Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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E lá está ele

E lá está ele, me observando, pousado nos fios. Não é uma pomba, nem uma andorinha, não era um bem-te-vi, ou um pequeno passarinho de bico laranja e de barriga branca que meu avô chamava de “bobo”, mas eu não me lembro do nome. Era ele, com suas penas cor-de-piche e seu olhar de seta, o corvo que me observa.

Percebi sua presença em minha vida num dia de inverno. Preparava uma macarronada com bastante molho de tomate e queijo para minha esposa em nosso aniversário de casamento, quando reparei que ele apontava seu bico para mim, de cima do fio. Era o único pássaro ali pousado. Lembro-me desse dia mais pelo frio de bater os dentes e ele estar ali, sozinho, do que pelo seu olhar. E também porque queimei a mão na panela do molho, enquanto o observava, uma queimadura superficial do tamanho de uma moeda que se tornou uma bolha redonda e macia. Mas foi somente depois do verdadeiro acidente que passei a notar sua presença.

Nos encontramos em outras ocasiões nada oportunas. Em um certo dia de primavera uma companheira de trabalho, Alice, estava na janela do escritório, com um olhar curioso. Ela mirava alguma coisa há algum tempo, com um sorriso de canto de boca, quando decidi me levantar e acompanhá-la.

— Tá fazendo o que aí, Alice? — Perguntei. — Viu passarinho verde?

— Na verdade, preto. — Ela não se virou. Apontou com o indicador para um ponto no alto.

Logo entendi o motivo de sua curiosidade. Em frente ao prédio do escritório havia um parque, e na primavera, os fios se tornavam “varais” de diferentes pássaros. O canto deles era agradável, mas confesso que atrapalhava um pouco quando estava ao telefone, dependendo da intensidade e da quantidade de aves. Mas naquele dia, Alice sorria enquanto encarava um único corvo em silêncio.

— Acho que ele notou que estamos aqui. Olha só.

E lá estava ele, como se olhasse diretamente nos meus olhos. Nunca tive a oportunidade de perguntar para Alice se ela sentiu a mesma coisa. Ficamos algum tempo diante da janela, observando aquele corvo solitário, e depois voltamos à rotina. No dia seguinte ela não foi trabalhar, e três dias mais tarde foi encontrada em seu apartamento pela irmã, que cansou de ligar e resolveu aparecer sem avisar. Alice sorria, deitada na cama, sem vida.

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Gustavo Lopes
E lá está ele

E lá está ele, me observando, pousado nos fios. Não é uma pomba, nem uma andorinha, não era um bem-te-vi, ou um pequeno passarinho de bico laranja e de barriga branca que meu avô chamava de “bobo”, mas eu não me lembro do nome. Era ele, com suas penas cor-de-piche e seu olhar de seta, o corvo que me observa.

Percebi sua presença em minha vida num dia de inverno. Preparava uma macarronada com bastante molho de tomate e queijo para minha esposa em nosso aniversário de casamento, quando reparei que ele apontava seu bico para mim, de cima do fio. Era o único pássaro ali pousado. Lembro-me desse dia mais pelo frio de bater os dentes e ele estar ali, sozinho, do que pelo seu olhar. E também porque queimei a mão na panela do molho, enquanto o observava, uma queimadura superficial do tamanho de uma moeda que se tornou uma bolha redonda e macia. Mas foi somente depois do verdadeiro acidente que passei a notar sua presença.

Nos encontramos em outras ocasiões nada oportunas. Em um certo dia de primavera uma companheira de trabalho, Alice, estava na janela do escritório, com um olhar curioso. Ela mirava alguma coisa há algum tempo, com um sorriso de canto de boca, quando decidi me levantar e acompanhá-la.

— Tá fazendo o que aí, Alice? — Perguntei. — Viu passarinho verde?

— Na verdade, preto. — Ela não se virou. Apontou com o indicador para um ponto no alto.

Logo entendi o motivo de sua curiosidade. Em frente ao prédio do escritório havia um parque, e na primavera, os fios se tornavam “varais” de diferentes pássaros. O canto deles era agradável, mas confesso que atrapalhava um pouco quando estava ao telefone, dependendo da intensidade e da quantidade de aves. Mas naquele dia, Alice sorria enquanto encarava um único corvo em silêncio.

— Acho que ele notou que estamos aqui. Olha só.

E lá estava ele, como se olhasse diretamente nos meus olhos. Nunca tive a oportunidade de perguntar para Alice se ela sentiu a mesma coisa. Ficamos algum tempo diante da janela, observando aquele corvo solitário, e depois voltamos à rotina. No dia seguinte ela não foi trabalhar, e três dias mais tarde foi encontrada em seu apartamento pela irmã, que cansou de ligar e resolveu aparecer sem avisar. Alice sorria, deitada na cama, sem vida.

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