não que também pensasse assim, embora nunca tenha parado para refletir sobre essas coisas; o motivo da felicidade repentina era uma idéia que lhe surgira a partir da visualização do vídeo. Ele chamou o garçom, pagou sua conta e deu um beijo na bochecha de Cláudio, enquanto ele olhava fotos no celular, e saiu do bar, renovado.

            – Olhaí, Márcio, o que a dose de uma boa mineirinha não faz na vida de um homem – Cláudio disse ao garçom, ao ver Renato sair.

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Fabiano Soares
O Ódio nasce em uma foz chamada Amor (Parte 2/2)

            Um som de briga começou a entrar no inconsciente de Renato, enquanto ele via o branco e o azul e o âmbar, misturas das cores da TV com a luz do bar e a parede do mesmo. Virou-se para a fonte do áudio e deu de cara com a mini TV de Cláudio, disfarçada de celular, escorada em um porta-guardanapos em cima do balcão. Na tela, um homem negro apanhava de diversas pessoas, algumas com pedaços de pau, outras tacando pedras nele; o som apenas permitia perceber que tratava-se de violência, mas os urros e gritos das pessoas eram indecifráveis, ou quase: percebia-se que falavam português, mas não era possível saber o que diziam. Cláudio notou o interesse de Renato no vídeo. Aproveitou para puxar papo. Deslizou o dedo sobre a tela do celular, e o vídeo voltou para o início. Um homem saía de uma casa, sendo socado por dois outros.

            – Olha aí! Tentou estuprar uma criança! Filho da puta, né? – explicou Cláudio a Renato, que olhava embasbacado para o celular.

            Cláudio ria do rosto do garoto, uma mistura de tédio, inconsciência e interesse, por mais que pareça difícil, essa era a expressão de Renato. Chegando ao fim do vídeo, que acaba quando um rapaz joga um pedaço enorme de pedra na cabeça do que está sendo linchado, fazendo jorrar sangue no chão, Renato olhou para o rosto de Cláudio.

            – Recebi no Whatsapp. Safado, tava tentando estuprar criança! – Cláudio falava com raiva.

            – Mas… bota de novo – pediu Renato.

            Após visualizar e ouvir mais uma vez o vídeo, algumas palavras pareceram fazer sentido para Renato:

            – Ele falou “tá maluco? Roubando morador?”

            Cláudio voltou a um ponto do vídeo e colocou a saída de som no ouvido, sem se preocupar com o que era mostrado no vídeo. Renato ficou mais próximo do celular do colega. – Viu?! “Tá maluco? Roubando morador?”! – Renato confirmou o que tinha ouvido.           – É… bom, estuprador, ladrão… Tudo farinha do mesmo saco. Bandido bom é bandido morto! – Cláudio falava isso alto. Na favela é assim… Dá mole, prá ver se o pessoal vai esperar a polícia chegar… É tudo na hora! Bem feito!

            Renato abriu um sorriso. Não que também pensasse assim, embora nunca tenha parado para refletir sobre essas coisas; o motivo da felicidade repentina era uma idéia que lhe surgira a partir da visualização do vídeo. Ele chamou o garçom, pagou sua conta e deu um beijo na bochecha de Cláudio, enquanto ele olhava fotos no celular, e saiu do bar, renovado.

            – Olhaí, Márcio, o que a dose de uma boa mineirinha não faz na vida de um homem – Cláudio disse ao garçom, ao ver Renato sair.

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