Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Tudo é mais fácil com um carro e dinheiro

Crianças pintam o muro da escola de branco. Dia ensolarado. As crianças estão amuadas, tristes. Algumas choram. E olha que a palmatória foi abolida faz tempo… Será frescura?

Era apenas uma garota de saco cheio de tudo. Vivia como podia, com certa mordomia até, considerando as péssimas condições de vida da maioria da população: tinha casa, família, roupas, computador… enfim, não tinha do que reclamar. Mas reclamava. A vida era uma merda, as pessoas não a compreendiam. A maldita imperfeição humana era inadmissível para ela; por que nasceu humana? Por que nasceu, afinal?

Cristina se isolava a todo momento, mesmo em locais movimentados. Na escola, na rua, em shows; em qualquer lugar ela era vista sozinha. Usava fones de ouvido para que não puxassem assunto, e fingia-se drogada quando vinham falar com ela. Sabia de toda a falsidade das pessoas, não queria falar com gente chata, gente que só a elogia, querendo sempre alguma coisa em troca. Humanidade. Esse era o motivo de sua revolta.

Sabia dirigir desde os 12 anos, quando pegava o carro do pai emprestado para dar voltas no sítio em que a família passava as férias. Tinha agora 18. Resolveu que era hora de comprar um carro. Não tinha dinheiro (não tinha trabalho fixo, e muito menos ganhava mesada), mas resolveu fazer um esforço. Fez um concurso para a área da saúde, como técnica administrativa. Passou, e esperou ser chamada.

Cristina tinha então 19 anos quando foi chamada para o trabalho. O salário era de quase mil reais, e ficou apenas 6 meses. Era dinheiro suficiente para comprar o carro, e não se importava em ser concursada; não pensava em estabilidade, pois sabia que a qualquer momento sua vida poderia ser interrompida com uma bala perdida, algum acidente, um assalto, o que fosse. Vivia seus impulsos, e largou o emprego, causando revolta em seus pais. Foi chamada de irresponsável, vagabunda, aproveitadora e muito mais. Não se aborreceu.

Comprou o carro. Um Verona, usado, que custou R$ 4.500,00. Pela primeira vez pensou num futuro, nem que fosse um breve futuro, mas pensou: tinha R$ 1.500,00 ainda, e poderia ver-se livre dos seus pais. Moraria no carro, e quando acabasse o dinheiro, o próprio serviria de local para fazer programa, onde conseguiria dinheiro para o dia seguinte, e assim viveria. Maravilha!

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Fabiano Soares
Tudo é mais fácil com um carro e dinheiro

Crianças pintam o muro da escola de branco. Dia ensolarado. As crianças estão amuadas, tristes. Algumas choram. E olha que a palmatória foi abolida faz tempo… Será frescura?

Era apenas uma garota de saco cheio de tudo. Vivia como podia, com certa mordomia até, considerando as péssimas condições de vida da maioria da população: tinha casa, família, roupas, computador… enfim, não tinha do que reclamar. Mas reclamava. A vida era uma merda, as pessoas não a compreendiam. A maldita imperfeição humana era inadmissível para ela; por que nasceu humana? Por que nasceu, afinal?

Cristina se isolava a todo momento, mesmo em locais movimentados. Na escola, na rua, em shows; em qualquer lugar ela era vista sozinha. Usava fones de ouvido para que não puxassem assunto, e fingia-se drogada quando vinham falar com ela. Sabia de toda a falsidade das pessoas, não queria falar com gente chata, gente que só a elogia, querendo sempre alguma coisa em troca. Humanidade. Esse era o motivo de sua revolta.

Sabia dirigir desde os 12 anos, quando pegava o carro do pai emprestado para dar voltas no sítio em que a família passava as férias. Tinha agora 18. Resolveu que era hora de comprar um carro. Não tinha dinheiro (não tinha trabalho fixo, e muito menos ganhava mesada), mas resolveu fazer um esforço. Fez um concurso para a área da saúde, como técnica administrativa. Passou, e esperou ser chamada.

Cristina tinha então 19 anos quando foi chamada para o trabalho. O salário era de quase mil reais, e ficou apenas 6 meses. Era dinheiro suficiente para comprar o carro, e não se importava em ser concursada; não pensava em estabilidade, pois sabia que a qualquer momento sua vida poderia ser interrompida com uma bala perdida, algum acidente, um assalto, o que fosse. Vivia seus impulsos, e largou o emprego, causando revolta em seus pais. Foi chamada de irresponsável, vagabunda, aproveitadora e muito mais. Não se aborreceu.

Comprou o carro. Um Verona, usado, que custou R$ 4.500,00. Pela primeira vez pensou num futuro, nem que fosse um breve futuro, mas pensou: tinha R$ 1.500,00 ainda, e poderia ver-se livre dos seus pais. Moraria no carro, e quando acabasse o dinheiro, o próprio serviria de local para fazer programa, onde conseguiria dinheiro para o dia seguinte, e assim viveria. Maravilha!

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