Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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Quando o Diabo chegou

        Para não deixar a fazenda abandonada, o filho da dona Rosa, Denilson, ficou cuidando da fazenda, a pedido do próprio Beto antes de sua morte. Não levou muito tempo para Vilhaça, dono do outro “grande” restaurante da cidade, perceber que o preço do restaurante concorrente caiu porque Denilson aproveitava para pegar de graça o que Beto plantava. Ele comentou o fato no bar do Peixe — que fora reaberto depois da polícia não encontrar o suspeito pela morte de Simone —, e a história ficou por isso. Duas semanas depois, acordei com a gritaria na rua. Ao sair na janela, notei o foco de luz vermelha a cinco quarteirões. O restaurante da Dona Rosa ardia. Por sorte os bombeiros conseguiram conter as chamas antes que atingissem as casas vizinhas. Jumar, o responsável técnico, concluiu que o incêndio fora proposital, mas para Denilson e sua mãe, a informação de nada adiantava, a menos que houvesse um culpado. A vida de ambos era o restaurante, e não tinham dinheiro para reerguê-lo. Parte do que sobrou Denilson começou a gastar no Peixe, até que Breno, filho do dono, contou sobre a conversa de Vilhaça no bar, que ouviu seu pai comentar em casa.

        Mataram Vilhaça, a esposa e os dois filhos. A soma das facadas superava a casa das dezenas. O principal suspeito; é claro: Denilson. A vingança ficou a cargo dos amigos de Vilhaça, como Cunha, Martins, Gomes, o Marcelo do mercado — meu ex-chefe — e tantos outros frequentadores do bar do Peixe. O que fizeram com Dona Rosa eu não faria a uma mulher nem se ela implorasse e me pagasse. E o pior foi que não tiveram coragem de terminar o serviço, largaram ela na porta de casa, pelada e sangrando, e a mulher está lá hoje, deitada na cama, cheia de escaras e sem reação. O mesmo aconteceu com a filha do Cunha, mas Denilson agiu sozinho, e a garota não sobreviveu.

        Cada vez que um crime tem ocorrido desde então aqui na cidade, alguém entra na corrente, alguém que ouve um sussurro, uma conversa que começou de lugar algum, que sente o ímpeto de seguir a corrente, algo puxando o gatilho. Peixe, Cunha, Denilson, Gomes. Elos quebrados.

        Quando eu ouvi a voz do Diabo, ainda estava na banda da igreja. Depois que Beto matou o padre, outros três vieram para substituí-lo, mas diziam que havia uma sombra na nossa comunidade, e não voltavam mais. Os fiéis passaram a especular o que seria a tal sombra e nove deles apareceram um dia para uma missa que nunca aconteceu contando o mesmo sonho. Nele, Deus pediu para que incendiassem a fazenda daquele que maculou “Sua casa”. Marina foi uma das sonhadoras, e a banda toda — me incluo nessa — resolveu ajudar. Numa noite de sexta-feira, saímos de madrugada, uma procissão de pelo menos uns duzentos fiéis. Nós sabíamos que a fazenda do Beto era a mais importante no que dizia respeito ao fornecimento local, e mesmo assim ateamos fogo no casebre, no celeiro e na plantação. O incêndio se espalhou para as fazendas vizinhas e parte da mata virgem que ficava há vinte quilômetros dali. Quarenta dias de fogo. Mas a proporção do incêndio não fora tão intensa quanto o que vi nas chamas.

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Gustavo Lopes
Quando o Diabo chegou

        Para não deixar a fazenda abandonada, o filho da dona Rosa, Denilson, ficou cuidando da fazenda, a pedido do próprio Beto antes de sua morte. Não levou muito tempo para Vilhaça, dono do outro “grande” restaurante da cidade, perceber que o preço do restaurante concorrente caiu porque Denilson aproveitava para pegar de graça o que Beto plantava. Ele comentou o fato no bar do Peixe — que fora reaberto depois da polícia não encontrar o suspeito pela morte de Simone —, e a história ficou por isso. Duas semanas depois, acordei com a gritaria na rua. Ao sair na janela, notei o foco de luz vermelha a cinco quarteirões. O restaurante da Dona Rosa ardia. Por sorte os bombeiros conseguiram conter as chamas antes que atingissem as casas vizinhas. Jumar, o responsável técnico, concluiu que o incêndio fora proposital, mas para Denilson e sua mãe, a informação de nada adiantava, a menos que houvesse um culpado. A vida de ambos era o restaurante, e não tinham dinheiro para reerguê-lo. Parte do que sobrou Denilson começou a gastar no Peixe, até que Breno, filho do dono, contou sobre a conversa de Vilhaça no bar, que ouviu seu pai comentar em casa.

        Mataram Vilhaça, a esposa e os dois filhos. A soma das facadas superava a casa das dezenas. O principal suspeito; é claro: Denilson. A vingança ficou a cargo dos amigos de Vilhaça, como Cunha, Martins, Gomes, o Marcelo do mercado — meu ex-chefe — e tantos outros frequentadores do bar do Peixe. O que fizeram com Dona Rosa eu não faria a uma mulher nem se ela implorasse e me pagasse. E o pior foi que não tiveram coragem de terminar o serviço, largaram ela na porta de casa, pelada e sangrando, e a mulher está lá hoje, deitada na cama, cheia de escaras e sem reação. O mesmo aconteceu com a filha do Cunha, mas Denilson agiu sozinho, e a garota não sobreviveu.

        Cada vez que um crime tem ocorrido desde então aqui na cidade, alguém entra na corrente, alguém que ouve um sussurro, uma conversa que começou de lugar algum, que sente o ímpeto de seguir a corrente, algo puxando o gatilho. Peixe, Cunha, Denilson, Gomes. Elos quebrados.

        Quando eu ouvi a voz do Diabo, ainda estava na banda da igreja. Depois que Beto matou o padre, outros três vieram para substituí-lo, mas diziam que havia uma sombra na nossa comunidade, e não voltavam mais. Os fiéis passaram a especular o que seria a tal sombra e nove deles apareceram um dia para uma missa que nunca aconteceu contando o mesmo sonho. Nele, Deus pediu para que incendiassem a fazenda daquele que maculou “Sua casa”. Marina foi uma das sonhadoras, e a banda toda — me incluo nessa — resolveu ajudar. Numa noite de sexta-feira, saímos de madrugada, uma procissão de pelo menos uns duzentos fiéis. Nós sabíamos que a fazenda do Beto era a mais importante no que dizia respeito ao fornecimento local, e mesmo assim ateamos fogo no casebre, no celeiro e na plantação. O incêndio se espalhou para as fazendas vizinhas e parte da mata virgem que ficava há vinte quilômetros dali. Quarenta dias de fogo. Mas a proporção do incêndio não fora tão intensa quanto o que vi nas chamas.

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