A coroa - Gustavo Lopes
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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A coroa

Apesar de a cidade estar nitidamente em condições precárias, os portões da enorme igreja eram de madeira nobre e maciça, mas não resistiram aos explosivos da equipe Alfa. Entre a equipe Alfa e Omega, estavam Julia e o padre, ambos armados com fuzis. Assim que avançaram, dois homens de Julia caíram, com flechas atravessadas nas juntas de suas roupas. Doze fiéis armados com arcos e flechas feitos de ossos surgiram da escuridão e gritavam enquanto tentaram resistir, porém, logo estavam ao chão. A investida das forças especiais prosseguiu por meia hora de tumulto por entre os andares superiores da construção, entretanto, nem sequer uma mulher foi encontrada. Apenas árvores, raízes e “um bando de malucos” em frenesi.

– A fundação desta igreja é sólida, apesar da terra que a cobre. – Questionou Julia.

– Comandante, temos razões para acreditar que há uma construção debaixo desta fundação. – Respondeu um dos homens.

– Algumas árvores parecem estar vindo do interior do solo – acrescentou outro, indicando uma árvore cujos galhos estavam no nível do solo.

A entrada para o andar inferior estava localizada em um fundo falso de uma porta de armário, nos fundos do altar da igreja. Um cheiro pútrido escapou para a superfície assim que o pedaço de madeira que a prendia foi removido. A equipe Alfa foi a primeira a descer. Dois homens voltaram correndo e tiraram seus capacetes, vomitando. Os demais prosseguiram. O corredor de acesso à uma porta trancada tinha suas paredes de terra forradas com corpos em decomposição, todos de mulheres. Os mais conservados estavam mais próximos da porta. O rosto de Katja veio a mente de Julia assim que ela enxergou dezenas de outras mulheres com raízes em formato de coroa saindo de seus olhos. Ela avançou e tomou a dianteira da equipe Alfa, num ímpeto de puro ódio.
Ao arrebentar a porta, como suspeitavam; estavam reunidos dezenas de homens vestidos com adornos de ouro e diamantes, ao redor de centenas de mulheres amarradas. Muitos dos presentes eram nomes importantes da política, da mídia, empresários bem sucedidos, chefes de estado e milionários famosos. A sala, diferente do restante das construções da área, incluindo a pomposa igreja, tinha o revestimento de metal, com isolamento acústico. Aos fundos, algumas pequenas salas, nas quais algumas mulheres ainda estavam respirando enquanto seu sangue era drenado e seus órgãos, um a um, removidos.
O dia não podia ser mais propício: no ápice da Lua cheia, os líderes da seita se reuniam para escolher a nova “rainha”, conforme o padre Renkse suspeitava. Para tanto, nove mulheres eram selecionadas e se digladiavam no centro de uma arena, dentro de um fosso, ao redor dos olhos dos homens. A rainha anterior era desafiada pela vencedora. Somente uma podia sair consciente da batalha, e somente uma rainha podia emergir ao fim. As demais mulheres, não selecionadas, observavam o combate enquanto proferiam um cântico em algum idioma irreconhecível, se é que era algum idioma.

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Gustavo Lopes
A coroa

Apesar de a cidade estar nitidamente em condições precárias, os portões da enorme igreja eram de madeira nobre e maciça, mas não resistiram aos explosivos da equipe Alfa. Entre a equipe Alfa e Omega, estavam Julia e o padre, ambos armados com fuzis. Assim que avançaram, dois homens de Julia caíram, com flechas atravessadas nas juntas de suas roupas. Doze fiéis armados com arcos e flechas feitos de ossos surgiram da escuridão e gritavam enquanto tentaram resistir, porém, logo estavam ao chão. A investida das forças especiais prosseguiu por meia hora de tumulto por entre os andares superiores da construção, entretanto, nem sequer uma mulher foi encontrada. Apenas árvores, raízes e “um bando de malucos” em frenesi.

– A fundação desta igreja é sólida, apesar da terra que a cobre. – Questionou Julia.

– Comandante, temos razões para acreditar que há uma construção debaixo desta fundação. – Respondeu um dos homens.

– Algumas árvores parecem estar vindo do interior do solo – acrescentou outro, indicando uma árvore cujos galhos estavam no nível do solo.

A entrada para o andar inferior estava localizada em um fundo falso de uma porta de armário, nos fundos do altar da igreja. Um cheiro pútrido escapou para a superfície assim que o pedaço de madeira que a prendia foi removido. A equipe Alfa foi a primeira a descer. Dois homens voltaram correndo e tiraram seus capacetes, vomitando. Os demais prosseguiram. O corredor de acesso à uma porta trancada tinha suas paredes de terra forradas com corpos em decomposição, todos de mulheres. Os mais conservados estavam mais próximos da porta. O rosto de Katja veio a mente de Julia assim que ela enxergou dezenas de outras mulheres com raízes em formato de coroa saindo de seus olhos. Ela avançou e tomou a dianteira da equipe Alfa, num ímpeto de puro ódio.
Ao arrebentar a porta, como suspeitavam; estavam reunidos dezenas de homens vestidos com adornos de ouro e diamantes, ao redor de centenas de mulheres amarradas. Muitos dos presentes eram nomes importantes da política, da mídia, empresários bem sucedidos, chefes de estado e milionários famosos. A sala, diferente do restante das construções da área, incluindo a pomposa igreja, tinha o revestimento de metal, com isolamento acústico. Aos fundos, algumas pequenas salas, nas quais algumas mulheres ainda estavam respirando enquanto seu sangue era drenado e seus órgãos, um a um, removidos.
O dia não podia ser mais propício: no ápice da Lua cheia, os líderes da seita se reuniam para escolher a nova “rainha”, conforme o padre Renkse suspeitava. Para tanto, nove mulheres eram selecionadas e se digladiavam no centro de uma arena, dentro de um fosso, ao redor dos olhos dos homens. A rainha anterior era desafiada pela vencedora. Somente uma podia sair consciente da batalha, e somente uma rainha podia emergir ao fim. As demais mulheres, não selecionadas, observavam o combate enquanto proferiam um cântico em algum idioma irreconhecível, se é que era algum idioma.

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