Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Passeio no parque (ou passeio de verão)

Tudo parecia tão bom – e era, realmente. Um dia no parque com a mulher e os filhos; dia ensolarado, no entanto sem aquele calor escroto que te faz suar feito um porco, ostentando aquelas marcas molhadas na camisa, bem no sovaco. Início de mês, ainda dinheiro o suficiente para gastar sem se preocupar com o vermelho na conta.

Dar R$ 10 para cada filho – eram duas pestes, ambos meninos – naquele lugar era certeza de uma ou duas horas sem perturbações. Foi o que Eduardo fez, comprando assim um tempo com a esposa, coisa que não tinham há tempos. O trabalho de ambos os estava estressando – cada um com o seu -, e sem ter uma válvula de escape, acabavam brigando por diversos motivos: ou os dois estavam irritados com o trabalho e não havia clima; ou um dos dois estava estressado, e o outro não compreendia o que tinha feito de errado, enfim, coisas de casal – a impossibilidade de colocar-se no lugar do outro gerava uma bola de neve.

No entanto, voltando ao cenário paradisíaco em que se encontravam (nem tanto, mas perto do que tinham em seu apartamento claustrofóbico, realmente, parecia um sonho), exceto talvez pelo excesso de crianças, estavam se curtindo novamente, beijos apaixonados, como nos velhos tempos, leves esfregões como no início, e algumas apalpadas mais indecentes. As roupas não eram tão descoladas como antigamente (ela trocou a saia folgada por uma calça jeans e uma blusa mais solta; ele trocou a calça rasgada por uma calça jeans inteira e a camisa de banda por uma camisa polo), mas eles davam um jeito, e estavam chegando a um ponto onde as mãos roçavam em partes baixas, exatamente na altura que crianças vêem perfeitamente. Precisavam procurar um local mais reservado, e os filhos… os filhos estavam no pedalinho provavelmente, tacando tocos de madeira ou pedras em gansos no lago. E ficariam nisso um bom tempo.

Eduardo procurou um morrinho saliente para a saliência, e Clara apenas seguiu o marido, ruborizada, mesmo não estando fazendo nada no momento, apenas por saber que iria fazer. Aconchegaram-se, ele encostado no morrinho, e ela jogada para cima dele, com uma mão em seu pescoço e outra na virilha dele (porque “em sua virilha” poderia ser a dela também), quer dizer… não exatamente na virilha… E enquanto namoravam sossegados, ele pensou: “Acho que é hora de um boquetinho…”, e abaixou gentilmente a cabeça de Clara para a felação. E assim ficaram, mesmo Eduardo tendo percebido uma movimentação próxima, e visto alguns moleques que insistiam em assistir um pouco, tentando se esconder, a pegação do casal. Ele apenas fingia que não via as crianças, mas tentava não passar nada disso à esposa, que ele conhecia, pararia na hora se soubesse dos capetinhas. Ele não podia parar, afinal de contas, estava revivendo a paixão do casal. Aquele casamento falso, aquela saturação do dia-a-dia, aturar o casamento por causa dos filhos… nada disso passava por sua cabeça no momento, ele apenas conseguia enxergar e entender a mulher por quem se apaixonou. Eis a força do Boquete.

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Fabiano Soares
Passeio no parque (ou passeio de verão)

Tudo parecia tão bom – e era, realmente. Um dia no parque com a mulher e os filhos; dia ensolarado, no entanto sem aquele calor escroto que te faz suar feito um porco, ostentando aquelas marcas molhadas na camisa, bem no sovaco. Início de mês, ainda dinheiro o suficiente para gastar sem se preocupar com o vermelho na conta.

Dar R$ 10 para cada filho – eram duas pestes, ambos meninos – naquele lugar era certeza de uma ou duas horas sem perturbações. Foi o que Eduardo fez, comprando assim um tempo com a esposa, coisa que não tinham há tempos. O trabalho de ambos os estava estressando – cada um com o seu -, e sem ter uma válvula de escape, acabavam brigando por diversos motivos: ou os dois estavam irritados com o trabalho e não havia clima; ou um dos dois estava estressado, e o outro não compreendia o que tinha feito de errado, enfim, coisas de casal – a impossibilidade de colocar-se no lugar do outro gerava uma bola de neve.

No entanto, voltando ao cenário paradisíaco em que se encontravam (nem tanto, mas perto do que tinham em seu apartamento claustrofóbico, realmente, parecia um sonho), exceto talvez pelo excesso de crianças, estavam se curtindo novamente, beijos apaixonados, como nos velhos tempos, leves esfregões como no início, e algumas apalpadas mais indecentes. As roupas não eram tão descoladas como antigamente (ela trocou a saia folgada por uma calça jeans e uma blusa mais solta; ele trocou a calça rasgada por uma calça jeans inteira e a camisa de banda por uma camisa polo), mas eles davam um jeito, e estavam chegando a um ponto onde as mãos roçavam em partes baixas, exatamente na altura que crianças vêem perfeitamente. Precisavam procurar um local mais reservado, e os filhos… os filhos estavam no pedalinho provavelmente, tacando tocos de madeira ou pedras em gansos no lago. E ficariam nisso um bom tempo.

Eduardo procurou um morrinho saliente para a saliência, e Clara apenas seguiu o marido, ruborizada, mesmo não estando fazendo nada no momento, apenas por saber que iria fazer. Aconchegaram-se, ele encostado no morrinho, e ela jogada para cima dele, com uma mão em seu pescoço e outra na virilha dele (porque “em sua virilha” poderia ser a dela também), quer dizer… não exatamente na virilha… E enquanto namoravam sossegados, ele pensou: “Acho que é hora de um boquetinho…”, e abaixou gentilmente a cabeça de Clara para a felação. E assim ficaram, mesmo Eduardo tendo percebido uma movimentação próxima, e visto alguns moleques que insistiam em assistir um pouco, tentando se esconder, a pegação do casal. Ele apenas fingia que não via as crianças, mas tentava não passar nada disso à esposa, que ele conhecia, pararia na hora se soubesse dos capetinhas. Ele não podia parar, afinal de contas, estava revivendo a paixão do casal. Aquele casamento falso, aquela saturação do dia-a-dia, aturar o casamento por causa dos filhos… nada disso passava por sua cabeça no momento, ele apenas conseguia enxergar e entender a mulher por quem se apaixonou. Eis a força do Boquete.

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