Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Flávio Assumpção
Eu escrevo desde 2007. Trabalho com contos de terror e ficção científica. Fui influenciado por Lautreamont, Marquês de Sade, Philip K. Dick, Robert Anton Wilson, Willian Burroughs, Augusto dos Anjos, Hakim Bey, Alan Moore, Clive Barker, entre outros. Quando não estou sob a influência dos demônios do caos, costumo trabalhar como psicólogo clínico na cidade de São Paulo.





Descida ao inferno

O zumbido do inseto ecoa em minha cabeça. Ouço suas patas batendo em meu crânio, toda noite quando a insônia vem me visitar. Com seu vestido negro e seu sorriso macabro, ela anda pelo teto de meu quarto, olha fixamente para mim, beija minha testa como uma mãe cuidadosa dando boa noite para o filho e diz ao insone:”tenha uma boa noite de desdém pela vida e de alucinações masturbatórias”.

Disparo minhas palavras vãs contra a existência vil dos homens. Meu canto de hálito pútrido gela a espinha contorcida dos homens, pois minha voz ecoa em seus intestinos fétidos e contaminados.

Ó vida bela que urina em minha face deixando seu odor no meu sorriso sorriso negro de dentes cinzas salivando o ódio de uma bela canção de amor… Amor, tragédia entorpecedora das almas, ópio do desejo, vício saboroso, lambe nossos corações, lubrificando suas batidas como numa vagina pulsante de desejos, ardendo no peito, queimando as vísceras prazerosamente. Traz no corpo o calafrio mortal a beleza da vida.

Vida que te faz ter gases fétidos que te faz evacuar …. fezes, que bela novidade me trazes hoje? Notícias de meu interior? De quando vou morrer? Ou do quanto me suicido diariamente com uma alimentação digna de vermes?

…. Começa a viagem …

”O viajante olha no espelho e vê uma porta aberta em seu peito, ele resolve entrar ….”

Caminhando nesta manhã ensolarada pelo Sol negro do desespero, observo os passos lentos e cadavéricos de um idoso, uma cadela no cio, fezes de cão na rua, um feto abandonado na lixeira, uma dona de casa lavando de maneira suicida sua calçada, crianças brincando na igreja do padre pedófilo, uma mãe gritando com sua filha pois já teme a juventude e a feminilidade da filha ainda pequena, grita com medo, medo de perder seu espaço, medo de ver sua filha ser mais desejada do que ela mesma já fora, medo de se ver velha e desfigurada frente ao corpo vivo e pulsante da filha. Vejo um pai espancando o filho pois  este é o único prazer que possui na vida, o prazer de acreditar ser o dono do corpo de alguém, pois este já não possui a si mesmo.

Sinto um peso no corpo um inseto grudado em minhas costas crescendo a cada dia, cada vez maior, tornando minhas costas curvadas ”como se chamas inseto? quem és tu?” ”sou a sua vida, estou te consumindo aos poucos, me alimentando de seu corpo, de seu sangue, de teu suor, de suas lágrimas, de suas esperanças, de seus erros, de sua estupidez, de seu rancor, de seu ódio, de suas paixões, de sua criatividade, de seu amor, de seu sorriso, de você”

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Flávio Assumpção
Descida ao inferno

O zumbido do inseto ecoa em minha cabeça. Ouço suas patas batendo em meu crânio, toda noite quando a insônia vem me visitar. Com seu vestido negro e seu sorriso macabro, ela anda pelo teto de meu quarto, olha fixamente para mim, beija minha testa como uma mãe cuidadosa dando boa noite para o filho e diz ao insone:”tenha uma boa noite de desdém pela vida e de alucinações masturbatórias”.

Disparo minhas palavras vãs contra a existência vil dos homens. Meu canto de hálito pútrido gela a espinha contorcida dos homens, pois minha voz ecoa em seus intestinos fétidos e contaminados.

Ó vida bela que urina em minha face deixando seu odor no meu sorriso sorriso negro de dentes cinzas salivando o ódio de uma bela canção de amor… Amor, tragédia entorpecedora das almas, ópio do desejo, vício saboroso, lambe nossos corações, lubrificando suas batidas como numa vagina pulsante de desejos, ardendo no peito, queimando as vísceras prazerosamente. Traz no corpo o calafrio mortal a beleza da vida.

Vida que te faz ter gases fétidos que te faz evacuar …. fezes, que bela novidade me trazes hoje? Notícias de meu interior? De quando vou morrer? Ou do quanto me suicido diariamente com uma alimentação digna de vermes?

…. Começa a viagem …

”O viajante olha no espelho e vê uma porta aberta em seu peito, ele resolve entrar ….”

Caminhando nesta manhã ensolarada pelo Sol negro do desespero, observo os passos lentos e cadavéricos de um idoso, uma cadela no cio, fezes de cão na rua, um feto abandonado na lixeira, uma dona de casa lavando de maneira suicida sua calçada, crianças brincando na igreja do padre pedófilo, uma mãe gritando com sua filha pois já teme a juventude e a feminilidade da filha ainda pequena, grita com medo, medo de perder seu espaço, medo de ver sua filha ser mais desejada do que ela mesma já fora, medo de se ver velha e desfigurada frente ao corpo vivo e pulsante da filha. Vejo um pai espancando o filho pois  este é o único prazer que possui na vida, o prazer de acreditar ser o dono do corpo de alguém, pois este já não possui a si mesmo.

Sinto um peso no corpo um inseto grudado em minhas costas crescendo a cada dia, cada vez maior, tornando minhas costas curvadas ”como se chamas inseto? quem és tu?” ”sou a sua vida, estou te consumindo aos poucos, me alimentando de seu corpo, de seu sangue, de teu suor, de suas lágrimas, de suas esperanças, de seus erros, de sua estupidez, de seu rancor, de seu ódio, de suas paixões, de sua criatividade, de seu amor, de seu sorriso, de você”

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