Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Glau Kemp
Escritora de terror, suspense e mais o que der vontade, que não tem medo do escuro, mas, às vezes, fecha os olhos quando vai ao banheiro de madrugada. Colunista nos sites Boca do inferno e Iluminerds e editora da revista Amazing. Gosta de se aventurar em outros gêneros, fazer roteiro de quadrinhos e participar de antologias. Publica livros e contos no Wattpad e na Amazon e ama o contato com leitores. Em resumo, só uma garota que sonha com bibliotecas.





Veneno em brasas

I – Morte

         A dor no corpo é grande, as pernas já estão dormentes e as pálpebras forçam o fechamento a todo instante, Carlos precisa dormir. Mas se ele dormir a morte vem e toda vez que demora muito entre um piscar e outro dos olhos, consegue enxergar a silhueta dela. Uma criatura escura e de alguma forma ele sabe que a morte é feita de medo, consegue ouvir o arrastar das cobras que compõe o corpo dela e sente o cheiro de fogo, de carne humana queimada. Esses são os medos de Carlos e a morte é feita deles. 

         Em pé encostado no azulejo frio do banheiro, Carlos segura a mangueira e aciona a água quando sente ser incapaz de se manter acordado. É o terceiro dia de luta, agora ele joga água gelada no rosto, suas pernas fraquejam, é um homem de corpo forte, mas a mente não acompanha a rigidez dos músculos. Vai sucumbir. Os olhos fundos no rosto pontilhado de manchas do sol observa a garrafa de café em cima do vaso sanitário. Meio quilo de pó não é suficiente.

         Carlos cai no chão, o corpo tremendo. Seria de frio ou de pânico? São duas horas da madrugada, ele olha para o relógio barato preso ao pulso, a pulseira de plástico acumula sujeira embaixo e uma ou duas escamas de peixe podem ser encontradas. Um pescador nunca deixa o mar. Pega a garrafa de café e vira em um gole profundo, mas o líquido espesso desliza garganta á baixo feito água. A cafeína parou de funcionar. Falta tão pouco.

         O corpo rejeita o líquido que sai furioso em um jato quente e escuro de vômito, que se espalha no piso levemente encardido pelo tempo. Se Carlos conseguir ficar acordado na próxima hora ele vence a morte. Ganha o presente do diabo, mas a mente já não funciona direito, ele ouve o chocalho da cobra, a mesma serpente que entrou em seus lençóis quando ainda era uma criança. Ele não precisa fechar os olhos para reviver a cena.

         Quase desfalecendo, Carlos revive a cena de olhos abertos, ainda é um garotinho de cinco anos, filho de um respeitado pescador de Ponta Negra, um homem de posses e conhecimento com pessoas importantes de Maricá. É noite no antigo casarão e da mata que margeia a praia os animais saem em busca de calor. Um deles, a serpente que o garotinho tanto teme entra no quarto de Carlos, sobe em sua cama e arranha a pele infantil com suas escamas. Ele acorda com o som do chocalho, mas é tarde, às pressas já estão perfurando sua pele e destilando o veneno.

         Carlos pisca rapidamente e olha para a mão esquerda, às vezes acha que tudo não passou de um pesado, entretanto lhe faltam dois dedos apodrecidos pelo veneno. Ele chora, só passou cinco minutos, não vai conseguir ficar acordado. Pisca longamente e o som do chocalho aumenta e dessa vez algo bate no basculante do banheiro. É a serpente. Pensa em tomar mais café e o pensamento provoca mais um jato de vômito que escorre pelo peito lavando seu corpo com o líquido fedorento.

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Glau Kemp
Veneno em brasas

I – Morte

         A dor no corpo é grande, as pernas já estão dormentes e as pálpebras forçam o fechamento a todo instante, Carlos precisa dormir. Mas se ele dormir a morte vem e toda vez que demora muito entre um piscar e outro dos olhos, consegue enxergar a silhueta dela. Uma criatura escura e de alguma forma ele sabe que a morte é feita de medo, consegue ouvir o arrastar das cobras que compõe o corpo dela e sente o cheiro de fogo, de carne humana queimada. Esses são os medos de Carlos e a morte é feita deles. 

         Em pé encostado no azulejo frio do banheiro, Carlos segura a mangueira e aciona a água quando sente ser incapaz de se manter acordado. É o terceiro dia de luta, agora ele joga água gelada no rosto, suas pernas fraquejam, é um homem de corpo forte, mas a mente não acompanha a rigidez dos músculos. Vai sucumbir. Os olhos fundos no rosto pontilhado de manchas do sol observa a garrafa de café em cima do vaso sanitário. Meio quilo de pó não é suficiente.

         Carlos cai no chão, o corpo tremendo. Seria de frio ou de pânico? São duas horas da madrugada, ele olha para o relógio barato preso ao pulso, a pulseira de plástico acumula sujeira embaixo e uma ou duas escamas de peixe podem ser encontradas. Um pescador nunca deixa o mar. Pega a garrafa de café e vira em um gole profundo, mas o líquido espesso desliza garganta á baixo feito água. A cafeína parou de funcionar. Falta tão pouco.

         O corpo rejeita o líquido que sai furioso em um jato quente e escuro de vômito, que se espalha no piso levemente encardido pelo tempo. Se Carlos conseguir ficar acordado na próxima hora ele vence a morte. Ganha o presente do diabo, mas a mente já não funciona direito, ele ouve o chocalho da cobra, a mesma serpente que entrou em seus lençóis quando ainda era uma criança. Ele não precisa fechar os olhos para reviver a cena.

         Quase desfalecendo, Carlos revive a cena de olhos abertos, ainda é um garotinho de cinco anos, filho de um respeitado pescador de Ponta Negra, um homem de posses e conhecimento com pessoas importantes de Maricá. É noite no antigo casarão e da mata que margeia a praia os animais saem em busca de calor. Um deles, a serpente que o garotinho tanto teme entra no quarto de Carlos, sobe em sua cama e arranha a pele infantil com suas escamas. Ele acorda com o som do chocalho, mas é tarde, às pressas já estão perfurando sua pele e destilando o veneno.

         Carlos pisca rapidamente e olha para a mão esquerda, às vezes acha que tudo não passou de um pesado, entretanto lhe faltam dois dedos apodrecidos pelo veneno. Ele chora, só passou cinco minutos, não vai conseguir ficar acordado. Pisca longamente e o som do chocalho aumenta e dessa vez algo bate no basculante do banheiro. É a serpente. Pensa em tomar mais café e o pensamento provoca mais um jato de vômito que escorre pelo peito lavando seu corpo com o líquido fedorento.

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