A maldição da Nova Cruz - Gabriel Mayer
Gabriel Mayer
Escritor e roteirista de Porto Alegre, apaixonado por horror e fantasia, tanto na literatura quanto no cinema. Formou-se em Produção Audiovisual na PUCRS e atualmente cursa Bacharelado em Letras na UFRGS. Trabalha com produção de conteúdo e desenvolvimento de projetos na Submerso Filmes, da qual é um dos fundadores.
É fascinado por monstros, lugares abandonados e magia. Suas grandes influências são Guillermo del Toro, Stephen King, Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, além de ser um grande fã de Zelda e Caverna do Dragão.






A maldição da Nova Cruz

Into the darkness, if you dare,
To walk amidst the sleeping air
Where ghouls be seen and ghosts be near
Beyond the gates of hell, you fear
– The Sermon I, Creepshow

       Eu vos convoco, filhos do esquecimento.

       Todos sabiam que algo aconteceria naquela noite. Uma sensação curiosa pairava sobre a cidade, como uma impressão estranhamente familiar. Assim que o sol começou a se pôr, os jovens começaram a se deslocar para onde o evento aconteceria. Ninguém sabia exatamente onde seria, mas, aos poucos, uma horda de pessoas foi se formando na rua principal da cidade, de forma que, caso qualquer pessoa quisesse comparecer ao evento, bastava seguir o intenso fluxo de jovens e o caminho que seguiam, numa procissão de motocicletas e jaquetas de couro, olhos pintados, tatuagens, correntes e meias arrastão.

       Logo havia anoitecido, e as luzes incandescentes dos postes de Nova Cruz se acenderam, clareando um pouco a intensa nebulosidade das ruas àquela época do ano, e embebendo-as numa coloração de amarelo alaranjado. Por algum tempo as ruas ficaram movimentadas com o fluxo de pessoas, mas, logo, nada mais havia em meio à calçada de pedra além das altas construções antigas da época das minerações.

       Embora Nova Cruz fosse uma cidade pequena, e seus moradores a conhecessem até os mínimos detalhes, ninguém reconhecia o caminho até o lugar onde o evento aconteceria. Após sair da cidade, as pessoas caminhavam um pouco até uma trilha de terra que subia uma pequena colina. Estendido sobre um poste antigo, um enorme cartaz tremulava em meio ao vento, como uma bandeira imponente.

       “A QUADRILHA DOS MORTOS-VIVOS.”

       Abaixo do letreiro estilizado havia a imagem dos quatro integrantes da banda com seus instrumentos. A guitarrista, uma jovem de olhos puxados e cabelo comprido e descolorido, mostrava a língua. Ao seu lado, um rapaz de porte grande, com uma boina preta na cabeça, e barba, segurava um contrabaixo acústico feito de ossos humanos, com um crânio na ponta do braço do instrumento. Do outro lado, outro rapaz, magro e alto, com seu teclado, vestia uma cartola e uma capa preta, que combinavam com suas olheiras surpreendentemente profundas. Atrás, segurando um par de baquetas, um rapaz loiro, com cabelos longos e levantados para cima, como se tivesse sofrido um choque elétrico, usava óculos de armação redonda, bem na ponta do nariz, um par de luvas grossas e um avental de couro.

       E os quatro músicos estavam encharcados de sangue. Na ponta inferior direita da imagem, em letras verdes, lia-se: “ESTA NOITE”.

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Gabriel Mayer
A maldição da Nova Cruz

Into the darkness, if you dare,
To walk amidst the sleeping air
Where ghouls be seen and ghosts be near
Beyond the gates of hell, you fear
– The Sermon I, Creepshow

       Eu vos convoco, filhos do esquecimento.

       Todos sabiam que algo aconteceria naquela noite. Uma sensação curiosa pairava sobre a cidade, como uma impressão estranhamente familiar. Assim que o sol começou a se pôr, os jovens começaram a se deslocar para onde o evento aconteceria. Ninguém sabia exatamente onde seria, mas, aos poucos, uma horda de pessoas foi se formando na rua principal da cidade, de forma que, caso qualquer pessoa quisesse comparecer ao evento, bastava seguir o intenso fluxo de jovens e o caminho que seguiam, numa procissão de motocicletas e jaquetas de couro, olhos pintados, tatuagens, correntes e meias arrastão.

       Logo havia anoitecido, e as luzes incandescentes dos postes de Nova Cruz se acenderam, clareando um pouco a intensa nebulosidade das ruas àquela época do ano, e embebendo-as numa coloração de amarelo alaranjado. Por algum tempo as ruas ficaram movimentadas com o fluxo de pessoas, mas, logo, nada mais havia em meio à calçada de pedra além das altas construções antigas da época das minerações.

       Embora Nova Cruz fosse uma cidade pequena, e seus moradores a conhecessem até os mínimos detalhes, ninguém reconhecia o caminho até o lugar onde o evento aconteceria. Após sair da cidade, as pessoas caminhavam um pouco até uma trilha de terra que subia uma pequena colina. Estendido sobre um poste antigo, um enorme cartaz tremulava em meio ao vento, como uma bandeira imponente.

       “A QUADRILHA DOS MORTOS-VIVOS.”

       Abaixo do letreiro estilizado havia a imagem dos quatro integrantes da banda com seus instrumentos. A guitarrista, uma jovem de olhos puxados e cabelo comprido e descolorido, mostrava a língua. Ao seu lado, um rapaz de porte grande, com uma boina preta na cabeça, e barba, segurava um contrabaixo acústico feito de ossos humanos, com um crânio na ponta do braço do instrumento. Do outro lado, outro rapaz, magro e alto, com seu teclado, vestia uma cartola e uma capa preta, que combinavam com suas olheiras surpreendentemente profundas. Atrás, segurando um par de baquetas, um rapaz loiro, com cabelos longos e levantados para cima, como se tivesse sofrido um choque elétrico, usava óculos de armação redonda, bem na ponta do nariz, um par de luvas grossas e um avental de couro.

       E os quatro músicos estavam encharcados de sangue. Na ponta inferior direita da imagem, em letras verdes, lia-se: “ESTA NOITE”.

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