Mil Anos de Escuridão - Gerson Machado De Avillez
Gerson Machado De Avillez
Vendedor de ideias e traficante de placebos. Fotógrafo e homem da prática de letras nas horas vagas, teólogo e pedagogo por formação, filósofo autodidata e por vocação. Descendente direto do Tenente-General Jorge Avillez, portador da Síndrome de Aspeger, trabalhou em eventos culturais nas Lonas Culturais no Rio (2002) onde produziu e fotografou, tendo fotos publicadas em jornais do Rio de Janeiro. Posteriormente trabalhou na Rede Globo como fiscal de figuração pela agência MMCDI especialmente na novela Avenida Brasil (2012). Membro votante do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Rio de Janeiro, membro número 1017 do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) e da Sal (Sociedade de Artes de São Gonçalo), tendo escrito artigos para a Revista Somnium, teve contos selecionados e publicados na Revista Litera, Primeiro Capítulo e é autor de destaque da Obvious Mag. Finalista de diversos concursos literários, tem 21 livros escritos e dois publicados, 'Adormecidos' (2011 - Ryoki Produções) e 'Síndrome Celestial' (2013 - Editora Multifoco).
E-mail: gersonavillez46@hotmail.com
Site: gersonavillez.jimdo.com





Mil Anos de Escuridão

“O delírio da razão era algo divino.”

Assim Falou Zaratustra — Nieztche — pág.43

 

        Todos os dias pela manhã uma prece era levantada ao nosso mítico e místico messias, o Füher Adolf Hitler, aquele o qual conduziu a raça ariana a seu apogeu e grandiosidade. Uma série de cânticos sobre o deus que levou a purificação da raça ariana é enaltecida a ele por ter levado ao Reich de mil anos. Vivemos no ano de 946 d.H da era ariana e sua Pax germânica. Me incomodo com as previsões do tempo sempre erradas, feitas um ano atrás passaram a ser induzidas por sofisticada ciência atmosférica a fim de que se concretize, mas o mundo está livre do estorvo das raças degeneradas que atrasavam a evolução ariana agora radiante sob o Standard do Reich de mil anos que chegam ao fim. Apesar disto confesso que sou curioso em saber como eram os afrodescendentes, judeus e os amaldiçoados ciganos, mas isso se dissipa sob os cânticos da SS que compilou de modo sincretizado o ocultismo de rivais em assimilação. Mas há algo errado com esse mundo um número crescente de recolhidos pelo governo se tem feito. Boatos sugerem uma nova e gradualmente crescente doença que nos aflige e coloca em risco a grandiosa raça ariana. Orientado inicialmente pela pueril curiosidade e busca por respostas não me contento com os filmes que desvelam os males das raças inferiores, há apenas alguns exemplares empalhados no museu da SS, um casal de negros e sua cultura degenerada, ao lado dos judeus, e seu estranho Deus e religião inferior. Mas ao contrário da ojeriza sentida pelos meus colegas ao contemplarem o estorno que eram ao mundo sinto essa perplexa curiosidade que me leva a questionamentos e dúvidas sobre a crueldade desses homens e mulheres.

        Visitei o enorme lugar onde séculos atrás transformavam os restos mortais de negros e judeus em fertilizante, uma enorme máquina de matar capaz de ceifar de maneira aprimorada 10.000 pessoas por dia. Por uma centelha de segundo então penso que aquilo seria uma crueldade que motivou os terroristas da resistência formado por latinos cuja existência se limitou as mais baixas camadas sociais, serviçais da elite ariana, uma mão de obra barata, quando não escrava sob a égide de um intenso controle, inclusive de natalidade.

        Volta e meia sou pego em devaneios pensando que assim como nós, arianos, temos nossos marginais e psicopatas condenados pelo juízo do martelo de Thor, talvez eles teriam apenas o mesmo entre os seus. Fora assim que soube de rumores de uma resistência forjada por dissidentes e renegados do III Reich. A princípio era apenas algo dito por alguém que conhecia alguém que conhecia outrem que em contato com um mensageiro transmitia essas lendas que eram uma pedra no sapato da sacra crença do Reich, algo que na surdina desafiava os estatutos e ciência ariana. Não poderia compartilhar dessas ideias e dúvidas, pois a incerteza não era preterida a pessoas com meu cargo, o de guardar códigos de acesso dos satélites de comunicação. Algo que perturbaria mesmo o Füher imortal.

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Gerson Machado De Avillez
Mil Anos de Escuridão

“O delírio da razão era algo divino.”

Assim Falou Zaratustra — Nieztche — pág.43

 

        Todos os dias pela manhã uma prece era levantada ao nosso mítico e místico messias, o Füher Adolf Hitler, aquele o qual conduziu a raça ariana a seu apogeu e grandiosidade. Uma série de cânticos sobre o deus que levou a purificação da raça ariana é enaltecida a ele por ter levado ao Reich de mil anos. Vivemos no ano de 946 d.H da era ariana e sua Pax germânica. Me incomodo com as previsões do tempo sempre erradas, feitas um ano atrás passaram a ser induzidas por sofisticada ciência atmosférica a fim de que se concretize, mas o mundo está livre do estorvo das raças degeneradas que atrasavam a evolução ariana agora radiante sob o Standard do Reich de mil anos que chegam ao fim. Apesar disto confesso que sou curioso em saber como eram os afrodescendentes, judeus e os amaldiçoados ciganos, mas isso se dissipa sob os cânticos da SS que compilou de modo sincretizado o ocultismo de rivais em assimilação. Mas há algo errado com esse mundo um número crescente de recolhidos pelo governo se tem feito. Boatos sugerem uma nova e gradualmente crescente doença que nos aflige e coloca em risco a grandiosa raça ariana. Orientado inicialmente pela pueril curiosidade e busca por respostas não me contento com os filmes que desvelam os males das raças inferiores, há apenas alguns exemplares empalhados no museu da SS, um casal de negros e sua cultura degenerada, ao lado dos judeus, e seu estranho Deus e religião inferior. Mas ao contrário da ojeriza sentida pelos meus colegas ao contemplarem o estorno que eram ao mundo sinto essa perplexa curiosidade que me leva a questionamentos e dúvidas sobre a crueldade desses homens e mulheres.

        Visitei o enorme lugar onde séculos atrás transformavam os restos mortais de negros e judeus em fertilizante, uma enorme máquina de matar capaz de ceifar de maneira aprimorada 10.000 pessoas por dia. Por uma centelha de segundo então penso que aquilo seria uma crueldade que motivou os terroristas da resistência formado por latinos cuja existência se limitou as mais baixas camadas sociais, serviçais da elite ariana, uma mão de obra barata, quando não escrava sob a égide de um intenso controle, inclusive de natalidade.

        Volta e meia sou pego em devaneios pensando que assim como nós, arianos, temos nossos marginais e psicopatas condenados pelo juízo do martelo de Thor, talvez eles teriam apenas o mesmo entre os seus. Fora assim que soube de rumores de uma resistência forjada por dissidentes e renegados do III Reich. A princípio era apenas algo dito por alguém que conhecia alguém que conhecia outrem que em contato com um mensageiro transmitia essas lendas que eram uma pedra no sapato da sacra crença do Reich, algo que na surdina desafiava os estatutos e ciência ariana. Não poderia compartilhar dessas ideias e dúvidas, pois a incerteza não era preterida a pessoas com meu cargo, o de guardar códigos de acesso dos satélites de comunicação. Algo que perturbaria mesmo o Füher imortal.

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