Os sopros na janela - Gabriel Mayer
Gabriel Mayer
Escritor e roteirista de Porto Alegre, apaixonado por horror e fantasia, tanto na literatura quanto no cinema. Formou-se em Produção Audiovisual na PUCRS e atualmente cursa Bacharelado em Letras na UFRGS. Trabalha com produção de conteúdo e desenvolvimento de projetos na Submerso Filmes, da qual é um dos fundadores.
É fascinado por monstros, lugares abandonados e magia. Suas grandes influências são Guillermo del Toro, Stephen King, Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, além de ser um grande fã de Zelda e Caverna do Dragão.






Os sopros na janela

Por algum tempo tive em minha mente reverberações daquela cena, ocorrida no apartamento da esquina da Avenida José de Alencar em uma noite de ventania úmida e nebulosa.

A janela batia repetidamente, como se suas trancas estivessem com problema. Meu tio mal se mexia, apenas permanecia sentado em uma velha poltrona de couro rasgada, com um banquinho ao lado sustentando um cinzeiro com uma pilha enorme de cinzas.

Ao longo da tarde, em meio a numerosas prateleiras repletas de discos e VHS’s velhos e empoeirados, o escutei falar a respeito de bebida, de meditação e de como o novo apartamento lhe incomodava, principalmente por ser localizado ao lado do “Mãe de Deus”. “Terríveis energias.”, disse ele, apontando seu dedo amarelado para o hospital pela janela.

Ele adorava falar sobre magia, alienígenas e espíritos como se fossem a mesma coisa, chamando tudo de “Mística”.

Meu pai havia fechado com ele um acordo, e há algumas semanas havia começado terapia.

No entanto, mesmo que todos achassem seus discursos delirantes, eu ainda gostava de escutá-lo como quem escuta uma história, independente de sua veracidade.

Foi assim que ele me contou do velho com dois buracos nos olhos que nadava na sua piscina, e do livro que quando se lê ouvem-se gritos e as luzes se apagam sozinhas.

“Essa janela batendo, por exemplo. Você acha que isso é o vento?”

Nesse momento ele se levantou com dificuldade e caminhou em direção à janela, que ainda batia. Agora, parado, a encarava do outro lado da sala.

“São eles tentando entrar.”

Meu tio tinha terríveis coágulos nas pernas, que faziam com que sentisse dor intensa ao caminhar. Sua agilidade naquele momento me surpreendeu.

Subitamente, ele deu um berro bem alto. Tão súbito que pulei na cadeira.

A janela havia parado de bater.

Naquela noite, aquela janela não mais bateria uma vez sequer.

 

Gabriel Mayer
Os sopros na janela

Por algum tempo tive em minha mente reverberações daquela cena, ocorrida no apartamento da esquina da Avenida José de Alencar em uma noite de ventania úmida e nebulosa.

A janela batia repetidamente, como se suas trancas estivessem com problema. Meu tio mal se mexia, apenas permanecia sentado em uma velha poltrona de couro rasgada, com um banquinho ao lado sustentando um cinzeiro com uma pilha enorme de cinzas.

Ao longo da tarde, em meio a numerosas prateleiras repletas de discos e VHS’s velhos e empoeirados, o escutei falar a respeito de bebida, de meditação e de como o novo apartamento lhe incomodava, principalmente por ser localizado ao lado do “Mãe de Deus”. “Terríveis energias.”, disse ele, apontando seu dedo amarelado para o hospital pela janela.

Ele adorava falar sobre magia, alienígenas e espíritos como se fossem a mesma coisa, chamando tudo de “Mística”.

Meu pai havia fechado com ele um acordo, e há algumas semanas havia começado terapia.

No entanto, mesmo que todos achassem seus discursos delirantes, eu ainda gostava de escutá-lo como quem escuta uma história, independente de sua veracidade.

Foi assim que ele me contou do velho com dois buracos nos olhos que nadava na sua piscina, e do livro que quando se lê ouvem-se gritos e as luzes se apagam sozinhas.

“Essa janela batendo, por exemplo. Você acha que isso é o vento?”

Nesse momento ele se levantou com dificuldade e caminhou em direção à janela, que ainda batia. Agora, parado, a encarava do outro lado da sala.

“São eles tentando entrar.”

Meu tio tinha terríveis coágulos nas pernas, que faziam com que sentisse dor intensa ao caminhar. Sua agilidade naquele momento me surpreendeu.

Subitamente, ele deu um berro bem alto. Tão súbito que pulei na cadeira.

A janela havia parado de bater.

Naquela noite, aquela janela não mais bateria uma vez sequer.