Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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Quando o Diabo chegou

        O caso repercutiu em todas as rodas de fofoca, foi destaque na rádio local e levantou a poeira da delegacia, mas logo seria substituído por um evento ainda maior. No dia seguinte, o velho Beto interrompeu a missa das sete com a espingarda na mão, durante o evangelho.

        — Eu vou descobrir quem está me roubando, seus malditos! — Gritou repetidas vezes, fazendo chover babas nos que estavam sentados próximos à saída e profanando a casa de Deus.

        O padre parou a missa e pediu calma no microfone. Velho Beto respondeu com um tiro no vitral com a imagem de Jesus Cristo e apontou a arma na direção do altar. O tiro seguinte atingiu o coroinha no peito. O fazendeiro atirou sem aviso. O garoto era um dos que gostava de pular a cerca de sua fazenda para roubar maçãs, laranjas ou carambolas. Eram tantos pés que uma ou duas puladas de cerca por semana não faziam falta.

        — Ninguém mais vai me roubar, ninguém mais!

        Pensei em fugir, mas minhas pernas paralisaram. Estava no andar de cima, segurando o violão. Marina, uma das cantoras, desceu correndo e tomou um tiro na coxa. Eu e o restante da banda resolvemos esperar.

        O padre se levantou, depois de tentar acudir o coroinha com o coração estilhaçado. Gritou alguma coisa que não consegui entender, e levou um tiro na careca. O crânio abriu como uma boca, com um cérebro entalado dentro. Beto jogou a arma no chão e correu para fora. Alguns homens tentaram alcançá-lo, mas ele subiu na picape e acelerou, quase atropelando uns três. A polícia conseguiu interceptá-lo perto da estrada.

        O delegado José, com seus quarenta anos no cargo, fez um comunicado na rádio local. Era a primeira vez que presenciava um evento tão horrendo, precedido pela morte de Simone e cinco no hospital em estado grave. Dizem que Beto chegou à delegacia chorando. O homem insistia que não queria puxar o gatilho, mas algo puxou por ele. Não negou que estava furioso, mas levou a arma apenas para assustar o povo, como fazia com os moleques que pulavam sua cerca. No dia em que encontrou Cícero, descarregou os sacos de milho no armazém e foi dormir — quando saia da cidade para comprar suprimentos, trocava o dia pela noite. Ao acordar, sentiu que precisava conferir a mercadoria. Fez a contagem e descobriu que faltavam quatro sacos de milho, além de três sacos de feno, uma foice, uma enxada e uma roda do trator. O velho Beto era sozinho na fazenda, trabalhava dia e noite para suprir a demanda da cidade de batata, mandioca e algumas frutas, e tinha um filho da puta roubando seu milho? Gastava meio tanque de gasolina para buscar o maldito milho, só para revender na cidade por um valor que quase não lhe dava lucro, e ainda assim havia alguém com coragem de sacaneá-lo? Motivo não lhe faltava para os crimes que cometeu, mas jurava pela alma do padre que matou e da igreja que maculou que algo puxou o gatilho no seu lugar. José não comprou a história, e trancou Beto na delegacia por uns bons meses, até encontrar o homem com o pé da cama atravessado na garganta.

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Gustavo Lopes
Quando o Diabo chegou

        O caso repercutiu em todas as rodas de fofoca, foi destaque na rádio local e levantou a poeira da delegacia, mas logo seria substituído por um evento ainda maior. No dia seguinte, o velho Beto interrompeu a missa das sete com a espingarda na mão, durante o evangelho.

        — Eu vou descobrir quem está me roubando, seus malditos! — Gritou repetidas vezes, fazendo chover babas nos que estavam sentados próximos à saída e profanando a casa de Deus.

        O padre parou a missa e pediu calma no microfone. Velho Beto respondeu com um tiro no vitral com a imagem de Jesus Cristo e apontou a arma na direção do altar. O tiro seguinte atingiu o coroinha no peito. O fazendeiro atirou sem aviso. O garoto era um dos que gostava de pular a cerca de sua fazenda para roubar maçãs, laranjas ou carambolas. Eram tantos pés que uma ou duas puladas de cerca por semana não faziam falta.

        — Ninguém mais vai me roubar, ninguém mais!

        Pensei em fugir, mas minhas pernas paralisaram. Estava no andar de cima, segurando o violão. Marina, uma das cantoras, desceu correndo e tomou um tiro na coxa. Eu e o restante da banda resolvemos esperar.

        O padre se levantou, depois de tentar acudir o coroinha com o coração estilhaçado. Gritou alguma coisa que não consegui entender, e levou um tiro na careca. O crânio abriu como uma boca, com um cérebro entalado dentro. Beto jogou a arma no chão e correu para fora. Alguns homens tentaram alcançá-lo, mas ele subiu na picape e acelerou, quase atropelando uns três. A polícia conseguiu interceptá-lo perto da estrada.

        O delegado José, com seus quarenta anos no cargo, fez um comunicado na rádio local. Era a primeira vez que presenciava um evento tão horrendo, precedido pela morte de Simone e cinco no hospital em estado grave. Dizem que Beto chegou à delegacia chorando. O homem insistia que não queria puxar o gatilho, mas algo puxou por ele. Não negou que estava furioso, mas levou a arma apenas para assustar o povo, como fazia com os moleques que pulavam sua cerca. No dia em que encontrou Cícero, descarregou os sacos de milho no armazém e foi dormir — quando saia da cidade para comprar suprimentos, trocava o dia pela noite. Ao acordar, sentiu que precisava conferir a mercadoria. Fez a contagem e descobriu que faltavam quatro sacos de milho, além de três sacos de feno, uma foice, uma enxada e uma roda do trator. O velho Beto era sozinho na fazenda, trabalhava dia e noite para suprir a demanda da cidade de batata, mandioca e algumas frutas, e tinha um filho da puta roubando seu milho? Gastava meio tanque de gasolina para buscar o maldito milho, só para revender na cidade por um valor que quase não lhe dava lucro, e ainda assim havia alguém com coragem de sacaneá-lo? Motivo não lhe faltava para os crimes que cometeu, mas jurava pela alma do padre que matou e da igreja que maculou que algo puxou o gatilho no seu lugar. José não comprou a história, e trancou Beto na delegacia por uns bons meses, até encontrar o homem com o pé da cama atravessado na garganta.

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