Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Glau Kemp
Escritora de terror, suspense e mais o que der vontade, que não tem medo do escuro, mas, às vezes, fecha os olhos quando vai ao banheiro de madrugada. Colunista nos sites Boca do inferno e Iluminerds e editora da revista Amazing. Gosta de se aventurar em outros gêneros, fazer roteiro de quadrinhos e participar de antologias. Publica livros e contos no Wattpad e na Amazon e ama o contato com leitores. Em resumo, só uma garota que sonha com bibliotecas.





Lugar Imundo

11: 37 – 05 de janeiro de 2016

Acordou abruptamente e sequer sentiu que dormira há um minuto. Ou fora há mais tempo? No segundo em que os olhos se abriram, a boca os acompanhou com horror, vertendo ar quente junto ao grito seco e solitário. Uma prova de que ainda estava viva. O medo deveria acelerar o coração, mas esse estágio passara há algum tempo. O frio também se foi, deixando a dor queimando a pele. Morrer congelada dentro de um freezer demorava mais do que imaginaria. Perdeu a consciência algumas vezes e nesse último apagão a cabeça pendeu para o lado colando a face na lateral congelada. Já tivera a dolorosa experiência de grudar o calcanhar descalço no fundo do freezer. Uma porção do tamanho de uma moeda ficou presa no gelo, mas o ferimento pouco sangrou. Pequenos pontos vermelhos brotaram na pele rosada, dando cálidas fisgadas e dormência gélida. Tomou a difícil decisão de puxar a cabeça para a direita e perder parte da bochecha. Usando toda força que ainda dispunha executou o movimento. Se alguém pudesse assistir a cena desesperadora, veria com pena e repulsa a pele soltar lentamente, porque o solavanco inicial não foi forte o suficiente para desgrudar a face com a eficiência de quem puxa um curativo. Ao contrário, ela foi obrigada a puxar quatro vezes, e a pele foi soltando devagar feito chiclete quente no asfalto. Gritou mais uma vez segurando o rosto, os olhos foram fechando devagar e a cabeça caindo para trás. A boca aberta ainda soltava ar aquecido. Encolhida abraçando as pernas, a menina adormeceu, mas não por sono. O oxigênio faltava e o corpo humano muito sábio dedicava-se a mantê-la viva pelo maior tempo possível. Mas se ninguém abrisse aquela porta morreria sem ar em um freezer imundo, antes de seu corpo congelar.

Nos fundos da loja com saída para outro quarteirão, Joana segurava o endereço nas mãos e tocava a campainha. Era a segunda pessoa no dia a procurar uma vaga de emprego naquele endereço. Frustrada por não ter conseguido ir bem à entrevista no shopping, recebeu agradecida a sugestão de uma senhora no ponto de ônibus. Chegou ao local com pouca informação e muita necessidade de conseguir um novo emprego. O portão de ferro abriu. A mulher que saiu dele não aparentava saber o significado da palavra simpatia e seus lábios nunca deveriam ter sorrido durante a vida. Ela olhou Joana, que tinha estampado no rosto um sorriso mecânico, de alto a baixo.

— Bom dia. Estou aqui pelo anúncio de emprego — disse Joana, mas a mulher não respondeu, fixando o olhar opaco e mal-educado nos olhos dela. — Me perdoe, uma senhora me disse que estavam precisando de pessoas na fábrica.

— Sim, sim. Pode entrar — respondeu a mulher mostrando os dentes amarelados, os incisivos centrais avantajados e tortos ligavam-se aos lábios por um fio grosso de saliva. — A fábrica sempre precisa de gente nova. Senta ali que eu já volto. — Apontou um pequeno banco de madeira, enegrecido pelo tempo e com um pé menor que os outros. A mão da mulher tremia exibindo unhas curtas com esmaltes escuros e gastos. Joana quase caiu ao sentar sendo surpreendida pelo desnível. Desconcertada, observou o ambiente com pisos e azulejos brancos até o teto. Um balcão a separava de uma fileira grande de geladeiras e freezers. Só nesse momento começou a se perguntar que produtos seriam fabricados ali.

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Glau Kemp
Lugar Imundo

11: 37 – 05 de janeiro de 2016

Acordou abruptamente e sequer sentiu que dormira há um minuto. Ou fora há mais tempo? No segundo em que os olhos se abriram, a boca os acompanhou com horror, vertendo ar quente junto ao grito seco e solitário. Uma prova de que ainda estava viva. O medo deveria acelerar o coração, mas esse estágio passara há algum tempo. O frio também se foi, deixando a dor queimando a pele. Morrer congelada dentro de um freezer demorava mais do que imaginaria. Perdeu a consciência algumas vezes e nesse último apagão a cabeça pendeu para o lado colando a face na lateral congelada. Já tivera a dolorosa experiência de grudar o calcanhar descalço no fundo do freezer. Uma porção do tamanho de uma moeda ficou presa no gelo, mas o ferimento pouco sangrou. Pequenos pontos vermelhos brotaram na pele rosada, dando cálidas fisgadas e dormência gélida. Tomou a difícil decisão de puxar a cabeça para a direita e perder parte da bochecha. Usando toda força que ainda dispunha executou o movimento. Se alguém pudesse assistir a cena desesperadora, veria com pena e repulsa a pele soltar lentamente, porque o solavanco inicial não foi forte o suficiente para desgrudar a face com a eficiência de quem puxa um curativo. Ao contrário, ela foi obrigada a puxar quatro vezes, e a pele foi soltando devagar feito chiclete quente no asfalto. Gritou mais uma vez segurando o rosto, os olhos foram fechando devagar e a cabeça caindo para trás. A boca aberta ainda soltava ar aquecido. Encolhida abraçando as pernas, a menina adormeceu, mas não por sono. O oxigênio faltava e o corpo humano muito sábio dedicava-se a mantê-la viva pelo maior tempo possível. Mas se ninguém abrisse aquela porta morreria sem ar em um freezer imundo, antes de seu corpo congelar.

Nos fundos da loja com saída para outro quarteirão, Joana segurava o endereço nas mãos e tocava a campainha. Era a segunda pessoa no dia a procurar uma vaga de emprego naquele endereço. Frustrada por não ter conseguido ir bem à entrevista no shopping, recebeu agradecida a sugestão de uma senhora no ponto de ônibus. Chegou ao local com pouca informação e muita necessidade de conseguir um novo emprego. O portão de ferro abriu. A mulher que saiu dele não aparentava saber o significado da palavra simpatia e seus lábios nunca deveriam ter sorrido durante a vida. Ela olhou Joana, que tinha estampado no rosto um sorriso mecânico, de alto a baixo.

— Bom dia. Estou aqui pelo anúncio de emprego — disse Joana, mas a mulher não respondeu, fixando o olhar opaco e mal-educado nos olhos dela. — Me perdoe, uma senhora me disse que estavam precisando de pessoas na fábrica.

— Sim, sim. Pode entrar — respondeu a mulher mostrando os dentes amarelados, os incisivos centrais avantajados e tortos ligavam-se aos lábios por um fio grosso de saliva. — A fábrica sempre precisa de gente nova. Senta ali que eu já volto. — Apontou um pequeno banco de madeira, enegrecido pelo tempo e com um pé menor que os outros. A mão da mulher tremia exibindo unhas curtas com esmaltes escuros e gastos. Joana quase caiu ao sentar sendo surpreendida pelo desnível. Desconcertada, observou o ambiente com pisos e azulejos brancos até o teto. Um balcão a separava de uma fileira grande de geladeiras e freezers. Só nesse momento começou a se perguntar que produtos seriam fabricados ali.

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