O Ódio nasce em uma foz chamada Amor (Parte 2/2) - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






O Ódio nasce em uma foz chamada Amor (Parte 2/2)

            Cristina chupou, chorando, enquanto mil coisas passavam em sua cabeça. O homem deliciava-se com aquele boquete e com o olhar de pânico de Flávia, forçada a ser voyeur do estupro; mal sabia ele que aquilo não chegava perto do que Cristina poderia fazer: era apenas um movimento mecânico de desespero para salvar sua vida e de Flávia, que aliás, começava a sentir sua vida desmoronando, o que fez os efeitos da bad trip baterem forte.

            Desesperada, Flávia viu-se sem saída a não ser partir para cima do agressor. A coordenação motora não estava das melhores, nem o raciocínio para escolher uma boa estratégia; ela acabou gritando antes de levantar-se, o que deu tempo para o taxista pensar em usar a arma que estava em sua mão. Um tiro ecoa na madrugada, seco. Flávia cai no chão como uma fruta podre: de qualquer jeito e com um som levemente líquido, como de polpa carnuda de manga. 

            Em pedaços tão pequenos de tempo que é inútil tentar descrever a vocês, Cristina teve que pensar em uma reação rápida e coerente: entendeu que ele havia matado seu amor, não deveria deixar esse homem usar seu corpo para ter prazer, e se possível, deveria matá-lo. Pensou em tudo isso, mas o que conseguiu fazer foi tirar o pau dele de sua boca e tentar valer-se da escuridão para rastejar e correr para longe. Quando afastou-se cerca de dez metros do crápula, um segundo estampido soou, e antes que ela pudesse perceber, sentia um ardor atravessar-lhe a alma. Enquanto lembrava bons momentos com Flávia, ao mesmo tempo em que flashes de sua infância passavam diante do preto que turvava seus olhos, em sua cabeça havia um grito que aparecia mais forte do que tudo: “por quê?”

            O taxista aproximava-se de Cristina, que apenas ouvia os passos. Deu mais um tiro na cabeça dela, e ficou feliz ao ver que a respiração ofegante havia parado. O zíper de sua calça sobe. Ele caminha em direção ao táxi.

            O motorista entra no carro, para partir e joga a arma de volta ao porta-luvas. Ele vira a chave, dá a partida, mas lembra-se de algo e pragueja, dando com as mãos no volante. Abre a porta novamente, pega o celular no bolso e bate uma foto que mostra as duas mulheres mortas, no chão, com o sangue empapando a terra batida. Ele checa a foto: dá para ver bem as duas, apesar do tiro na cabeça de Cristina. É o melhor que pode fazer, e precisa sair logo dali, antes que alguém venha e veja a cena. “Afinal de contas”, pensa ele, “o que não falta é gente para defender bandido nesse país de merda.” Entra no carro e sai em alta velocidade, fugindo de qualquer provável testemunha.

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Fabiano Soares
O Ódio nasce em uma foz chamada Amor (Parte 2/2)

            Cristina chupou, chorando, enquanto mil coisas passavam em sua cabeça. O homem deliciava-se com aquele boquete e com o olhar de pânico de Flávia, forçada a ser voyeur do estupro; mal sabia ele que aquilo não chegava perto do que Cristina poderia fazer: era apenas um movimento mecânico de desespero para salvar sua vida e de Flávia, que aliás, começava a sentir sua vida desmoronando, o que fez os efeitos da bad trip baterem forte.

            Desesperada, Flávia viu-se sem saída a não ser partir para cima do agressor. A coordenação motora não estava das melhores, nem o raciocínio para escolher uma boa estratégia; ela acabou gritando antes de levantar-se, o que deu tempo para o taxista pensar em usar a arma que estava em sua mão. Um tiro ecoa na madrugada, seco. Flávia cai no chão como uma fruta podre: de qualquer jeito e com um som levemente líquido, como de polpa carnuda de manga. 

            Em pedaços tão pequenos de tempo que é inútil tentar descrever a vocês, Cristina teve que pensar em uma reação rápida e coerente: entendeu que ele havia matado seu amor, não deveria deixar esse homem usar seu corpo para ter prazer, e se possível, deveria matá-lo. Pensou em tudo isso, mas o que conseguiu fazer foi tirar o pau dele de sua boca e tentar valer-se da escuridão para rastejar e correr para longe. Quando afastou-se cerca de dez metros do crápula, um segundo estampido soou, e antes que ela pudesse perceber, sentia um ardor atravessar-lhe a alma. Enquanto lembrava bons momentos com Flávia, ao mesmo tempo em que flashes de sua infância passavam diante do preto que turvava seus olhos, em sua cabeça havia um grito que aparecia mais forte do que tudo: “por quê?”

            O taxista aproximava-se de Cristina, que apenas ouvia os passos. Deu mais um tiro na cabeça dela, e ficou feliz ao ver que a respiração ofegante havia parado. O zíper de sua calça sobe. Ele caminha em direção ao táxi.

            O motorista entra no carro, para partir e joga a arma de volta ao porta-luvas. Ele vira a chave, dá a partida, mas lembra-se de algo e pragueja, dando com as mãos no volante. Abre a porta novamente, pega o celular no bolso e bate uma foto que mostra as duas mulheres mortas, no chão, com o sangue empapando a terra batida. Ele checa a foto: dá para ver bem as duas, apesar do tiro na cabeça de Cristina. É o melhor que pode fazer, e precisa sair logo dali, antes que alguém venha e veja a cena. “Afinal de contas”, pensa ele, “o que não falta é gente para defender bandido nesse país de merda.” Entra no carro e sai em alta velocidade, fugindo de qualquer provável testemunha.

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