O Trem que Não Passou - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






O Trem que Não Passou

      – Domingo é foda. Ainda vou chegar lá, vai estar passando a porra do Faustão…

      Um novo bico e o copo de Guaravita finalmente caiu na linha de trem. Olhou para as pedras e na hora pensou em seu hobby, pintar pedrinhas e montar cenários em pequenas caixas de vidro. Começou quando adolescente, e fazia cenários toscos e pobres que remetiam a filmes B ou séries como Chaves, Chapolin. Fazia um sucesso entre os amigos, e foi aperfeiçoando. Teve uma época em que chegou a fazer cenários de séries que estavam em voga – e realmente, trabalhos bonitos que chamavam a atenção -, e apareceu em uma matéria de um jornal popular. Os amigos e familiares ficaram empolgados, pessoas entraram em contato para encomendar cenários específicos, mas ele recusou. Era apenas um hobby e não estava afim de comercializar o que fazia para se divertir. Com a cobrança, passou a fazer menos e menos, até que parou de fazer e jogou muitos dos antigos fora. O relógio estava cravado em 4:35.

      – O trem que não passou… – resmungou, com o olhar apático, olhando para o horizonte, quando a linha férrea encontrava um muro.
Não era mais o único na estação, mas, domingo, a estação continuava relativamente vazia. Todos aguardavam o trem, muitos sentados, serenos e com a tranquilidade que o domingo permite. Felipe estava novamente aguardando, ansioso, porém, quieto. Apenas mexia umas pedrinhas em sua mão, rodando-as em loop, para cima e para baixo. O trem surgiu no horizonte e veio aproximando-se. A velocidade do trem; é isso que o faz ser ainda escolhido, e óbvio, o fato de não pegar engarrafamento.

      – O trem que não passou… – balbuciou Felipe, com um olhar perdido, e ao mesmo tempo, decidido.

      O trem aproximava-se da estação. Aqueles que iam embarcar no veículo levantavam dos bancos, espreguiçavam-se, tomavam lentamente suas posições – atrás da linha amarela. Felipe posicionou-se, ajeitando-se para que as pedras não o incomodassem nesse momento. Olhou para o lado direito e viu o trem crescendo gradualmente; virou a cabeça para frente e viu o céu, e em seu campo de visão, a borda da plataforma. Sorriu.

      – Eu sou o trem que não passou…

      Felipe falou isso, sem berrar, mas audível o suficiente para chamar a atenção de um senhor sonolento que aguardava o trem, que desesperou-se e passou a abanar os braços descoordenadamente para o trem, que chegava, imponente, e a gritar:

      – Homem na linha!!! Pára!!! Homem na linha!!

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Fabiano Soares
O Trem que Não Passou

      – Domingo é foda. Ainda vou chegar lá, vai estar passando a porra do Faustão…

      Um novo bico e o copo de Guaravita finalmente caiu na linha de trem. Olhou para as pedras e na hora pensou em seu hobby, pintar pedrinhas e montar cenários em pequenas caixas de vidro. Começou quando adolescente, e fazia cenários toscos e pobres que remetiam a filmes B ou séries como Chaves, Chapolin. Fazia um sucesso entre os amigos, e foi aperfeiçoando. Teve uma época em que chegou a fazer cenários de séries que estavam em voga – e realmente, trabalhos bonitos que chamavam a atenção -, e apareceu em uma matéria de um jornal popular. Os amigos e familiares ficaram empolgados, pessoas entraram em contato para encomendar cenários específicos, mas ele recusou. Era apenas um hobby e não estava afim de comercializar o que fazia para se divertir. Com a cobrança, passou a fazer menos e menos, até que parou de fazer e jogou muitos dos antigos fora. O relógio estava cravado em 4:35.

      – O trem que não passou… – resmungou, com o olhar apático, olhando para o horizonte, quando a linha férrea encontrava um muro.
Não era mais o único na estação, mas, domingo, a estação continuava relativamente vazia. Todos aguardavam o trem, muitos sentados, serenos e com a tranquilidade que o domingo permite. Felipe estava novamente aguardando, ansioso, porém, quieto. Apenas mexia umas pedrinhas em sua mão, rodando-as em loop, para cima e para baixo. O trem surgiu no horizonte e veio aproximando-se. A velocidade do trem; é isso que o faz ser ainda escolhido, e óbvio, o fato de não pegar engarrafamento.

      – O trem que não passou… – balbuciou Felipe, com um olhar perdido, e ao mesmo tempo, decidido.

      O trem aproximava-se da estação. Aqueles que iam embarcar no veículo levantavam dos bancos, espreguiçavam-se, tomavam lentamente suas posições – atrás da linha amarela. Felipe posicionou-se, ajeitando-se para que as pedras não o incomodassem nesse momento. Olhou para o lado direito e viu o trem crescendo gradualmente; virou a cabeça para frente e viu o céu, e em seu campo de visão, a borda da plataforma. Sorriu.

      – Eu sou o trem que não passou…

      Felipe falou isso, sem berrar, mas audível o suficiente para chamar a atenção de um senhor sonolento que aguardava o trem, que desesperou-se e passou a abanar os braços descoordenadamente para o trem, que chegava, imponente, e a gritar:

      – Homem na linha!!! Pára!!! Homem na linha!!

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