Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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Quando o Diabo chegou

        Nascido em uma cidade pequena, eu imaginava que a violência e a brutalidade eram coisas de cidade grande, daquelas que só via nos jornais sensacionalistas que passavam à tarde na televisão. Acho que posso contar nos dedos da mão direita quando aconteceu alguma coisa ruim aqui na cidade em todos esses anos. Teve a briga do Marcelo com a mulher dele — com direito a barraco no meio da rua, à noite —, teve os garotos da Rua 9 que passaram a mão numas maçãs do pomar do velho Beto — e ele expulsou os moleques com tiros de espingarda para o alto —, se não me engano, duas brigas no bar do Peixe, e em nenhuma delas alguém sangrou. Quatro vezes. Quatro coisas ruins que aconteceram na cidade, nenhuma delas comigo. Ruins, modo de dizer. Situações como essa eram o que encarávamos como violência. Brutalidade nem era uma palavra que eu tinha no meu vocabulário. Mas isso mudou, quando ele chegou.

        Ninguém entendeu seu nome. Era Cícero, Sífero, Sifer, não sei dizer. Para mim, soava como Cícero. O primeiro que cruzou seu caminho foi o velho Beto. Ele voltava com uns sacos de milho na caçamba da picape, que costumava comprar no mercadão da cidade mais próxima, quando percebeu um homem de terno e sapato refletindo a luz dos faróis, no meio da estrada. Até então, ele devia estar caminhando no escuro, pois não havia iluminação naquele trecho. Era só mato e chão batido de terra. Beto chamou o estranho na janela, com a mão na pistola, mas depois de trocarem algumas palavras, decidiu dar-lhe uma carona. Não tinha motivo para desconfiar do homem. Cícero só estava passando por ali. Quando Beto me contou essa história, perguntei se ele investigou a origem do homem, por que passava pela nossa cidade — no rego do mundo —, se estava perdido, se visitava um parente distante, negócios, um motivo que fosse plausível para explicar o que fazia um homem de terno no escuro, tão longe da cidade grande onde não era incomum ver um homem vestido daquele jeito. Ele disse que sentiu algo no Cícero, algo que não sabia explicar, e resolveu ajudá-lo.

        Beto o levou até o bar do Peixe, onde ficou hospedado no andar de cima, no quarto que o Peixe usava quando seu primo ia visitá-lo. Nossa cidade não tem hotel, nem albergue, nem motel. Para substituir o último, tem o milharal da dona Gumercinda ou os celeiros abandonados da fazenda dos Cavalcanti. Agora, por qual motivo uma cidade com menos de dez mil habitantes se preocuparia com quem vem de fora? A gente só acolhia quem chegava, quando chegava. Simples assim.

        O homem de terno foi a estrela do almoço no restaurante da dona Rosa. Teve mulher que deixou a própria comida esfriar na panela só para comer o mesmo angu com miúdos de porco que serviam de segunda a segunda. Homem de fora aqui é como pão perto de pomba — isso pelo menos não mudou —, e aquele restaurante virou um ninho. A fila para entrar virou a esquina. Quase não consegui entrar, foi muita sorte sair mais cedo do mercado para almoçar naquele dia.

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Gustavo Lopes
Quando o Diabo chegou

        Nascido em uma cidade pequena, eu imaginava que a violência e a brutalidade eram coisas de cidade grande, daquelas que só via nos jornais sensacionalistas que passavam à tarde na televisão. Acho que posso contar nos dedos da mão direita quando aconteceu alguma coisa ruim aqui na cidade em todos esses anos. Teve a briga do Marcelo com a mulher dele — com direito a barraco no meio da rua, à noite —, teve os garotos da Rua 9 que passaram a mão numas maçãs do pomar do velho Beto — e ele expulsou os moleques com tiros de espingarda para o alto —, se não me engano, duas brigas no bar do Peixe, e em nenhuma delas alguém sangrou. Quatro vezes. Quatro coisas ruins que aconteceram na cidade, nenhuma delas comigo. Ruins, modo de dizer. Situações como essa eram o que encarávamos como violência. Brutalidade nem era uma palavra que eu tinha no meu vocabulário. Mas isso mudou, quando ele chegou.

        Ninguém entendeu seu nome. Era Cícero, Sífero, Sifer, não sei dizer. Para mim, soava como Cícero. O primeiro que cruzou seu caminho foi o velho Beto. Ele voltava com uns sacos de milho na caçamba da picape, que costumava comprar no mercadão da cidade mais próxima, quando percebeu um homem de terno e sapato refletindo a luz dos faróis, no meio da estrada. Até então, ele devia estar caminhando no escuro, pois não havia iluminação naquele trecho. Era só mato e chão batido de terra. Beto chamou o estranho na janela, com a mão na pistola, mas depois de trocarem algumas palavras, decidiu dar-lhe uma carona. Não tinha motivo para desconfiar do homem. Cícero só estava passando por ali. Quando Beto me contou essa história, perguntei se ele investigou a origem do homem, por que passava pela nossa cidade — no rego do mundo —, se estava perdido, se visitava um parente distante, negócios, um motivo que fosse plausível para explicar o que fazia um homem de terno no escuro, tão longe da cidade grande onde não era incomum ver um homem vestido daquele jeito. Ele disse que sentiu algo no Cícero, algo que não sabia explicar, e resolveu ajudá-lo.

        Beto o levou até o bar do Peixe, onde ficou hospedado no andar de cima, no quarto que o Peixe usava quando seu primo ia visitá-lo. Nossa cidade não tem hotel, nem albergue, nem motel. Para substituir o último, tem o milharal da dona Gumercinda ou os celeiros abandonados da fazenda dos Cavalcanti. Agora, por qual motivo uma cidade com menos de dez mil habitantes se preocuparia com quem vem de fora? A gente só acolhia quem chegava, quando chegava. Simples assim.

        O homem de terno foi a estrela do almoço no restaurante da dona Rosa. Teve mulher que deixou a própria comida esfriar na panela só para comer o mesmo angu com miúdos de porco que serviam de segunda a segunda. Homem de fora aqui é como pão perto de pomba — isso pelo menos não mudou —, e aquele restaurante virou um ninho. A fila para entrar virou a esquina. Quase não consegui entrar, foi muita sorte sair mais cedo do mercado para almoçar naquele dia.

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