Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
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Paralisia compulsiva

 Atravessei o espírito de meu pai e de minha mãe no caminho. Quanto tempo não os via! Eles gritavam:

— Pare! — Meu pai implorou. — Volte pra casa, por favor, volte pra casa.

— Esse não é o caminho, meu filho, — os olhos de esmeralda de minha mãe cuspiam lágrimas de sangue — você vai se esgulepar.

Eu nunca dei ouvidos a eles mesmo, por que faria isso agora?

A alma de minha mãe se embaraçou com a minha, como um emaranhado de fios, me puxava de volta para a luz azul. Projetei o ódio de quando ela me surrou na frente de toda a turma do colegial. O pedaço do quebra-cabeça brotou em boa hora. O impacto arrebentou sua cauda e ela se despregou, caindo nas luzes mais escuras.

Os cacos etéreos congelavam nas partes mais profundas do caminho, como pedaços de vidro, afiados. A coisa se deliciava e gargalhava vislumbrando a chuva afiada aguilhoando meu espírito intermitente. Não sei por que perco tempo tentando descrever a viagem. Palavras perdem o sentido diante dela. O tempo me confunde. Meu peito arde. Sinto-me como uma bolha de dor e desespero flutuando numa piscina espessa e luminosa. Mil almas cruzaram meu âmago, urrando cenas dignas de um conto.

Anna Mastöm Askoy me mostrou como seus pais a prenderam numa catedral abandonada e desfiaram sua pele com um punhal sagrado diante de dezenas de pessoas. O feixe de luz multicolorido banhava seu corpo nu estendido por cordas, como uma estrela humana. Vi um livro negro, cheio de penas, em cima do pedestal de ouro. O sangue da garota escorria por um funil, enchendo taças com formato de mão, enquanto colocavam as tiras de pele no altar. Ela queria gritar, mas costuraram sua boca e removeram sua língua. Ela morreu e não soube como o ritual acabou.

 Giramos pela espiral negra, mais fundo, mais fundo. Ali as almas guardavam segredos que não ouso repetir. Nem mesmo a memória de Anna se equiparava à brutalidade pegajosa e ao horror primal daqueles que gravitam na escuridão. Fechei os olhos da alma. Faltava pouco, muito pouco.

Acordei diante de meu corpo. Foi como da primeira vez. As chamas consumiam o apartamento. As pilhas de cadernos alimentavam o fogo e meu corpo jazia desacordado, porém, as mãos escreviam no caderno sem parar. A coisa sumiu. Sentia ela muito perto, mas não a via. A janela da sala despencou. Ouvi o som da pancada e o alarme disparando. A fumaça formou uma coluna que ascendia aos céus. Podia ver com parte da minha alma que ainda flutuava do lado de fora.

Um cara entrou. Não o reconheço. Ele quer os meus cadernos. Não sei se isso faz parte do estado de paralisia. Colocou alguns debaixo do braço e agora quer o que está com meu corpo desacordado. Chutou meu rosto repetidas vezes. Espera… Ele não é o cara que escreve pro

Publicado em 13 de novembro de 2017 à 00h00.

 

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Gustavo Lopes
Paralisia compulsiva

 Atravessei o espírito de meu pai e de minha mãe no caminho. Quanto tempo não os via! Eles gritavam:

— Pare! — Meu pai implorou. — Volte pra casa, por favor, volte pra casa.

— Esse não é o caminho, meu filho, — os olhos de esmeralda de minha mãe cuspiam lágrimas de sangue — você vai se esgulepar.

Eu nunca dei ouvidos a eles mesmo, por que faria isso agora?

A alma de minha mãe se embaraçou com a minha, como um emaranhado de fios, me puxava de volta para a luz azul. Projetei o ódio de quando ela me surrou na frente de toda a turma do colegial. O pedaço do quebra-cabeça brotou em boa hora. O impacto arrebentou sua cauda e ela se despregou, caindo nas luzes mais escuras.

Os cacos etéreos congelavam nas partes mais profundas do caminho, como pedaços de vidro, afiados. A coisa se deliciava e gargalhava vislumbrando a chuva afiada aguilhoando meu espírito intermitente. Não sei por que perco tempo tentando descrever a viagem. Palavras perdem o sentido diante dela. O tempo me confunde. Meu peito arde. Sinto-me como uma bolha de dor e desespero flutuando numa piscina espessa e luminosa. Mil almas cruzaram meu âmago, urrando cenas dignas de um conto.

Anna Mastöm Askoy me mostrou como seus pais a prenderam numa catedral abandonada e desfiaram sua pele com um punhal sagrado diante de dezenas de pessoas. O feixe de luz multicolorido banhava seu corpo nu estendido por cordas, como uma estrela humana. Vi um livro negro, cheio de penas, em cima do pedestal de ouro. O sangue da garota escorria por um funil, enchendo taças com formato de mão, enquanto colocavam as tiras de pele no altar. Ela queria gritar, mas costuraram sua boca e removeram sua língua. Ela morreu e não soube como o ritual acabou.

 Giramos pela espiral negra, mais fundo, mais fundo. Ali as almas guardavam segredos que não ouso repetir. Nem mesmo a memória de Anna se equiparava à brutalidade pegajosa e ao horror primal daqueles que gravitam na escuridão. Fechei os olhos da alma. Faltava pouco, muito pouco.

Acordei diante de meu corpo. Foi como da primeira vez. As chamas consumiam o apartamento. As pilhas de cadernos alimentavam o fogo e meu corpo jazia desacordado, porém, as mãos escreviam no caderno sem parar. A coisa sumiu. Sentia ela muito perto, mas não a via. A janela da sala despencou. Ouvi o som da pancada e o alarme disparando. A fumaça formou uma coluna que ascendia aos céus. Podia ver com parte da minha alma que ainda flutuava do lado de fora.

Um cara entrou. Não o reconheço. Ele quer os meus cadernos. Não sei se isso faz parte do estado de paralisia. Colocou alguns debaixo do braço e agora quer o que está com meu corpo desacordado. Chutou meu rosto repetidas vezes. Espera… Ele não é o cara que escreve pro

Publicado em 13 de novembro de 2017 à 00h00.

 

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