Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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Quando o Diabo chegou

        Era ele. O tal do Cícero. Ele surgiu das chamas, que refletiam em seus olhos, e andou até mim. Marina, Rubens, dona Gumercinda, todos dizem que eu estava maluco, mas ele estava lá, e desapareceu assim que me tocou. Desde aquele dia, passei a ouvir sua voz, dizendo o que fazer. Sei que foi ele que trouxe a barbárie, que colocou nossa cidade na televisão, plantou essa semente que cresce em mim e quer sair por todos os meus poros.

        Quando fecho os olhos, vejo Marcelo, naquele dia em que o filho da puta me demitiu depois de tantos anos trabalhando no almoxarifado do mercado por um salário de merda. Eu ouço sua voz, dizendo o que fazer. Quando fecho os olhos, vejo Marcelo, com o pescoço debaixo do fatiador de frios, e é a minha mão que o segura. Ele não tem força para reagir, e eu corto o pescoço. Não me contento, e continuo experimentando a sensação de fatiar sua carne, finas lâminas que caem na bandeja. Essa sensação me excita, é meu destino.

        São oito da noite. Daqui a pouco o mercado fecha. Marcelo está em sua sala, checando alguma coisa no computador enquanto se prepara para o encontro com a amante. As atendentes do caixa já saíram e o Bentinho dispensou os meninos do almoxarifado. Bentinho é meu parceiro desde os dezesseis, quando entramos juntos para trabalhar nessa merda de lugar. Ele descobriu que a amante de Marcelo é sua esposa. Enquanto quebro o elo do homem, ele quebrará o da mulher. Bentinho não sabe, mas eu sei que foi quando o Diabo chegou que a corrente começou, foi o Cícero que plantou essa semente em nós, mas não importa. Não vou parar até seguir com a corrente. E lá vem o Marcelo. Chegou a hora.

 

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Gustavo Lopes
Quando o Diabo chegou

        Era ele. O tal do Cícero. Ele surgiu das chamas, que refletiam em seus olhos, e andou até mim. Marina, Rubens, dona Gumercinda, todos dizem que eu estava maluco, mas ele estava lá, e desapareceu assim que me tocou. Desde aquele dia, passei a ouvir sua voz, dizendo o que fazer. Sei que foi ele que trouxe a barbárie, que colocou nossa cidade na televisão, plantou essa semente que cresce em mim e quer sair por todos os meus poros.

        Quando fecho os olhos, vejo Marcelo, naquele dia em que o filho da puta me demitiu depois de tantos anos trabalhando no almoxarifado do mercado por um salário de merda. Eu ouço sua voz, dizendo o que fazer. Quando fecho os olhos, vejo Marcelo, com o pescoço debaixo do fatiador de frios, e é a minha mão que o segura. Ele não tem força para reagir, e eu corto o pescoço. Não me contento, e continuo experimentando a sensação de fatiar sua carne, finas lâminas que caem na bandeja. Essa sensação me excita, é meu destino.

        São oito da noite. Daqui a pouco o mercado fecha. Marcelo está em sua sala, checando alguma coisa no computador enquanto se prepara para o encontro com a amante. As atendentes do caixa já saíram e o Bentinho dispensou os meninos do almoxarifado. Bentinho é meu parceiro desde os dezesseis, quando entramos juntos para trabalhar nessa merda de lugar. Ele descobriu que a amante de Marcelo é sua esposa. Enquanto quebro o elo do homem, ele quebrará o da mulher. Bentinho não sabe, mas eu sei que foi quando o Diabo chegou que a corrente começou, foi o Cícero que plantou essa semente em nós, mas não importa. Não vou parar até seguir com a corrente. E lá vem o Marcelo. Chegou a hora.

 

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