O Trem que Não Passou - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






O Trem que Não Passou

      Felipe entrou na estação às 4:17 da tarde; ao menos era o que marcava o grande e esdrúxulo relógio da estação de trem. Era domingo e ele estava sozinho na plataforma, o que fazia parecer que um trem devia ter acabado de passar, para seu desespero. O trem demora mais no domingo, “mas há de chegar”, pensou ele.

      Para variar, estava atrasado, e nessa condição, cada minuto perdido é um lamento. Podia começar a pensar em mentiras para justificar o atraso – o que geralmente fazia, – mas preferiu começar a refletir sobre sua vida. Próximo de completar 40 anos, afinal, sentia-se maduro e com experiência o suficiente para analisar sua trajetória. E óbvio, automaticamente, quase que instintivamente, separava um tempo para reclamar da porra do trem que não passava (mesmo tendo passado da roleta há menos de 30 segundos), como que em um intervalo da análise.

      O fato de estar atrasado fazia-o pensar de cara em seu trabalho: ambiente que já o encheu de alegrias, mas que recentemente virava um fardo em sua vida. E lá estava, Felipe na estação, pensando em como passaram rápidos os 15 anos de firma, e como foi rápida sua ascensão; mas também foi rápida e duradoura sua estagnação.

      – Merda de trem que não passa!

      Felipe chutou um copo de Guaravita que estava no chão em direção à linha do trem, mas o copo parou ainda na plataforma, bem longe de cair. Lembrou de ter sido o destaque entre os estagiários por sua percepção e capacidade de repensar rotas rapidamente; e de quando deu uma sugestão sobre como economizar com envios de catálogos aos clientes – o que economizou muito dinheiro da empresa, – e seu chefe o promoveu direto a supervisor de logística. Foi apresentado ao dono da empresa como “um possível gerente daqui a dois ou três anos”, por conta da sagacidade e perspicácia. Hoje, 14 anos após a promoção, continuava um supervisor, e mediano até, com suas “glórias” esquecidas. O relógio marcava 4:23.

      – Eu devia ter pego um táxi!

      Não parava quieto; sentou por menos de um minuto e agitava-se, como um animal selvagem em jaula, andando de um lado para o outro. Chutou novamente o copinho de Guaravita, que parou, obedientemente, atrás da linha amarela. Pensou em sua vida em família, o amor por crianças e a expectativa que desse um bom pai e um bom marido. No entanto, trocou de amores como quem trocava de cueca, e nunca teve um filho. Sobrava vontade de ter uma criança, mas não tinha como pensar nisso, e realmente deixava para lá. A família tinha outras fontes de bebês, e podiam dormir sem isso, afinal, anos 2000, superem essa ideia de que é preciso uma família para se sentir realizado. Olhou para o relógio: 4:29.

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Fabiano Soares
O Trem que Não Passou

      Felipe entrou na estação às 4:17 da tarde; ao menos era o que marcava o grande e esdrúxulo relógio da estação de trem. Era domingo e ele estava sozinho na plataforma, o que fazia parecer que um trem devia ter acabado de passar, para seu desespero. O trem demora mais no domingo, “mas há de chegar”, pensou ele.

      Para variar, estava atrasado, e nessa condição, cada minuto perdido é um lamento. Podia começar a pensar em mentiras para justificar o atraso – o que geralmente fazia, – mas preferiu começar a refletir sobre sua vida. Próximo de completar 40 anos, afinal, sentia-se maduro e com experiência o suficiente para analisar sua trajetória. E óbvio, automaticamente, quase que instintivamente, separava um tempo para reclamar da porra do trem que não passava (mesmo tendo passado da roleta há menos de 30 segundos), como que em um intervalo da análise.

      O fato de estar atrasado fazia-o pensar de cara em seu trabalho: ambiente que já o encheu de alegrias, mas que recentemente virava um fardo em sua vida. E lá estava, Felipe na estação, pensando em como passaram rápidos os 15 anos de firma, e como foi rápida sua ascensão; mas também foi rápida e duradoura sua estagnação.

      – Merda de trem que não passa!

      Felipe chutou um copo de Guaravita que estava no chão em direção à linha do trem, mas o copo parou ainda na plataforma, bem longe de cair. Lembrou de ter sido o destaque entre os estagiários por sua percepção e capacidade de repensar rotas rapidamente; e de quando deu uma sugestão sobre como economizar com envios de catálogos aos clientes – o que economizou muito dinheiro da empresa, – e seu chefe o promoveu direto a supervisor de logística. Foi apresentado ao dono da empresa como “um possível gerente daqui a dois ou três anos”, por conta da sagacidade e perspicácia. Hoje, 14 anos após a promoção, continuava um supervisor, e mediano até, com suas “glórias” esquecidas. O relógio marcava 4:23.

      – Eu devia ter pego um táxi!

      Não parava quieto; sentou por menos de um minuto e agitava-se, como um animal selvagem em jaula, andando de um lado para o outro. Chutou novamente o copinho de Guaravita, que parou, obedientemente, atrás da linha amarela. Pensou em sua vida em família, o amor por crianças e a expectativa que desse um bom pai e um bom marido. No entanto, trocou de amores como quem trocava de cueca, e nunca teve um filho. Sobrava vontade de ter uma criança, mas não tinha como pensar nisso, e realmente deixava para lá. A família tinha outras fontes de bebês, e podiam dormir sem isso, afinal, anos 2000, superem essa ideia de que é preciso uma família para se sentir realizado. Olhou para o relógio: 4:29.

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