Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Flávio Assumpção
Eu escrevo desde 2007. Trabalho com contos de terror e ficção científica. Fui influenciado por Lautreamont, Marquês de Sade, Philip K. Dick, Robert Anton Wilson, Willian Burroughs, Augusto dos Anjos, Hakim Bey, Alan Moore, Clive Barker, entre outros. Quando não estou sob a influência dos demônios do caos, costumo trabalhar como psicólogo clínico na cidade de São Paulo.





Egocracia parte 2

Andava naquele mundo escuro e novo, sem respostas prontas, sem racionalizações, apenas andava. O medo do desconhecido percorria pelas entranhas do seu ser. Rivotril sentia que daquele momento em diante ele nunca mais seria o mesmo, nunca mais seria aquilo que ele imaginava ser…

Do outro lado do espelho a bela cidade nova estava mais poderosa como nunca, o grande ego reinava absoluto. Aquela nova cidade havia sido batizada recentemente por uma “votação popular”, aonde cada pessoa ia até o palácio do grande ego, sentava em seu colo, era enrabada por ele e depois ouvia o nome que o grande ego havia escolhido para a cidade. Logo após esse ritual, a pessoa tinha que agradecer e sorrir pela escolha do nome, feita democraticamente pelo grande ego.

O nome escolhido na votação democrática era Aripiprazolândia, um nome alucinante com certeza.

Em outro grande momento da bela e nova cidade, o grande ego decidiu de maneira democrática novamente, que ele iria vestir os moradores da cidade com roupas de cãezinhos de madames, obrigando a todos a caminharem de quatro com uma coleira no pescoço. Depois do passeio, sendo conduzidos pelo grande ego, cada morador tinha que latir e lamber a mão do seu querido dono e amado líder, em sinal de respeito e alegria por ele ter tido essa grande idéia para a cidade.

Sua última e nova invenção era a de cobrir a Aripiprazolândia com uma cúpula, protegendo a cidade dos outros humanos restantes daquele mundo. Estes humanos eram aqueles que ainda estavam tomados pelo vírus que destruiu o velho mundo, transformando a todos em bestas assassinas. O grande ego resolveu fazer uma cúpula gigante feita com lágrimas, vômito, vidro, plástico bolha, dentaduras, fraldas sujas, camisinhas usadas, cera de ouvido, sangue menstrual, mamadeiras e chupetas. Uma grande proteção, sem dúvida!!

Enquanto isso, Rivotril seguia sua jornada naquela dimensão atrás do espelho. Ele andava e olhava nas pequenas passagens que ele encontrava pelo caminho. Cada uma dava em um banheiro, sala, quarto ou em qualquer lugar em que houvesse um espelho. Em cada portal, Rivortil via como era a realidade de cada pessoa e como estava à realidade dela do outro lado simultaneamente, naquela dimensão paralela ao nosso chamado mundo real. Na primeira janela, ele viu um garoto sentado em sua cama, arrancando os cabelos de sua cabeça e comendo-os, num ritual de sofrimento expresso em cada gesto repetitivo, em cada gesto ansioso. O garoto engolia os cabelos, engolia também fios de tecido que guardava em seus bolsos e pedaços de algodão usados, roubados da lixeira de um hospital próximo dali. Rivotril olhou para trás, no mundo onde ele estava, viu o mesmo garoto com asas douradas, flutuando naquele lugar, ao lado de fadas, gnomos e um dragão vermelho, se divertindo naquela fantasia, enquanto sofria do outro lado do espelho com suas angústias do mundo “real”.

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Flávio Assumpção
Egocracia parte 2

Andava naquele mundo escuro e novo, sem respostas prontas, sem racionalizações, apenas andava. O medo do desconhecido percorria pelas entranhas do seu ser. Rivotril sentia que daquele momento em diante ele nunca mais seria o mesmo, nunca mais seria aquilo que ele imaginava ser…

Do outro lado do espelho a bela cidade nova estava mais poderosa como nunca, o grande ego reinava absoluto. Aquela nova cidade havia sido batizada recentemente por uma “votação popular”, aonde cada pessoa ia até o palácio do grande ego, sentava em seu colo, era enrabada por ele e depois ouvia o nome que o grande ego havia escolhido para a cidade. Logo após esse ritual, a pessoa tinha que agradecer e sorrir pela escolha do nome, feita democraticamente pelo grande ego.

O nome escolhido na votação democrática era Aripiprazolândia, um nome alucinante com certeza.

Em outro grande momento da bela e nova cidade, o grande ego decidiu de maneira democrática novamente, que ele iria vestir os moradores da cidade com roupas de cãezinhos de madames, obrigando a todos a caminharem de quatro com uma coleira no pescoço. Depois do passeio, sendo conduzidos pelo grande ego, cada morador tinha que latir e lamber a mão do seu querido dono e amado líder, em sinal de respeito e alegria por ele ter tido essa grande idéia para a cidade.

Sua última e nova invenção era a de cobrir a Aripiprazolândia com uma cúpula, protegendo a cidade dos outros humanos restantes daquele mundo. Estes humanos eram aqueles que ainda estavam tomados pelo vírus que destruiu o velho mundo, transformando a todos em bestas assassinas. O grande ego resolveu fazer uma cúpula gigante feita com lágrimas, vômito, vidro, plástico bolha, dentaduras, fraldas sujas, camisinhas usadas, cera de ouvido, sangue menstrual, mamadeiras e chupetas. Uma grande proteção, sem dúvida!!

Enquanto isso, Rivotril seguia sua jornada naquela dimensão atrás do espelho. Ele andava e olhava nas pequenas passagens que ele encontrava pelo caminho. Cada uma dava em um banheiro, sala, quarto ou em qualquer lugar em que houvesse um espelho. Em cada portal, Rivortil via como era a realidade de cada pessoa e como estava à realidade dela do outro lado simultaneamente, naquela dimensão paralela ao nosso chamado mundo real. Na primeira janela, ele viu um garoto sentado em sua cama, arrancando os cabelos de sua cabeça e comendo-os, num ritual de sofrimento expresso em cada gesto repetitivo, em cada gesto ansioso. O garoto engolia os cabelos, engolia também fios de tecido que guardava em seus bolsos e pedaços de algodão usados, roubados da lixeira de um hospital próximo dali. Rivotril olhou para trás, no mundo onde ele estava, viu o mesmo garoto com asas douradas, flutuando naquele lugar, ao lado de fadas, gnomos e um dragão vermelho, se divertindo naquela fantasia, enquanto sofria do outro lado do espelho com suas angústias do mundo “real”.

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