Pesca esportiva - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.





Pesca esportiva

– A melhor sensação na vida é você puxar algo que vai contra a correnteza! Não… na verdade, a melhor sensação na vida é você conseguir puxar algo que estava contra a correnteza, e fazer vir pra sua mão.

Richard apenas olhava, com um sorriso no rosto, Pedro, o relativamente jovem rapaz, com seus 30 e poucos anos, tentando explicar-lhe o prazer da pesca esportiva.

– O Poder consiste nisso! Mostrar que perante sua força não existe resistência eficaz!

Essa idade era propícia para que jovens ricos achassem que, por terem uma riqueza qualquer, eram Deus, e que todas as criaturas foram feitas para servir apenas a eles. Richard, do alto de seus 60 anos, não sabia se era hora para acabar com sua felicidade e fazê-lo voltar ao mundo dos mortais (e ao dos insignificantes, para ser mais sincero), o que sua experiência já o tinha ensinado mesmo nunca antes tendo tentado ser Deus. Resolveu falar.

– Mas é só um peixe… e você está com um belo equipamento, usa até luvas! Isso é poder ou é covardia?

Deu uma risada amena para não parecer ofensivo.

– Não… eu… a vara poderia até…

– Calma, estou apenas brincando – Richard deu uns tapinhas nas costas do jovem. Eu entendo a emoção que a pesca esportiva traz.

O jovem olha para ele, ainda desconfiado, esperando outra piada maldosa do coroa, mas ficou só na expectativa. Richard realmente parecia estar falando com um prazer de quem já experimentou muito daquela sensação a qual falava, segundos atrás.

– Eu já pesquei muito quando era jovem, quando tinha sua idade. Mas pescava e levava para casa, comia. Cada peixe era um troféu, uma cicatriz curada de uma noite passada ao relento, em barcos, com bebidas e uns bons amigos – continuou Richard.

O jovem alternava o olhar entre a bóia de sua linha e o rosto de Richard.

– Bom, eu sou contra matar peixes, afinal, já existe uma indústria pesqueira para isso. Eu estou aqui pescando pela luta, uma boa briga que me leve a disputar com o peixe, despertando meu instinto animal.

– E no final, mostrar a ele quem é Deus, certo? – disse Richard, totalmente sério, mas com um tom irônico que poucos entendem.

– É… pode-se dizer que sim. Eu gosto de pegar o peixe nas mãos, olhar para os olhos dele e… eu gosto que ele sinta que eu posso matá-lo… Que eu posso deixá-lo agonizar até morrer… Que eu posso parti-lo ao meio e comer suas entranhas, porque eu fui o vencedor!!! E depois de ele saber a merdinha que é, gosto de soltá-lo, como prova de minha superioridade… Hehe, é… pode-se dizer que eu gosto de mostrar a ele que eu sou Deus!

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8

Fabiano Soares
Pesca esportiva

– A melhor sensação na vida é você puxar algo que vai contra a correnteza! Não… na verdade, a melhor sensação na vida é você conseguir puxar algo que estava contra a correnteza, e fazer vir pra sua mão.

Richard apenas olhava, com um sorriso no rosto, Pedro, o relativamente jovem rapaz, com seus 30 e poucos anos, tentando explicar-lhe o prazer da pesca esportiva.

– O Poder consiste nisso! Mostrar que perante sua força não existe resistência eficaz!

Essa idade era propícia para que jovens ricos achassem que, por terem uma riqueza qualquer, eram Deus, e que todas as criaturas foram feitas para servir apenas a eles. Richard, do alto de seus 60 anos, não sabia se era hora para acabar com sua felicidade e fazê-lo voltar ao mundo dos mortais (e ao dos insignificantes, para ser mais sincero), o que sua experiência já o tinha ensinado mesmo nunca antes tendo tentado ser Deus. Resolveu falar.

– Mas é só um peixe… e você está com um belo equipamento, usa até luvas! Isso é poder ou é covardia?

Deu uma risada amena para não parecer ofensivo.

– Não… eu… a vara poderia até…

– Calma, estou apenas brincando – Richard deu uns tapinhas nas costas do jovem. Eu entendo a emoção que a pesca esportiva traz.

O jovem olha para ele, ainda desconfiado, esperando outra piada maldosa do coroa, mas ficou só na expectativa. Richard realmente parecia estar falando com um prazer de quem já experimentou muito daquela sensação a qual falava, segundos atrás.

– Eu já pesquei muito quando era jovem, quando tinha sua idade. Mas pescava e levava para casa, comia. Cada peixe era um troféu, uma cicatriz curada de uma noite passada ao relento, em barcos, com bebidas e uns bons amigos – continuou Richard.

O jovem alternava o olhar entre a bóia de sua linha e o rosto de Richard.

– Bom, eu sou contra matar peixes, afinal, já existe uma indústria pesqueira para isso. Eu estou aqui pescando pela luta, uma boa briga que me leve a disputar com o peixe, despertando meu instinto animal.

– E no final, mostrar a ele quem é Deus, certo? – disse Richard, totalmente sério, mas com um tom irônico que poucos entendem.

– É… pode-se dizer que sim. Eu gosto de pegar o peixe nas mãos, olhar para os olhos dele e… eu gosto que ele sinta que eu posso matá-lo… Que eu posso deixá-lo agonizar até morrer… Que eu posso parti-lo ao meio e comer suas entranhas, porque eu fui o vencedor!!! E depois de ele saber a merdinha que é, gosto de soltá-lo, como prova de minha superioridade… Hehe, é… pode-se dizer que eu gosto de mostrar a ele que eu sou Deus!

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8