O culto das baratas - Flávio Assumpção
Flávio Assumpção
Eu escrevo desde 2007. Trabalho com contos de terror e ficção científica. Fui influenciado por Lautreamont, Marquês de Sade, Philip K. Dick, Robert Anton Wilson, Willian Burroughs, Augusto dos Anjos, Hakim Bey, Alan Moore, Clive Barker, entre outros. Quando não estou sob a influência dos demônios do caos, costumo trabalhar como psicólogo clínico na cidade de São Paulo.





O culto das baratas

       Milhões de anos se passaram e nós ainda estamos aqui. Nem suas bombas mais potentes, seus inseticidas e outras ferramentas quimicamente mortais, nem suas doenças mais devastadoras, nem  o mais genial dentre os de vossa espécie ou o mais astuto dos assassinos conseguiu nos exterminar.

       O planeta está em nosso controle por séculos e apenas os de sua raça ainda não compreenderam isto.  Temos acompanhado suas vidas tragicômicas, suas guerras por territórios imaginários, por símbolos falsos, por ídolos astutamente criados para ludibriar a maior parte dos animais alienados de sua espécie doente e insana. Temos acompanhado os seus desesperados ritos religiosos, criados para fantasiar vossa existência finita e sua realidade surreal, pensado  de forma engenhosa pelos primatas machos alfas que comandam  sua raça de maneira autoritária, enganando suas mentes e comandando suas pobres vidas, dizendo o que devem pensar e fazer em nome de uma falsa sensação de segurança que isto lhes causa, para que não precise pensar ou se responsabilizar por seus atos, escolhas, erros, desejos e por sua própria  existência.

       Acompanhamos as revoltas de alguns que conseguem despertar de seu sono imposto contra aqueles machos alfas que colocastes no poder. Acompanhamos os seus giros e rodopios em desespero atrás de um pseudo ser superior para adorar com todas as suas forças como o teu deus, suas guerras de ódio contra aqueles que creem em outras quimeras ou que pensam ou são diferentes de ti.

       Acompanhamos o medo que tens da vida, da morte, de teu corpo, de teu sexo, de vosso planeta, dos outros seres vivos que te rodeiam, do amor, de seus fluídos corporais, de teus semelhantes de tua espécie e de seus pensamentos criativos que sua raça não sabe como tirar proveito, exceto um pequeno grupo de machos alfas, os quais sua raça segue e confia loucamente, entregando-lhes suas vidas, almas e corpos, em troca de um punhado  de pedaços de papéis que simbolicamente para ti representa mais que a tua vida e a de seus semelhantes.

       Sempre estivemos ao seu lado, acompanhando o seu fim e a sua autodestruição. Estamos aqui antes de vocês e estaremos aqui após a sua extinção. Alimentamo-nos de seus restos, comemos suas fezes e aprendemos a pensar como vós comendo os nutrientes e o material genético de sua raça contido em vossos lábios e em teu suor noturno.

       Todas as noites enquanto dormes reparando as suas conexões neuronais, nós furtivamente nos alimentamos da carne úmida de vossos lábios e bebemos o líquido poderoso de vosso suor. Unindo os teus nutrientes e o DNA de vossos corpos com a nossa imensa capacidade de sobreviver às piores e mais drásticas situações, desenvolvemos a nossa inteligência, muito semelhante a vossa.

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Flávio Assumpção
O culto das baratas

       Milhões de anos se passaram e nós ainda estamos aqui. Nem suas bombas mais potentes, seus inseticidas e outras ferramentas quimicamente mortais, nem suas doenças mais devastadoras, nem  o mais genial dentre os de vossa espécie ou o mais astuto dos assassinos conseguiu nos exterminar.

       O planeta está em nosso controle por séculos e apenas os de sua raça ainda não compreenderam isto.  Temos acompanhado suas vidas tragicômicas, suas guerras por territórios imaginários, por símbolos falsos, por ídolos astutamente criados para ludibriar a maior parte dos animais alienados de sua espécie doente e insana. Temos acompanhado os seus desesperados ritos religiosos, criados para fantasiar vossa existência finita e sua realidade surreal, pensado  de forma engenhosa pelos primatas machos alfas que comandam  sua raça de maneira autoritária, enganando suas mentes e comandando suas pobres vidas, dizendo o que devem pensar e fazer em nome de uma falsa sensação de segurança que isto lhes causa, para que não precise pensar ou se responsabilizar por seus atos, escolhas, erros, desejos e por sua própria  existência.

       Acompanhamos as revoltas de alguns que conseguem despertar de seu sono imposto contra aqueles machos alfas que colocastes no poder. Acompanhamos os seus giros e rodopios em desespero atrás de um pseudo ser superior para adorar com todas as suas forças como o teu deus, suas guerras de ódio contra aqueles que creem em outras quimeras ou que pensam ou são diferentes de ti.

       Acompanhamos o medo que tens da vida, da morte, de teu corpo, de teu sexo, de vosso planeta, dos outros seres vivos que te rodeiam, do amor, de seus fluídos corporais, de teus semelhantes de tua espécie e de seus pensamentos criativos que sua raça não sabe como tirar proveito, exceto um pequeno grupo de machos alfas, os quais sua raça segue e confia loucamente, entregando-lhes suas vidas, almas e corpos, em troca de um punhado  de pedaços de papéis que simbolicamente para ti representa mais que a tua vida e a de seus semelhantes.

       Sempre estivemos ao seu lado, acompanhando o seu fim e a sua autodestruição. Estamos aqui antes de vocês e estaremos aqui após a sua extinção. Alimentamo-nos de seus restos, comemos suas fezes e aprendemos a pensar como vós comendo os nutrientes e o material genético de sua raça contido em vossos lábios e em teu suor noturno.

       Todas as noites enquanto dormes reparando as suas conexões neuronais, nós furtivamente nos alimentamos da carne úmida de vossos lábios e bebemos o líquido poderoso de vosso suor. Unindo os teus nutrientes e o DNA de vossos corpos com a nossa imensa capacidade de sobreviver às piores e mais drásticas situações, desenvolvemos a nossa inteligência, muito semelhante a vossa.

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