A César o que é de César - Henrique de Micco
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





A César o que é de César

O outro coçou o queixo.

− Quer trabalhar para mim?

− Quero e preciso. Eu não consigo arrumar nada faz meses, minha esposa está doente… os tratamentos são caros. Minha filha anda numa crise fodida de depressão, sabe como é, ela precisou parar com o Jiu-Jitsu, a paixão da vida dela. A coisa só piorou depois disso tudo, depois daquilo que eu e você fizemos… aquele acordo, você sabe bem. Ela anda tendo consultas com um psicólogo, mas todos eles cobram o olho da cara. Bem, e eu também devo precisar de um, andei vendo coisas, e não lembro se tava chapado quando aconteceu. É foda…

− E o que fez com o dinheiro que eu lhe dei do nosso acordo?

Um gole no conhaque.

− Eu andei metido com coisa errada. Me afundei no pó, gastei a porra toda.

− Isso é ruim, bem ruim… não posso contratar um viciado!

− Eu não faço mais, cara. Foi uma fase difícil e só.

O descontentamento era visível no rosto de Eduardo.

Outro gole no conhaque.

“Ele me deve a vida dele, e sabe disso. Não vai dizer não. Não tem o direito de dizer”

Mais um gole.

Ed prosseguiu, limpando o queixo sujo de cerveja com as costas da mão direita.

− Sinto muito, Marcos. Eu vou ficar te devendo essa.

A resposta o atingiu como um chute bem dado nas bolas.

− O… O que? Cara, você sabe que sou tão bom quanto você no que faz. Tudo o que nos separa é o fato de eu não ter frequentado a porra de uma faculdade. É só isso. Um diploma, um pedaço de papel, que não serve nem pra limpar a bunda direito!

− E, ainda assim, você vem me implorar por trabalho? É um tanto quanto contraditório, não acha?

− Eu não nasci em berço de ouro, e você sabe muito bem disso.

− Isso é desculpa de perdedor.

Marcos esmurrou o balcão. Seus braços tremiam e os olhos ardiam; uma queimação lhe subiu do estômago à garganta. O bom e velho inferno interior. Nada fora do comum, estava acostumado aos episódios de ira repentina, seguida de coisas das quais ele quase sempre se arrependia.

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Henrique de Micco
A César o que é de César

O outro coçou o queixo.

− Quer trabalhar para mim?

− Quero e preciso. Eu não consigo arrumar nada faz meses, minha esposa está doente… os tratamentos são caros. Minha filha anda numa crise fodida de depressão, sabe como é, ela precisou parar com o Jiu-Jitsu, a paixão da vida dela. A coisa só piorou depois disso tudo, depois daquilo que eu e você fizemos… aquele acordo, você sabe bem. Ela anda tendo consultas com um psicólogo, mas todos eles cobram o olho da cara. Bem, e eu também devo precisar de um, andei vendo coisas, e não lembro se tava chapado quando aconteceu. É foda…

− E o que fez com o dinheiro que eu lhe dei do nosso acordo?

Um gole no conhaque.

− Eu andei metido com coisa errada. Me afundei no pó, gastei a porra toda.

− Isso é ruim, bem ruim… não posso contratar um viciado!

− Eu não faço mais, cara. Foi uma fase difícil e só.

O descontentamento era visível no rosto de Eduardo.

Outro gole no conhaque.

“Ele me deve a vida dele, e sabe disso. Não vai dizer não. Não tem o direito de dizer”

Mais um gole.

Ed prosseguiu, limpando o queixo sujo de cerveja com as costas da mão direita.

− Sinto muito, Marcos. Eu vou ficar te devendo essa.

A resposta o atingiu como um chute bem dado nas bolas.

− O… O que? Cara, você sabe que sou tão bom quanto você no que faz. Tudo o que nos separa é o fato de eu não ter frequentado a porra de uma faculdade. É só isso. Um diploma, um pedaço de papel, que não serve nem pra limpar a bunda direito!

− E, ainda assim, você vem me implorar por trabalho? É um tanto quanto contraditório, não acha?

− Eu não nasci em berço de ouro, e você sabe muito bem disso.

− Isso é desculpa de perdedor.

Marcos esmurrou o balcão. Seus braços tremiam e os olhos ardiam; uma queimação lhe subiu do estômago à garganta. O bom e velho inferno interior. Nada fora do comum, estava acostumado aos episódios de ira repentina, seguida de coisas das quais ele quase sempre se arrependia.

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