Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
Facebook: facebook.com/blogdogusta





Paralisia compulsiva

A terceira mão da coisa surgiu do meio do peito e puxou meus cabelos, dobrando meu pescoço para trás apoiado na curva do encosto do sofá. Só conseguia enxergar o ventilador de teto, que girava devagar, bem devagar. Cada volta durava um minuto ou mais. As pás de madeira rangiam, o som era suportável. O mormaço me incomodava. O sangue misturado com suor fluía da minha boca para dentro das narinas, e sem controle eu o respirava num fluxo contínuo. Meus pulmões se enchiam com o líquido espesso e o ar não tinha mais por onde passar. Como das outras vezes, meu corpo travou e eu era apenas um espectador aguardando o fim daquele incomodo, mas a coisa negra era novidade, e o rosto martelado como um prego na parede, e o sangue escoando de um buraco a outro, e a gargalhada incessante que agulhava meus ouvidos muito mais do que a voz da namorada que roncava no quarto ao lado.

Se na primeira vez eu imaginei que a morte era um momento que se estendia para sempre, quando a coisa apareceu eu tive certeza que o inferno enviara um emissário para me buscar, mas não sem antes arrancar o meu couro sem chance de revidar. Girando e girando. As pás de madeira giravam. E a visão giratória manchada de vermelho. O sangue transbordava das narinas. A visão turva. A gargalhada abafada.

— Acho que ele tá tendo um piripaque… — A voz zunida da minha namorada quebrou o encanto macabro da coisa. Desgrudei-me do couro, sentei e fiquei ali parado um tempo. Apalpei o rosto, olhei as palmas da mão, brancas. Mas a cara toda pulsava e queimava. Fiquei o dia todo pensando na coisa.

 

***

Trechos de 25 de agosto de 2005

(…)

Cinco anos de remédios. Parabéns a todos os médicos envolvidos. Ainda bem que já escrevia essa merda antes de começar.

Já falei isso aqui, talvez, mas lembrei agora pouco que Juliana me disse que combinei um chopp com ela e as amigas quando nos encontramos no parque. Eu não apareci e ela me ligou falando um monte. Olhei na agenda, não marquei nada. Peguei esse diário e li o dia em que supostamente prometi a ela que tomaríamos umas cervejas e conversaríamos sobre qualquer coisa depois de tantos meses sem nos ver. Eu me lembrava do parque, que a encontrei lá, mas aqui escrevi sobre o chopp.

Li umas passagens de semanas passadas, palavra por palavra. Deixei o diário na mesa. Reli tudo mais tarde. Liguei para o doutor Bráulio e ele comentou sobre os efeitos colaterais de um dos benzodiazepínicos que me prescreveu. Isso aconteceu no ano passado.

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Gustavo Lopes
Paralisia compulsiva

A terceira mão da coisa surgiu do meio do peito e puxou meus cabelos, dobrando meu pescoço para trás apoiado na curva do encosto do sofá. Só conseguia enxergar o ventilador de teto, que girava devagar, bem devagar. Cada volta durava um minuto ou mais. As pás de madeira rangiam, o som era suportável. O mormaço me incomodava. O sangue misturado com suor fluía da minha boca para dentro das narinas, e sem controle eu o respirava num fluxo contínuo. Meus pulmões se enchiam com o líquido espesso e o ar não tinha mais por onde passar. Como das outras vezes, meu corpo travou e eu era apenas um espectador aguardando o fim daquele incomodo, mas a coisa negra era novidade, e o rosto martelado como um prego na parede, e o sangue escoando de um buraco a outro, e a gargalhada incessante que agulhava meus ouvidos muito mais do que a voz da namorada que roncava no quarto ao lado.

Se na primeira vez eu imaginei que a morte era um momento que se estendia para sempre, quando a coisa apareceu eu tive certeza que o inferno enviara um emissário para me buscar, mas não sem antes arrancar o meu couro sem chance de revidar. Girando e girando. As pás de madeira giravam. E a visão giratória manchada de vermelho. O sangue transbordava das narinas. A visão turva. A gargalhada abafada.

— Acho que ele tá tendo um piripaque… — A voz zunida da minha namorada quebrou o encanto macabro da coisa. Desgrudei-me do couro, sentei e fiquei ali parado um tempo. Apalpei o rosto, olhei as palmas da mão, brancas. Mas a cara toda pulsava e queimava. Fiquei o dia todo pensando na coisa.

 

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Trechos de 25 de agosto de 2005

(…)

Cinco anos de remédios. Parabéns a todos os médicos envolvidos. Ainda bem que já escrevia essa merda antes de começar.

Já falei isso aqui, talvez, mas lembrei agora pouco que Juliana me disse que combinei um chopp com ela e as amigas quando nos encontramos no parque. Eu não apareci e ela me ligou falando um monte. Olhei na agenda, não marquei nada. Peguei esse diário e li o dia em que supostamente prometi a ela que tomaríamos umas cervejas e conversaríamos sobre qualquer coisa depois de tantos meses sem nos ver. Eu me lembrava do parque, que a encontrei lá, mas aqui escrevi sobre o chopp.

Li umas passagens de semanas passadas, palavra por palavra. Deixei o diário na mesa. Reli tudo mais tarde. Liguei para o doutor Bráulio e ele comentou sobre os efeitos colaterais de um dos benzodiazepínicos que me prescreveu. Isso aconteceu no ano passado.

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