A maldição da Nova Cruz - Gabriel Mayer
Gabriel Mayer
Escritor e roteirista de Porto Alegre, apaixonado por horror e fantasia, tanto na literatura quanto no cinema. Formou-se em Produção Audiovisual na PUCRS e atualmente cursa Bacharelado em Letras na UFRGS. Trabalha com produção de conteúdo e desenvolvimento de projetos na Submerso Filmes, da qual é um dos fundadores.
É fascinado por monstros, lugares abandonados e magia. Suas grandes influências são Guillermo del Toro, Stephen King, Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, além de ser um grande fã de Zelda e Caverna do Dragão.






A maldição da Nova Cruz

       O homem começava a esboçar um leve sorriso no canto da boca.

       “Qual a razão de multidões se reunirem para, juntos, experimentarem os mesmos calafrios na espinha, o mesmo medo do desconhecido, a mesma atração pelo sobrenatural?”

       Ele ria baixo.

       — A razão não importa! — gritou, subitamente.

       A plateia de jovens delirou em aprovação. Alguns já começavam a pular. O homem começara a falar em um ritmo acelerado.

       “Por isso, esta é a noite em que celebraremos as vísceras arrancadas, as almas penadas, as entidades cósmicas, possessões, carnificinas, rituais satânicos, bruxas e criaturas.”

       O homem fez uma breve pausa, soltando uma gargalhada. Seus olhos arregalados brilhavam.

       “Esta noite celebraremos a pintura que o jato de sangue desenha ao cair da guilhotina.”

       Assim que ele terminou a frase, o palco submergiu novamente em escuridão.

       Ondas de arrepio, adrenalina e endorfina percorreram as veias da plateia. Uma música bestial tocava freneticamente.

       Em seguida, as luzes se acenderam no palco, onde a Quadrilha dos Mortos-Vivos tocava.

       — Podem chegar mais perto, eu não mordo tão forte assim – disse a guitarrista, no microfone, com um sorriso insano no rosto, mostrando seus longos caninos.

       A plateia pulava e gritava de maneira alucinada. A música da Quadrilha parecia ter um efeito sensorial. A guitarrista cantava, e os outros três integrantes da Quadrilha faziam backing vocals, em uníssono, criando uma harmonia sombria, entre um uivo e uma lamentação. E, acima de tudo isso, a gigantesca lua pálida pairava no céu, iluminando o palco com sua luz fantasmagórica.

       E assim a noite foi passando.

       Até que a roda punk começou. Caras e garotas, grudados no palco, começaram a se empurrar, socar e chutar com força, em meio a um frenesi sombrio, descarregando uma quantidade intensa de energia, sob efeito daquele som maldito, numa dança macabra. Os olhos das pessoas estavam completamente vazios, e seus corpos eram apenas receptáculos de todo aquele impulso primitivo.

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Gabriel Mayer
A maldição da Nova Cruz

       O homem começava a esboçar um leve sorriso no canto da boca.

       “Qual a razão de multidões se reunirem para, juntos, experimentarem os mesmos calafrios na espinha, o mesmo medo do desconhecido, a mesma atração pelo sobrenatural?”

       Ele ria baixo.

       — A razão não importa! — gritou, subitamente.

       A plateia de jovens delirou em aprovação. Alguns já começavam a pular. O homem começara a falar em um ritmo acelerado.

       “Por isso, esta é a noite em que celebraremos as vísceras arrancadas, as almas penadas, as entidades cósmicas, possessões, carnificinas, rituais satânicos, bruxas e criaturas.”

       O homem fez uma breve pausa, soltando uma gargalhada. Seus olhos arregalados brilhavam.

       “Esta noite celebraremos a pintura que o jato de sangue desenha ao cair da guilhotina.”

       Assim que ele terminou a frase, o palco submergiu novamente em escuridão.

       Ondas de arrepio, adrenalina e endorfina percorreram as veias da plateia. Uma música bestial tocava freneticamente.

       Em seguida, as luzes se acenderam no palco, onde a Quadrilha dos Mortos-Vivos tocava.

       — Podem chegar mais perto, eu não mordo tão forte assim – disse a guitarrista, no microfone, com um sorriso insano no rosto, mostrando seus longos caninos.

       A plateia pulava e gritava de maneira alucinada. A música da Quadrilha parecia ter um efeito sensorial. A guitarrista cantava, e os outros três integrantes da Quadrilha faziam backing vocals, em uníssono, criando uma harmonia sombria, entre um uivo e uma lamentação. E, acima de tudo isso, a gigantesca lua pálida pairava no céu, iluminando o palco com sua luz fantasmagórica.

       E assim a noite foi passando.

       Até que a roda punk começou. Caras e garotas, grudados no palco, começaram a se empurrar, socar e chutar com força, em meio a um frenesi sombrio, descarregando uma quantidade intensa de energia, sob efeito daquele som maldito, numa dança macabra. Os olhos das pessoas estavam completamente vazios, e seus corpos eram apenas receptáculos de todo aquele impulso primitivo.

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