Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
Facebook: facebook.com/blogdogusta





Paralisia compulsiva

Tentei ficar sem os remédios por uns meses e a coisa estuprou minhas noites. Lutei contra a vontade de engolir uns comprimidos ou pular da janela. Não consegui, mas pelo menos não escolhi a segunda opção. Quantas vezes será que mencionei a mesma ladainha aqui?

(…)

De todas as memórias, as da coisa são as que perduram. Fecho os olhos e a vejo puxando minhas tripas para fora e sugando para dentro como se fosse um macarrão carnoso. Posso sentir suas unhas serrilhadas rasgando meu abdome devagar, um puxão, o interior do meu corpo exposto. Ouço-a ruminando, aquele som úmido e crocante, e os pedaços da janta do dia anterior vazando por entre os dentes protusos.

Perco a sanidade pedaço a pedaço, como peças de um quebra-cabeça que só consigo montar depois de perscrutar o “eu” de dias passados. Forrei a porta da geladeira e a parede do escritório com lembretes, colei post-its até no vidro do carro que mal consigo dirigir. Antes um ano cabia num caderno. Hoje compro um de trezentas folhas por mês. Se não descrevo cada pormenor, corro o risco de perder, e eu não quero que minha vida se desfaça e só a coisa reste. Antes escrevia por escrever, não como uma obrigação minuciosa e diária. Levava dias para colocar no papel algo que julguei interessante e contava da forma como me lembrava. Agora me perco anotando fatos, pensamentos, sentimentos. Não sei se amanhã acordarei com o quebra-cabeça sem peças.

(…)

Em 12 de julho registrei essa mesma passagem pela vigésima sétima vez. Com esta, vinte e oito.

 

***

12 de novembro de 2017

00h00 – Acabaram os episódios de House. Gostei do final e pelas anotações da semana passada também gostei do começo. Coloquei o DVD de Arquivo X, primeira temporada.

06h55 – Peter deixou as compras do mês, levou o cesto de roupas sujas, nem quis conversar. Pedi para comprar seis cadernos e ele só trouxe um.

Nota para Peter: Pode ler, seu filho da puta. A Rita me contou que você fuça nos diários quando tomo o remédio de emergência. Essa cara de cu não me engana. E quer saber? Se você não vier, Rita vem no seu lugar. Até prefiro que seja ela.

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Gustavo Lopes
Paralisia compulsiva

Tentei ficar sem os remédios por uns meses e a coisa estuprou minhas noites. Lutei contra a vontade de engolir uns comprimidos ou pular da janela. Não consegui, mas pelo menos não escolhi a segunda opção. Quantas vezes será que mencionei a mesma ladainha aqui?

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De todas as memórias, as da coisa são as que perduram. Fecho os olhos e a vejo puxando minhas tripas para fora e sugando para dentro como se fosse um macarrão carnoso. Posso sentir suas unhas serrilhadas rasgando meu abdome devagar, um puxão, o interior do meu corpo exposto. Ouço-a ruminando, aquele som úmido e crocante, e os pedaços da janta do dia anterior vazando por entre os dentes protusos.

Perco a sanidade pedaço a pedaço, como peças de um quebra-cabeça que só consigo montar depois de perscrutar o “eu” de dias passados. Forrei a porta da geladeira e a parede do escritório com lembretes, colei post-its até no vidro do carro que mal consigo dirigir. Antes um ano cabia num caderno. Hoje compro um de trezentas folhas por mês. Se não descrevo cada pormenor, corro o risco de perder, e eu não quero que minha vida se desfaça e só a coisa reste. Antes escrevia por escrever, não como uma obrigação minuciosa e diária. Levava dias para colocar no papel algo que julguei interessante e contava da forma como me lembrava. Agora me perco anotando fatos, pensamentos, sentimentos. Não sei se amanhã acordarei com o quebra-cabeça sem peças.

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Em 12 de julho registrei essa mesma passagem pela vigésima sétima vez. Com esta, vinte e oito.

 

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12 de novembro de 2017

00h00 – Acabaram os episódios de House. Gostei do final e pelas anotações da semana passada também gostei do começo. Coloquei o DVD de Arquivo X, primeira temporada.

06h55 – Peter deixou as compras do mês, levou o cesto de roupas sujas, nem quis conversar. Pedi para comprar seis cadernos e ele só trouxe um.

Nota para Peter: Pode ler, seu filho da puta. A Rita me contou que você fuça nos diários quando tomo o remédio de emergência. Essa cara de cu não me engana. E quer saber? Se você não vier, Rita vem no seu lugar. Até prefiro que seja ela.

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