A sombra que dança - Gustavo Lopes
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.





A sombra que dança

– Corre! Corre!

Eu preciso correr. Preciso? Quem está falando comigo? Como vim parar aqui? Vejo árvores finas e altas, um labirinto natural cujo fim não consigo encontrar. Presumo que estou em uma floresta. Está um pouco escuro. Feixes de luz entram por entre copas de árvores em determinados pontos.

Uma mulher passa correndo por mim. Ela segue em linha reta, mal consegue desviar do que está a sua frente, esbarrando em alguns troncos pelo caminho.

– Corre!

Em seguida dois homens surgem, um de cada lado. Eles também estão correndo. Pela direção do som, creio que o homem do lado esquerdo, de cabelos ruivos e roupa xadrez verde e vermelho, seja o autor dos gritos. Viro meu rosto devagar, ainda parado no mesmo lugar, e vejo uma sombra titânica dançando. Ela parece que está engolindo dezenas de pessoas, e elas estão gritando, mas seus gritos estão sendo abafados de alguma forma. Antes que meu cérebro possa interpretar realmente o que está acontecendo, instintivamente corro.

Enquanto sigo a mulher e os dois homens na corrida, tento recordar o que aconteceu antes de surgir de pé nesta floresta. Minha cabeça dói. Minhas memórias estão confusas, como se eu tivesse acabado de acordar e tentasse me lembrar de uma sequência de sonhos. Estou vestindo minha calça preta social, meu sapato lustrado e engraxado, meu terno, minha gravata verde. Hoje é quinta-feira. Eu só uso a gravata verde às quintas-feiras. Correr com estes sapatos é horrível. Sinto cada pedrinha, cada galho, cada pedaço de qualquer coisa, mas acho melhor mantê-los. Correr descalço seria bem pior.

Não consigo organizar meus pensamentos. Volto um, dois dias, mas não consigo me lembrar de nada da quinta-feira. Minha rotina é tão minimalista e disciplinada que qualquer memória de uma quinta-feira de manhã pode ser qualquer quinta-feira dos últimos anos. O despertador toca exatamente às seis da manhã. Eu vou ao banheiro, escovo meus dentes, tomo uma ducha rápida. No café da manhã como uma maçã, uma banana e tomo um copo de leite, escovo os dentes novamente, coloco minha roupa, que já está previamente separada para cada dia da semana, pego minha maleta, desço até a garagem, e sigo pelo mesmo caminho para o trabalho. E pelo que consigo me recordar, tudo isso aconteceu, eu acho, talvez…

Resisto em olhar para trás. A mulher e os dois homens seguem velozes, sem pensar. A mulher está na dianteira, vários metros à frente. Ela está usando uma calça legging, um top vermelho, o cabelo está preso. Julgo por suas roupas que estava preparada para alguma atividade esportiva antes de surgir aqui. Pela definição de suas panturrilhas, e velocidade constante e elevada, ela deve correr como eu. Talvez corra enquanto o sol ainda brilha, por isso veste estas roupas. Eu prefiro correr durante a noite, e os anos de corridas noturnas me dão certa vantagem num momento estranho como esse. Alcanço os dois homens e tento abordá-los.

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Gustavo Lopes
A sombra que dança

– Corre! Corre!

Eu preciso correr. Preciso? Quem está falando comigo? Como vim parar aqui? Vejo árvores finas e altas, um labirinto natural cujo fim não consigo encontrar. Presumo que estou em uma floresta. Está um pouco escuro. Feixes de luz entram por entre copas de árvores em determinados pontos.

Uma mulher passa correndo por mim. Ela segue em linha reta, mal consegue desviar do que está a sua frente, esbarrando em alguns troncos pelo caminho.

– Corre!

Em seguida dois homens surgem, um de cada lado. Eles também estão correndo. Pela direção do som, creio que o homem do lado esquerdo, de cabelos ruivos e roupa xadrez verde e vermelho, seja o autor dos gritos. Viro meu rosto devagar, ainda parado no mesmo lugar, e vejo uma sombra titânica dançando. Ela parece que está engolindo dezenas de pessoas, e elas estão gritando, mas seus gritos estão sendo abafados de alguma forma. Antes que meu cérebro possa interpretar realmente o que está acontecendo, instintivamente corro.

Enquanto sigo a mulher e os dois homens na corrida, tento recordar o que aconteceu antes de surgir de pé nesta floresta. Minha cabeça dói. Minhas memórias estão confusas, como se eu tivesse acabado de acordar e tentasse me lembrar de uma sequência de sonhos. Estou vestindo minha calça preta social, meu sapato lustrado e engraxado, meu terno, minha gravata verde. Hoje é quinta-feira. Eu só uso a gravata verde às quintas-feiras. Correr com estes sapatos é horrível. Sinto cada pedrinha, cada galho, cada pedaço de qualquer coisa, mas acho melhor mantê-los. Correr descalço seria bem pior.

Não consigo organizar meus pensamentos. Volto um, dois dias, mas não consigo me lembrar de nada da quinta-feira. Minha rotina é tão minimalista e disciplinada que qualquer memória de uma quinta-feira de manhã pode ser qualquer quinta-feira dos últimos anos. O despertador toca exatamente às seis da manhã. Eu vou ao banheiro, escovo meus dentes, tomo uma ducha rápida. No café da manhã como uma maçã, uma banana e tomo um copo de leite, escovo os dentes novamente, coloco minha roupa, que já está previamente separada para cada dia da semana, pego minha maleta, desço até a garagem, e sigo pelo mesmo caminho para o trabalho. E pelo que consigo me recordar, tudo isso aconteceu, eu acho, talvez…

Resisto em olhar para trás. A mulher e os dois homens seguem velozes, sem pensar. A mulher está na dianteira, vários metros à frente. Ela está usando uma calça legging, um top vermelho, o cabelo está preso. Julgo por suas roupas que estava preparada para alguma atividade esportiva antes de surgir aqui. Pela definição de suas panturrilhas, e velocidade constante e elevada, ela deve correr como eu. Talvez corra enquanto o sol ainda brilha, por isso veste estas roupas. Eu prefiro correr durante a noite, e os anos de corridas noturnas me dão certa vantagem num momento estranho como esse. Alcanço os dois homens e tento abordá-los.

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