Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Flávio Assumpção
Eu escrevo desde 2007. Trabalho com contos de terror e ficção científica. Fui influenciado por Lautreamont, Marquês de Sade, Philip K. Dick, Robert Anton Wilson, Willian Burroughs, Augusto dos Anjos, Hakim Bey, Alan Moore, Clive Barker, entre outros. Quando não estou sob a influência dos demônios do caos, costumo trabalhar como psicólogo clínico na cidade de São Paulo.





A pá

Pelas lentes dos meus olhos velhos que deixaram de enxergar
A chuva cai embaçando minha visão
O céu está cinza como a alma
Caminho lentamente sob minhas pernas de pau
Tento me equilibrar no chão lamacento
Retiro meu paletó de concreto
Desfaço o nó da gravata de arame que me sufoca
Retiro a poeira da cadeira onde costumo sentar todos os dias
A coloco na varanda de casa
E como de costume eu observo a chuva de pássaros mortos caírem do céu
Contemplo o horizonte vermelho devorar os sorrisos e os sonhos
Passo um pano macio para dar um pouco de brilho em minha pele de madeira
Reforço os parafusos e os pregos da cada junta do meu corpo endurecido e mofado
Sento com dificuldade em minha cadeira
Retiro do bolso da calça uma foto antiga
Na foto eu vejo um coração ensangüentado que já batera forte uma vez
A imagem se incendeia em minhas mãos
Jogo a foto no chão e piso nela com força
Salamandras dançam por entre as chamas bem na minha frente
Cantam uma canção erótica
Um corvo negro de olhos vermelhos pousou ao meu lado
Observando meus movimentos doentios
Um nevoeiro esverdeado cobre o campo
No meio do nevoeiro surge uma criança envelhecida
Seu corpo está sujo de sangue

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Pelas lentes dos meus olhos velhos que deixaram de enxergar
A chuva cai embaçando minha visão
O céu está cinza como a alma
Caminho lentamente sob minhas pernas de pau
Tento me equilibrar no chão lamacento
Retiro meu paletó de concreto
Desfaço o nó da gravata de arame que me sufoca
Retiro a poeira da cadeira onde costumo sentar todos os dias
A coloco na varanda de casa
E como de costume eu observo a chuva de pássaros mortos caírem do céu
Contemplo o horizonte vermelho devorar os sorrisos e os sonhos
Passo um pano macio para dar um pouco de brilho em minha pele de madeira
Reforço os parafusos e os pregos da cada junta do meu corpo endurecido e mofado
Sento com dificuldade em minha cadeira
Retiro do bolso da calça uma foto antiga
Na foto eu vejo um coração ensangüentado que já batera forte uma vez
A imagem se incendeia em minhas mãos
Jogo a foto no chão e piso nela com força
Salamandras dançam por entre as chamas bem na minha frente
Cantam uma canção erótica
Um corvo negro de olhos vermelhos pousou ao meu lado
Observando meus movimentos doentios
Um nevoeiro esverdeado cobre o campo
No meio do nevoeiro surge uma criança envelhecida
Seu corpo está sujo de sangue

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