Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
Facebook: facebook.com/blogdogusta





Paralisia compulsiva

07h30 – Preparei pão com ovo. Isso eu ainda sei. Comi. Tomei café. Banho. Liguei o computador. Hora de trabalhar no romance.

12h15 – Bloqueio de escritor. A coisa não aparece faz uns dias e eu não sei mais o que colocar para deixar a história interessante. O maldito ponteiro do Word piscou, piscou, e não saiu nada. O branco da página enegreceu a vista. Deitei um pouco. Não sei se devo.

12h57 – Almocei com a vizinha nova. Essa novinha curte uma sarrada, como fala na música. Certeza. Ela só não pode entrar aqui. Marquei que devo investir nela nuns três post-its de cores de diferentes. O frango com batatas dela parece de restaurante. Ela cheira sabonete Dove, daqueles caros, e eu tomando banho com os de promoção de cinquenta centavos. Varri uns cadernos e marquei a última foda em 21 de novembro de 2007. Logo, logo, faz aniversário de 10 anos.

NOTA, NOTA, NOTA, Investir na novinha. Perguntar o nome dela NOTA, NOTA, NOTA.

13h05 – Preciso dar um jeito no conto. O post-it diz que o Pedrão passará aqui na sexta que vem e quer mais um, mas não consigo continuar desse jeito. O doutor Marcelo me proibiu de misturar o remédio com alucinógenos. Meu lado escritor quer que eu prossiga com a ideia, foda-se as consequências; já estou quebrado mesmo e a coisa não vai me deixar em paz. Eu nem quero que ela me deixe em paz, eu preciso dela, ou então acabou a grana. O cara que escreve para aquele site, que fica me mandando mensagem perguntando de onde tiro minhas ideias, voltou a me perturbar depois do último conto. Pedrão pagou um pau para a cena do escalpelamento em frente ao espelho. Rendeu uns bons Reais. Agora eu preciso de algo grande para o gran finale. Eu sobrevivo à outra parada. Vaso ruim não quebra.

14h44 – Engoli o LSD, o remédio e uma dose de tequila. Pensei em experimentar com a vodka que o Peter trouxe da Rússia, mas da outra vez acho que foi a tequila que deu o toque de lucidez. Vai começar.

O braço da coisa saiu da minha boca. Ela rasgou as laterais da bochecha e meu maxilar caiu na lateral do sofá. Não senti dor, só o descolar da carne repuxada. Ela entalou na garganta e eu a puxei para fora. Depois ela enfiou o braço de volta e me arrancou de dentro do meu corpo. Voamos pela janela, ela quer me mostrar alguma coisa. Seguro o caderno e a caneta no ar.

(meu peito está ardendo, mas não sei se é efeito ou se é real)

Entramos na luz azulada que emanava do sino da igreja da Sé. Certeza que era aquela igreja só pelo cheiro de mijo. Nossos corpos se desfazem em cores alaranjadas, que se misturam com o espectro multicolorido e caleidoscópico dos túneis do labirinto. A coisa me contou uma vez sobre essa viagem. Entendi para onde ela quer me levar. O calor e o frio competiam enquanto cortávamos caminhos pelo listrado de preto e branco e pelos vermelhos serpenteantes. As cores mais escuras raspavam no âmago, uma dor lancinante que repuxava todos os nervos da alma.

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Gustavo Lopes
Paralisia compulsiva

07h30 – Preparei pão com ovo. Isso eu ainda sei. Comi. Tomei café. Banho. Liguei o computador. Hora de trabalhar no romance.

12h15 – Bloqueio de escritor. A coisa não aparece faz uns dias e eu não sei mais o que colocar para deixar a história interessante. O maldito ponteiro do Word piscou, piscou, e não saiu nada. O branco da página enegreceu a vista. Deitei um pouco. Não sei se devo.

12h57 – Almocei com a vizinha nova. Essa novinha curte uma sarrada, como fala na música. Certeza. Ela só não pode entrar aqui. Marquei que devo investir nela nuns três post-its de cores de diferentes. O frango com batatas dela parece de restaurante. Ela cheira sabonete Dove, daqueles caros, e eu tomando banho com os de promoção de cinquenta centavos. Varri uns cadernos e marquei a última foda em 21 de novembro de 2007. Logo, logo, faz aniversário de 10 anos.

NOTA, NOTA, NOTA, Investir na novinha. Perguntar o nome dela NOTA, NOTA, NOTA.

13h05 – Preciso dar um jeito no conto. O post-it diz que o Pedrão passará aqui na sexta que vem e quer mais um, mas não consigo continuar desse jeito. O doutor Marcelo me proibiu de misturar o remédio com alucinógenos. Meu lado escritor quer que eu prossiga com a ideia, foda-se as consequências; já estou quebrado mesmo e a coisa não vai me deixar em paz. Eu nem quero que ela me deixe em paz, eu preciso dela, ou então acabou a grana. O cara que escreve para aquele site, que fica me mandando mensagem perguntando de onde tiro minhas ideias, voltou a me perturbar depois do último conto. Pedrão pagou um pau para a cena do escalpelamento em frente ao espelho. Rendeu uns bons Reais. Agora eu preciso de algo grande para o gran finale. Eu sobrevivo à outra parada. Vaso ruim não quebra.

14h44 – Engoli o LSD, o remédio e uma dose de tequila. Pensei em experimentar com a vodka que o Peter trouxe da Rússia, mas da outra vez acho que foi a tequila que deu o toque de lucidez. Vai começar.

O braço da coisa saiu da minha boca. Ela rasgou as laterais da bochecha e meu maxilar caiu na lateral do sofá. Não senti dor, só o descolar da carne repuxada. Ela entalou na garganta e eu a puxei para fora. Depois ela enfiou o braço de volta e me arrancou de dentro do meu corpo. Voamos pela janela, ela quer me mostrar alguma coisa. Seguro o caderno e a caneta no ar.

(meu peito está ardendo, mas não sei se é efeito ou se é real)

Entramos na luz azulada que emanava do sino da igreja da Sé. Certeza que era aquela igreja só pelo cheiro de mijo. Nossos corpos se desfazem em cores alaranjadas, que se misturam com o espectro multicolorido e caleidoscópico dos túneis do labirinto. A coisa me contou uma vez sobre essa viagem. Entendi para onde ela quer me levar. O calor e o frio competiam enquanto cortávamos caminhos pelo listrado de preto e branco e pelos vermelhos serpenteantes. As cores mais escuras raspavam no âmago, uma dor lancinante que repuxava todos os nervos da alma.

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