Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
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Quando o Diabo chegou

        Dali a confusão seguiu para a praça da igreja. O “gringo” não deu bola para nenhuma das caipiras daqui e deitou ao sol em um dos bancos, como um mendigo de luxo. Voltou para o bar do Peixe perto das oito. Ficou até tarde comendo torresmo e escutando as histórias dos bêbados, enquanto bebia umas geladas, e depois subiu para dormir.

        Este era um dia típico aqui na cidade, quando aparecia um cara diferente vindo de São Paulo, ou um parente dos Cavalcanti, antes de abandonarem a fazenda, ou quem sabe uma prima distante de alguém. Era o maior rebuliço, depois passava, e a gente voltava à monotonia rural.

        No dia seguinte, dizem que o Peixe achou que o homem estava demorando muito para descer. Subiu para acordá-lo e descobriu que o quarto estava vazio. Eu só passei pelo bar por volta da uma da tarde, quando escutei barulho de vidro quebrando. Pensei que fosse a Simone — ela costumava derrubar as canecas com frequência, não tinha prática em equilibrar mais do que duas ou três na bandeja —, mas então na sequência ouvi uma pancada, um grito, uma cadeira atravessando a janela fechada da entrada. Corri para dentro e peguei a confusão no meio, uma briga generalizada, como só havia visto na televisão. Martins e Gomes sangravam no chão, ambos pela cabeça. O Peixe estava do outro lado do balcão, arremessando canecas e garrafas sem um alvo específico, e os demais usavam os cacos que pegavam do chão para se cortar. Puxei Wilsinho da oficina para fora e tive que dar uns tapas no rosto dele até ele acordar do “transe”. Explicou que naquela manhã, alguém soltou que a mulher do Peixe estava de caso com o Cunha da rua 6, e o Cunha ouviu no dia anterior, no restaurante da dona Rosa, que o Peixe estava de olho na filha dele que só tinha dezesseis. Não vou mentir. Eu desconfiava que o Cunha tivesse alguma coisa com a mulher do Peixe, os dois viviam de risadinha e se olhando de rabo de olho, mas só eles poderiam confirmar a história, e agora é tarde demais. A briga no bar acabou quando Simone levou uma garrafada no pescoço e desmaiou. Na verdade, só acabou minutos depois, quando o irmão do Martins tropeçou na garçonete. Ele agachou, checou a respiração, a pulsação, e só parou a manobra de ressuscitação quando o médico do posto chegou. Mais tarde naquele dia ele se mataria, deixando um bilhete registrando o amor por sua noiva e que não poderia viver num mundo sem ela.

        Ninguém sabia como a conversa começou, nem se preocupou em ouvir as partes. Ninguém também sabia como a briga começou, só de como acabou. Mas eu sei. Sei que foi o Diabo quem começou.

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Gustavo Lopes
Quando o Diabo chegou

        Dali a confusão seguiu para a praça da igreja. O “gringo” não deu bola para nenhuma das caipiras daqui e deitou ao sol em um dos bancos, como um mendigo de luxo. Voltou para o bar do Peixe perto das oito. Ficou até tarde comendo torresmo e escutando as histórias dos bêbados, enquanto bebia umas geladas, e depois subiu para dormir.

        Este era um dia típico aqui na cidade, quando aparecia um cara diferente vindo de São Paulo, ou um parente dos Cavalcanti, antes de abandonarem a fazenda, ou quem sabe uma prima distante de alguém. Era o maior rebuliço, depois passava, e a gente voltava à monotonia rural.

        No dia seguinte, dizem que o Peixe achou que o homem estava demorando muito para descer. Subiu para acordá-lo e descobriu que o quarto estava vazio. Eu só passei pelo bar por volta da uma da tarde, quando escutei barulho de vidro quebrando. Pensei que fosse a Simone — ela costumava derrubar as canecas com frequência, não tinha prática em equilibrar mais do que duas ou três na bandeja —, mas então na sequência ouvi uma pancada, um grito, uma cadeira atravessando a janela fechada da entrada. Corri para dentro e peguei a confusão no meio, uma briga generalizada, como só havia visto na televisão. Martins e Gomes sangravam no chão, ambos pela cabeça. O Peixe estava do outro lado do balcão, arremessando canecas e garrafas sem um alvo específico, e os demais usavam os cacos que pegavam do chão para se cortar. Puxei Wilsinho da oficina para fora e tive que dar uns tapas no rosto dele até ele acordar do “transe”. Explicou que naquela manhã, alguém soltou que a mulher do Peixe estava de caso com o Cunha da rua 6, e o Cunha ouviu no dia anterior, no restaurante da dona Rosa, que o Peixe estava de olho na filha dele que só tinha dezesseis. Não vou mentir. Eu desconfiava que o Cunha tivesse alguma coisa com a mulher do Peixe, os dois viviam de risadinha e se olhando de rabo de olho, mas só eles poderiam confirmar a história, e agora é tarde demais. A briga no bar acabou quando Simone levou uma garrafada no pescoço e desmaiou. Na verdade, só acabou minutos depois, quando o irmão do Martins tropeçou na garçonete. Ele agachou, checou a respiração, a pulsação, e só parou a manobra de ressuscitação quando o médico do posto chegou. Mais tarde naquele dia ele se mataria, deixando um bilhete registrando o amor por sua noiva e que não poderia viver num mundo sem ela.

        Ninguém sabia como a conversa começou, nem se preocupou em ouvir as partes. Ninguém também sabia como a briga começou, só de como acabou. Mas eu sei. Sei que foi o Diabo quem começou.

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