Memórias de um necrófilo - Flávio Assumpção
Flávio Assumpção
Eu escrevo desde 2007. Trabalho com contos de terror e ficção científica. Fui influenciado por Lautreamont, Marquês de Sade, Philip K. Dick, Robert Anton Wilson, Willian Burroughs, Augusto dos Anjos, Hakim Bey, Alan Moore, Clive Barker, entre outros. Quando não estou sob a influência dos demônios do caos, costumo trabalhar como psicólogo clínico na cidade de São Paulo.





Memórias de um necrófilo

Aqui tudo é muito silencioso. Alguns murmuram algumas lamúrias, ruminando tristezas, arrependimentos e idéias que não foram postas em prática. Cada um sempre em seu canto e em silêncio. Desde que cheguei até esta casa que se tornou minha moradia atual ainda não consegui fazer amizades valorosas. Tudo sempre está numa calmaria infinita e num silêncio crepuscular.
Costumo passar meus dias relembrando de meu passado um tanto quanto tumultuado. Sempre vivi de modo não muito natural, muitos daqueles que estão a ouvir-me ficarão espantados e chocados ao ler o presente relato. Espero que não se deixem levar por vossas percepções e crenças, pois não quero ser julgado antecipadamente por moralismos condicionados oriundos de uma sociedade doentia. Não me colocarei como vitima mas apenas digo lhes que faço parte da mesma massa humana do qual vocês fazem parte, o que está em mim também o está em vocês seja em grau menor ou maior.

Não conheci minha mãe, ela se foi no momento em que eu nasci. Ela faleceu durante o meu parto. Esse talvez tenha sido meu primeiro contato com a morte. Mas não me culpo pelo seu desaparecimento.
Meu pai me criou à sua maneira. Ele possuía uma funerária em nossa residência. Ele literalmente levava o trabalho para a casa. Os corpos ficavam em um cômodo grande da casa, lá ele preparava os cadáveres para ser entregue às suas famílias. Ele limpava os corpos, colocava a vestimenta e os deixavam apresentáveis para o seu grande dia,para o seu velório. Como era o filho único e vivíamos só nós dois,ele me ensinou o seu sagrado ofício.
Ainda criança eu costumava brincar ao lado daqueles copos nus e imóveis deitados em mesas hospitalares. Levava meus brinquedos e quadrinhos para aquela sala, passava horas brincando ao lado daqueles seres inanimados. Certa vez vi que meu pai preparava uma mulher de meia idade, ela devia ter entre 40 e 45 anos no momento de sua morte. Quando meu pai saiu de perto dela e assim pude ficar a sós com aquele corpo, eu me senti extremamente próximo a ela. Ela possuía um rosto maternal. E pela primeira vez eu tomei a coragem e me deitei em cima daquela pessoa. Peguei no sono e dormi em seu abdome durante horas, senti como se estivesse no colo da mãe que nunca tive. Claro que meu pai me deu uma severa bronca. Em outra ocasião, já na adolescência e como ajudante do meu pai, eu fiquei incumbido de preparar o corpo de uma jovem que havia falecido com a idade de 21 anos.

Páginas: 1 2 3 4

Flávio Assumpção
Memórias de um necrófilo

Aqui tudo é muito silencioso. Alguns murmuram algumas lamúrias, ruminando tristezas, arrependimentos e idéias que não foram postas em prática. Cada um sempre em seu canto e em silêncio. Desde que cheguei até esta casa que se tornou minha moradia atual ainda não consegui fazer amizades valorosas. Tudo sempre está numa calmaria infinita e num silêncio crepuscular.
Costumo passar meus dias relembrando de meu passado um tanto quanto tumultuado. Sempre vivi de modo não muito natural, muitos daqueles que estão a ouvir-me ficarão espantados e chocados ao ler o presente relato. Espero que não se deixem levar por vossas percepções e crenças, pois não quero ser julgado antecipadamente por moralismos condicionados oriundos de uma sociedade doentia. Não me colocarei como vitima mas apenas digo lhes que faço parte da mesma massa humana do qual vocês fazem parte, o que está em mim também o está em vocês seja em grau menor ou maior.

Não conheci minha mãe, ela se foi no momento em que eu nasci. Ela faleceu durante o meu parto. Esse talvez tenha sido meu primeiro contato com a morte. Mas não me culpo pelo seu desaparecimento.
Meu pai me criou à sua maneira. Ele possuía uma funerária em nossa residência. Ele literalmente levava o trabalho para a casa. Os corpos ficavam em um cômodo grande da casa, lá ele preparava os cadáveres para ser entregue às suas famílias. Ele limpava os corpos, colocava a vestimenta e os deixavam apresentáveis para o seu grande dia,para o seu velório. Como era o filho único e vivíamos só nós dois,ele me ensinou o seu sagrado ofício.
Ainda criança eu costumava brincar ao lado daqueles copos nus e imóveis deitados em mesas hospitalares. Levava meus brinquedos e quadrinhos para aquela sala, passava horas brincando ao lado daqueles seres inanimados. Certa vez vi que meu pai preparava uma mulher de meia idade, ela devia ter entre 40 e 45 anos no momento de sua morte. Quando meu pai saiu de perto dela e assim pude ficar a sós com aquele corpo, eu me senti extremamente próximo a ela. Ela possuía um rosto maternal. E pela primeira vez eu tomei a coragem e me deitei em cima daquela pessoa. Peguei no sono e dormi em seu abdome durante horas, senti como se estivesse no colo da mãe que nunca tive. Claro que meu pai me deu uma severa bronca. Em outra ocasião, já na adolescência e como ajudante do meu pai, eu fiquei incumbido de preparar o corpo de uma jovem que havia falecido com a idade de 21 anos.

Páginas: 1 2 3 4