Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
Facebook: facebook.com/blogdogusta





Paralisia compulsiva

***

01 de janeiro de 2000

As pessoas tagarelavam sobre o bug do milênio naquela noite. Ninguém tinha noção do que poderia acontecer e cogitavam que as luzes se apagariam para sempre, perderiam suas contas bancárias e o inferno na Terra se estabeleceria na calada da madrugada. Multidões se aglomeravam na Praia Grande, vestidos de branco, pulando onda, abrindo champanhes, e eu me cagando por conta dessa merda de bug do milênio. Olhei no relógio, meia-noite, meia-noite e um, meia-noite e dois. A brisa úmida e fria se misturava com o suor que escorria de minhas sobrancelhas, aquele gosto salgado, o sapato cheio de areia. Queria sair dali e ligar a televisão mais próxima, acompanhar as notícias, descobrir se algum lugar do mundo já se afundava em chamas.

Quem dirigia era minha namorada. Eu não tinha idade para tirar carta, nem dinheiro para arrumar o walkman que caiu de ponta na guia e espedaçou. E ela não parava de falar. Seis amigas de infância, três homens deslocados, centenas de assuntos. A voz dela passou de um doce canto para um zunido que pinicava lá dentro da minha orelha. Já adianto que ela me enrolou e não rolou nada. Eu fiquei de pé a noite toda, naquele mormaço, ouvindo conversas sobre pessoas que nunca conheci e nem tive vontade de conhecer.

Voltamos para o apartamento às cinco da manhã. Fechei as cortinas de pano e deitei no sofá da sala, para dar lugar às dondocas. Trouxa. Os outros dois caras desceram para o bar. Eu só queria dormir. Em alguns minutos meu corpo suado grudou no couro e os mosquitos invadiram o recinto, lutando por algumas gotas de sangue. Recusei-me a ligar aquela merda azul que fazia um barulho chiado e cada inseto que tocava estalava como pipoca. Nem fodendo. E o repelente acabou. Algum filho da puta deixou o frasco vazio em cima da televisão. Fechei os olhos e talvez cochilei uma ou duas vezes.

Despertei com um soco. A sombra com um par de chifres negros riu e me deu outro murro no rosto. Tentei mexer a cabeça e nada aconteceu. Senti o gosto úmido e ferroso na boca. Outro soco. Outro. Outro. Só na cara. A coisa gargalhava. Os joelhos dela pressionavam meu estômago, deixando pouco espaço para o ar entrar. A mão direita no meu peito, a outra balançava como um pêndulo. Soco. Soco. Soco. Era como se algo nublasse minha visão. Só conseguia vislumbrar a silhueta cornuda e um corpo esguio, negro como a escuridão. Vi um seio quando me fixei em observar o braço que ia e vinha. Acho que vi algo longo e fino, balançando na traseira, mas o intervalo entre um soco e outro — e meu rosto virando a cada pancada — não durava mais do que alguns segundos. Posso ter me enganado.

Páginas: 1 2 3 4 5 6

Gustavo Lopes
Paralisia compulsiva

***

01 de janeiro de 2000

As pessoas tagarelavam sobre o bug do milênio naquela noite. Ninguém tinha noção do que poderia acontecer e cogitavam que as luzes se apagariam para sempre, perderiam suas contas bancárias e o inferno na Terra se estabeleceria na calada da madrugada. Multidões se aglomeravam na Praia Grande, vestidos de branco, pulando onda, abrindo champanhes, e eu me cagando por conta dessa merda de bug do milênio. Olhei no relógio, meia-noite, meia-noite e um, meia-noite e dois. A brisa úmida e fria se misturava com o suor que escorria de minhas sobrancelhas, aquele gosto salgado, o sapato cheio de areia. Queria sair dali e ligar a televisão mais próxima, acompanhar as notícias, descobrir se algum lugar do mundo já se afundava em chamas.

Quem dirigia era minha namorada. Eu não tinha idade para tirar carta, nem dinheiro para arrumar o walkman que caiu de ponta na guia e espedaçou. E ela não parava de falar. Seis amigas de infância, três homens deslocados, centenas de assuntos. A voz dela passou de um doce canto para um zunido que pinicava lá dentro da minha orelha. Já adianto que ela me enrolou e não rolou nada. Eu fiquei de pé a noite toda, naquele mormaço, ouvindo conversas sobre pessoas que nunca conheci e nem tive vontade de conhecer.

Voltamos para o apartamento às cinco da manhã. Fechei as cortinas de pano e deitei no sofá da sala, para dar lugar às dondocas. Trouxa. Os outros dois caras desceram para o bar. Eu só queria dormir. Em alguns minutos meu corpo suado grudou no couro e os mosquitos invadiram o recinto, lutando por algumas gotas de sangue. Recusei-me a ligar aquela merda azul que fazia um barulho chiado e cada inseto que tocava estalava como pipoca. Nem fodendo. E o repelente acabou. Algum filho da puta deixou o frasco vazio em cima da televisão. Fechei os olhos e talvez cochilei uma ou duas vezes.

Despertei com um soco. A sombra com um par de chifres negros riu e me deu outro murro no rosto. Tentei mexer a cabeça e nada aconteceu. Senti o gosto úmido e ferroso na boca. Outro soco. Outro. Outro. Só na cara. A coisa gargalhava. Os joelhos dela pressionavam meu estômago, deixando pouco espaço para o ar entrar. A mão direita no meu peito, a outra balançava como um pêndulo. Soco. Soco. Soco. Era como se algo nublasse minha visão. Só conseguia vislumbrar a silhueta cornuda e um corpo esguio, negro como a escuridão. Vi um seio quando me fixei em observar o braço que ia e vinha. Acho que vi algo longo e fino, balançando na traseira, mas o intervalo entre um soco e outro — e meu rosto virando a cada pancada — não durava mais do que alguns segundos. Posso ter me enganado.

Páginas: 1 2 3 4 5 6