Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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Paralisia compulsiva

15 de agosto de 1999

Abri os olhos. Acordei diante de meu corpo, que repousava na cama como um cadáver. Não respirava, não mexia. Era o meu rosto cheio de espinhas, a barriga saliente, o pijama listrado, as unhas comidas. O mundo estava de cabeça para baixo, e eu flutuava a poucos centímetros daquele que, num primeiro momento, se parecia comigo. Antes, sonhei que comia um pedaço de costela, num restaurante chique no topo de um prédio, acompanhado por alguém que não conheço, homem ou mulher, não sei dizer. Falamos sobre filmes de terror. Tomei um gole de vinho. Acordei. E o sonho passou. O corpo era real.

O vento uivava pelas frestas das janelas de metal, agitando uma contra a outra, barulho irritante, lembrete de que devia ter trocado a merda da borracha da vedação há meses. Batia e batia. Às vezes eu escorava com um pedaço de papel qualquer dobrado em quatro, mas por conta da abertura entrava um feixe de luz que caia sobre meu rosto, como naquela manhã.

Uma força vinda de lugar nenhum travou meu globo ocular e minhas pálpebras alguns segundos depois que me vi ali, forçando-me a encarar meu próprio rosto, fora de mim. Meus pensamentos fugiam. Tentei mexer o braço direito, qualquer perna. Paralisados. Pensei em gritar. Lábios paralisados. Queria voltar ao meu corpo. Paralisado. Só conseguia observar. O feixe de luz permaneceu na mesma posição, assim como eu, por horas, um momento como aqueles cinco minutos antes de sair do trabalho. Você quer desligar o computador, pegar a mala e correr, mas o relógio não facilita. “Morri”, pensei. Imaginava que a morte era um único instante que se estendia para sempre, o ponto final eterno, como aquele momento.

Então, pisquei.

Respirei fundo. A cama ensopada de suor, a garganta seca. Pulei para fora e corri. Bebi água da pia do banheiro mesmo, até me saciar. Sentei na privada, tremendo, pensando nas últimas horas. O despertador apitou longe dali, mas eu fiquei, tentando entender o que aconteceu. Aquela foi a primeira vez.

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Gustavo Lopes
Paralisia compulsiva

15 de agosto de 1999

Abri os olhos. Acordei diante de meu corpo, que repousava na cama como um cadáver. Não respirava, não mexia. Era o meu rosto cheio de espinhas, a barriga saliente, o pijama listrado, as unhas comidas. O mundo estava de cabeça para baixo, e eu flutuava a poucos centímetros daquele que, num primeiro momento, se parecia comigo. Antes, sonhei que comia um pedaço de costela, num restaurante chique no topo de um prédio, acompanhado por alguém que não conheço, homem ou mulher, não sei dizer. Falamos sobre filmes de terror. Tomei um gole de vinho. Acordei. E o sonho passou. O corpo era real.

O vento uivava pelas frestas das janelas de metal, agitando uma contra a outra, barulho irritante, lembrete de que devia ter trocado a merda da borracha da vedação há meses. Batia e batia. Às vezes eu escorava com um pedaço de papel qualquer dobrado em quatro, mas por conta da abertura entrava um feixe de luz que caia sobre meu rosto, como naquela manhã.

Uma força vinda de lugar nenhum travou meu globo ocular e minhas pálpebras alguns segundos depois que me vi ali, forçando-me a encarar meu próprio rosto, fora de mim. Meus pensamentos fugiam. Tentei mexer o braço direito, qualquer perna. Paralisados. Pensei em gritar. Lábios paralisados. Queria voltar ao meu corpo. Paralisado. Só conseguia observar. O feixe de luz permaneceu na mesma posição, assim como eu, por horas, um momento como aqueles cinco minutos antes de sair do trabalho. Você quer desligar o computador, pegar a mala e correr, mas o relógio não facilita. “Morri”, pensei. Imaginava que a morte era um único instante que se estendia para sempre, o ponto final eterno, como aquele momento.

Então, pisquei.

Respirei fundo. A cama ensopada de suor, a garganta seca. Pulei para fora e corri. Bebi água da pia do banheiro mesmo, até me saciar. Sentei na privada, tremendo, pensando nas últimas horas. O despertador apitou longe dali, mas eu fiquei, tentando entender o que aconteceu. Aquela foi a primeira vez.

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